Chapitre 1 : État des connaissances sur les submersions marines et leur signature
1.2. Signature sédimentaire des submersions marines
1.2.2. Enregistrement des submersions marines par les dépôts de washover
1.2.2.2. Distribution spatiale des processus d’overwash et des dépôts de washover le long
A emissão da esquematização conceptual da escola antropológica que antecederia a antropologia clássica coincidiria com os primeiros lampejos do colonialismo contemporâneo; ao não olvidar tal simultaneidade factual, facilmente se compreenderá a plausibilidade da intromissão da ideologia colonialista no organismo daquela escola.
O evolucionismo pontificaria com relevante acuidade o término do século XIX, o que levaria a que as suas teses biológicas fossem decalcadas pelo evolucionismo humano; dessa forma, um recrudescer da evolução gradual e faseada das sociedades humanas mapearia a construção do palavreado antropológico.
Os evolucionistas propagandeariam a unilinearidade da história, isto é: embora subsistam num mesmo mundo em cognoscível concomitância sociedades diametralmente opostas, os construtores antropológicos conclamariam a pertença dessas opostas estruturas sociais a uma mesma árvore que teria no topo as organizações societárias ocidentais. Numa escala ascendente, todas as sociedades existentes no mundo, independentemente do seu grau evolutivo, percorreriam o mesmíssimo percurso até atingirem o estado social organizativo visualizado a ocidente, que estaria, segundo a teorética evolucionista, num estado evolutivo superior relativamente aos demais organigramas sociais apelidados de “primitivos”. “Os remotos ancestrais das nações arianas presumivelmente passaram por uma experiência similar à das tribos bárbaras e selvagens existentes.”67
A rede lexical utilizada pela antropologia de raiz positivista é sobejamente etnocêntrica: o “outro”, parte constituinte de “sociedades primitivas e inferiores”, e o “nós”, senhores do modelo estrutural ocidental “moderno e superior”, povoariam o discurso antropológico, intencionando como fim derradeiro a comprovação ipso facto da preeminência social ocidental, e, consequentemente “ (…) o direito e o dever que a
65 Idem, idem, p. 112.
66 Para uma brevíssima noção do paradigma evolucionista em voga na altura mencionada, ver: Murray
LEAF, Uma história da antropologia, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1981, pp. 106-118.
67 Lewis H. Morgan, cit. por Celso Castro in Evolucionismo cultural: textos de Morgan, Tylor e
31 Europa tem de abrir a África à civilização, ao comércio internacional (mais concretamente europeu) (…) ”68
Independentemente de determinados etnocentrismos utilitaristas ao complexo colonial recorrentes na linguagem antropológica, o evolucionismo advogaria, portanto, e em linha com o que tem sido dito, a unidade do homem num percurso homogeneizado da história fragmentado por diversas fases evolutivas a que a nova antropologia reduziria a momentos específicos da evolução técnico-económica. “As investigações mais recentes sobre a condição primitiva da raça humana tendem a demonstrar que a humanidade iniciou a sua carreira no ponto mais baixo da escala, abrindo caminho, do estado selvagem até à civilização, através da lenta acumulação de saber empírico.”69 Morgan dividiria por sete essas “fases de avanço”70:
I- Período Inicial de Selvajaria
II- Período Intermediário de Selvajaria III- Período Final de Selvajaria
IV- Período Inicial de Barbárie
V- Período Intermediário de Barbárie VI- Período Final de Barbárie
VII- Status de Civilização
A unilinearidade patente na antropologia evolucionista ao pressupor uma uniformização na história humana, pressuporia, subsequentemente, unicidade na origem, na experiência e no progresso que derivaria de uma causa-efeito uniforme e, portanto, extensível a todos os organigramas sociais; conhecer a causalidade do momento presente, isto é, de determinada fase evolutiva, através dum racional conhecimento dos efeitos passados, é não somente reconhecer a fulcralidade prática das crendices selvagens para a compreensão e elaboração dos costumes adoptados na periodização presente, bem como um auxílio de capital preponderância para uma melhor compreensão dos mecanismos que possam preparar o futuro.
68 Gerard LECLERC, Crítica da antropologia : ensaio acerca da história do africanismo…, p.31. 69 Lewis H. MORGAN, A Sociedade Primitiva, Vol. 1, Lisboa, Ed. Presença, 1980, p. 13. 70 Idem, idem, pp. 23-24.
32 Tylor seria peremptório quanto à presente tematização; acerca das “superstições”, por exemplo, às quais se referiria como “sobrevivências” duma época já vivida, explanaria a sua imperial relevância para que muitos dos costumes presentes, aparentemente desprovidos de senso lógico, fossem bem compreendidos e contextualizados, ao invés de serem encarados como “ (…) puros actos de loucura espontânea” 71 - actos que ele verberaria veementemente.
Asseveraria, contudo, ao longo da sua obra, a imperial importância em capitalizar esforços para o estudo de determinadas questões emanadas de estados evolutivos ditos selvagens ou primitivos “ (…) como um tema curioso de pesquisa, mas como um importante guia prático para a compreensão do presente e a modelagem do futuro, a investigação de origem e do desenvolvimento primitivo da civilização deve ser zelosamente levada adiante. Toda possível via de conhecimento deve ser explorada; toda porta, experimentada para ver se está aberta. Nenhum tipo de evidência precisa ser deixada intocada em nome de sua distância ou complexidade, de sua insignificância ou trivialidade.”72
Convirá ressalvar, contudo, que, para a escola evolucionista, os complexos socio-culturais das sociedades primitivas não seriam racionais per si, racionalizante seria a teorética antropológica que sobre eles se teria desenvolvido e que “ (…) seria tornada possível pela diferença do que enuncia e o que é o mito. Concretamente o mito nada sabe.”73 Para além de que estas “racionalidades mortas” observadas, sobrevivências duma fase anterior, logo, menos evoluída relativamente à presente, deveriam ser dizimadas das práticas quotidianas e reduzidas a uma racional cientificidade e, “ (…) uma vez «compreendida» pela análise, a cultura primitiva deve desaparecer.”74
O percurso delineado pela estreita metodologia unilinear e etnocêntrica da antropologia pré-clássica75 entrelaçar-se-ia à ideologia colonial; baseando a sua conduta comportamental em prerrogativas crivadas à escola evolucionista, o colonialismo diluiria na sua ideologia o direito de colonizar: perscrutando nas sociedades primitivas
71 Gerard LECLERC, Crítica da antropologia : ensaio acerca da história do africanismo…, p.25. 72 Celso ANDRADE, Evolucionismo cultural: textos de Morgan, Tylor e Frazer, Rio de Janeiro, Zahar
Editor, 2005, p. 97.
73 Gerard LECLERC, Crítica da antropologia : ensaio acerca da história do africanismo…, p.27. 74 Idem, Idem, p. 28.
33 uma sua fase anterior no risco evolutivo, legitimariam as suas aspirações colonizadoras através da ideia de que lhes seria incumbida a tarefa de as trazer para a civilização.
Estas ordens societárias vislumbradas no “mundo colonizado”, encaradas como uma fase já ultrapassada no barómetro evolutivo pelo ocidente colonizador, seriam, por esse exacto motivo e pela unicidade da história, a demonstração indelével da exequibilidade de também elas, que viveriam uma fase já vivida pelo ocidente, poderem vir a engrossar a turba civilizacional; algo que mais expeditamente se concretizaria sob o “carimbo” da colonização. Tal teorética, como tão bem se denotará, faria com que o ocidente monopolizasse a história, auto-denominando o seu estado como o derradeiro fim a atingir pelos demais; ou seja: a unilinearidade do evolucionismo antropológico, ao alinhar as metrópoles à cabeça do trilho homogéneo e único percorrido pelas sociedades, posicionar-se-ia ao serviço das potências, já que, se estas seriam o fim a atingir, estariam, também, prontas a colonizar e, dessa forma, acelerar o processo civilizacional. “ (…) a vida primitiva (…) é abolida na destruição pela colonização de todas as práticas «aberrantes», conservada na medida em que a sociedade passou pelas mesmas fases que a sociedade colonizada e se apresenta como a sua verdade, constituindo-a como um dos seus momentos ultrapassados. A colonização contemporânea é a prática de uma sociedade que detém, que é a verdade da história.”76
Observa Lecler que, destarte, não seria de todo despiciendo deduções originadas da ideia de que a entidade colonial creria de forma peremptória fundamentar a sua superioridade recorrendo ao saber científico, especialmente científico-social; isto é dizer que acreditariam eles que as conclusões advindas da ciência social sobre o tema em discussão serviriam de pretexto para proscrever, de forma arrivista, as sociedades “nativas”, apelidadas de “inferiores”.
Numa perspectiva evolucionista, a cooptação das gentes nativas à cultura ocidental - isto é: a assimilação, constituiria o objectivo último da colonização.
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