trabalho. Essa ideia de criatividade como processo inclui o de chegar à obra de arte através de um processo exploratório, em vez de trabalhar para um objectivo pré- concebido. Entregar-se ao processo em si, preparando-se para se abrir à criatividade, ao desconhecido como processo e, também, permitindo à obra de arte tornar-se auto- geradora como, por exemplo, o modo com que as palavras poderão sugerir outras palavras através do seu som ou do sentido (Belgrad,1999). A criatividade como processo não é idêntica ao improviso, pois pode envolver trabalho prévio, revisão e descontinuidade, mas tem relação directa com ela. Albert Rothenberg afirma que é usual para a maioria dos escritores encontrar o significado de um poema ao escrevê-lo, embora também, argumenta ele, os artistas em grande parte desconhecem a natureza de seu processo criativo (Rothenberg. 1990) .
Para Rothenherg, a criatividade é "a produção de algo que é novo e verdadeiramente valioso!" (Rothenberg. 1990); ele distingue também os processos criativos de pensamento "Janusiano" e os de pensamento "homospatial", processos criativos que são bastante pertinentes à improvisação. O processo Janusiano envolve a geração de opostos simultâneos: alguns autores como por exemplo, Rothenberg, (1990) e Weisberg (1993) recolocaram depois de Freud a ideia da relação entre os processos inconscientes e conscientes. Teóricos anteriores tendem a enfatizar o papel desempenhado pelo inconsciente no trabalho criativo, e a improvisação como um meio de acesso ao inconsciente.
No entanto, a forma como Rothenberg refere isso tende a sugerir que o trabalho criativo é sempre o resultado de características pré-existentes, enquanto que "uma definição significativa de criatividade deve incluir a ideia de que os seres humanos produzem ideias verdadeiramente novas, (Rothenberg, 1990, p. 52). Para ele, a noção de inconsciente em grande parte passiva não poderia explicar a forma artística, embora possa ser parte do trabalho artístico. Essa visão pode ser útil para ajudar a apreciar a improvisação como um procedimento amplamente consciente, que pode também, por causa da velocidade e falta de revisão, aceder às ideias do inconsciente. Este acesso a elementos inconscientes corresponde a um processo de prolongamento do Eu para lá da consciência de si próprio, o que se encontra implícito em abordagens de muitos improvisadores.
As mudanças na improvisação em diferentes períodos das artes são um aspecto difícil de investigar tendo-se encontrado pouca documentação sobre essa questão. Um estudo bastante recente de Robin Moore (Moore, 1992) tenta resolver o "declínio da improvisação na música ocidental", sucedido durante o século XIX e início do século XX. Moore cita que em algumas tradições de improvisação (como o da música persa) os improvisadores que desafiam convenções podem ser castigados pelos seus pares que desejam evitar a mudança. O decurso de tal resposta é comum ao Ocidente, como quando, por exemplo, Ornette Coleman apareceu pela primeira vez em Nova York, no final de 1950, e foi recebido com desprezo por causa de seu estilo inovador. Como Mike Snow aponta (Snow, 1994), a aceitação do novo jazz de Coleman e de Cecil Taylor foi imediata pelos pintores da época (incluindo alguns dos expressionistas abstractos), mas de forma bastante relutante por muitos músicos da sua época.
Visto que a improvisação tende a ocorrer em formas de expressão não escritas, está também ligada à oralidade e geralmente é mais frequente em culturas de tradição oral. A alfabetização produziu uma dependência das formas de escrita e da noção de um texto fixo (Ong, 1982).
Numa cultura oral, por contraste, nenhuma versão narrativa existe de forma totalmente fixa e cada revelador dessa mesma narrativa será adaptado para responder a uma situação específica. "Na tradição oral, existem tantas variantes menores de um mito como há repetições do mesmo, e o número de repetições pode ser aumentada
indefinidamente" (Ong, 1982, p. 42). Também é importante o aspecto mais público da oralidade: "oralidade primária promove estruturas de personalidade que de certa forma são mais comuns à exteriorização e menos ao introspectivo (Ong, 1982). Actualmente é impossível voltar a um estado de oralidade primária (que precedeu o da expressão escrita), contudo, os improvisadores exploraram muitas vezes tanto a oralidade como a expressão escrita, por exemplo, por meio de um referente textual para a sua improvisação ou gravando a sua improvisação em texto posterior. Mas a oralidade não tem sido uniformemente estimada na nossa cultura actual de alfabetizados. Conforme Ong argumenta, a sobrevalorização da expressão escrita tende a subestimar a oralidade, podendo isso contribuir para a subestimação da improvisação (aspecto que se desenvolverá mais à frente nesta exposição).
No entanto, a improvisação, mercê das teorias como as de Jacques Derrida, Roland Barthes e Michel Foucault pode ser vista a uma nova luz no que respeita ao desafiar da noção do criador como foco único e imediato do sentido (Derrida, 1972; Barthes, 1977; Rabinow, 1984). A ênfase da improvisação na colaboração, ou na projecção de múltiplos Eus, questiona radicalmente as noções tradicionais de subjectividade. A colaboração, por exemplo, envolve a fusão do eu com o outro, de modo que possa ser impossível dizer quem fez o quê, e quanto mais perto os colaboradores trabalham uns dos outros, mais as suas contribuições serão assimiladas (Smith, 1988). Da mesma forma, o re-situar do conceito de Barthes de "morte do autor" e o questionamento de Derrida sobre o envolvimento metafísico da presença, leva geralmente ao questionamento da ideia do artista como a origem do significado. Pelo contrário, o artista é o local em que os sistemas de significado se cruzam (Hazel, Smith e Dean, 1997). Isto ajuda a compreender que a fonte de uma improvisação não é apenas a personalidade do criador: a personalidade é uma construção artificial e em grande parte social. Para além disso exige ainda o questionamento se poderá haver tal coisa como os actos completamente espontâneas.
2.1.3 Teorias de improvisação, metodologias base e suas implicações