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A residência do casal Claudino e Angelica Peteffi foi construída em 1937 na Linha Furna, área rural de Gramado, vindo a ser deslocada para o centro da cidade em 2013, quando foi inaugurada como Memorial da Casa Italiana. Trata-se de uma casa de agricultores que se estabeleceu no povoado, um dos 28 que foi integrado ao município.

A ação de transferência da casa para figurar como equipamento cultural da cidade foi iniciativa da prefeitura, do Circolo Trentino de Gramado e de moradores locais, com o intuito de salvaguardar a construção, valorizar as raízes da comunidade italiana e dinamizar o turismo.

Figura 69 – Memorial Casa Italiana na Praça das Etnias, Gramado.

Fonte: Google Maps. Disponível em: <www.google.com.br/maps/place/Praça+das+Etnias/>. Acesso em: 22 Mai. 2018.

Figura 70 – Memorial Casa Italiana, vista posterior.

Fonte: Tripadvisor. Disponível em: <https://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotoDirectLink-g303536- d6686056-i121328547-Praca_das_Etnias-Gramado_State_of_Rio_Grande_do_Sul.html>. Acesso em: 22 Mai. 2018.

A casa rural testemunha as origens da ocupação italiana na localidade – tardia, nas primeiras décadas do século XX, se comparada com outras cidades gaúchas –, motivo pelo qual foi selecionada como lugar de memória, considerando que aqueles que viviam nas cercanias da cidade “mantinham uma relativa continuidade dos hábitos, usos e costumes” (CASAGRANDE, 2006, p. 6), enquanto os habitantes da zona urbana conviviam com outras etnias, ao tempo em que se dedicavam à política, à gastronomia e à hotelaria.

Apesar da documentação escassa sobre a presença italiana na formação de Gramado, há registro de que “por volta de 1890 alguns imigrantes partiram de Caxias do Sul a procura de novas terras. Uns porque casaram e desejavam cultivar suas próprias terras e outros porque a família era numerosa e o lote tornara-se pequeno” (KOPPE e DRECKSLER, apud CASAGRANDE, 2006, p. 58). Entre essas famílias, a maioria de origem trentina, figuram os Peteffi no levantamento da prefeitura.

Nas cidades do interior gaúcho são numerosas as casas italianas edificadas em madeira de pinho, com telhados pendentes para facilitar o escoamento da neve esporádica, como no norte da Itália. Como em tais localidades, no povoado que deu origem ao município de Gramado o emprego de madeira e pedra atendeu à necessidade de adequação aos materiais disponíveis, devido à dificuldade de transporte que impedia a chegada de materiais de construção. Os únicos meios de transporte eram as carretas movidas a tração animal.

Figura 71 – Carreta. Memorial Casa Italiana.

Fonte: Memorial Casa Italiana/Facebook. Disponível em: <www.facebook.com/pages/Memorial-Casa- Italiana/1110681482305098>. Acesso em: 22 Mai. 2018.

Como na Casa Zinani, em Caxias do Sul, a presença da carreta na área externa do Memorial Casa Italiana de Gramado testemunha o ofício do carreteiro, que cuidava do transporte de produtos na cidade e da cidade para as localidades vizinhas. A grande maioria

destinava-se à circulação de insumos da lavoura, enquanto outras transportavam desde pães a toras de madeira e pedras. Esse meio de transporte é de tal relevância para a comunidade que figura em um desfile de carretas na Festa da Colônia que acontece anualmente na cidade.

Figura 72 – Desfile de carretas na Festa da Colônia de Gramado, 1996.

Fonte: CASAGRANDE, 2006, p. 51.

Outro elemento tradicional das moradias italianas é o nicho que abriga a imagem de Santo Francisco de Assis, instalado ao lado da casa, que testemunha uma das práticas religiosas de pagamento de promessas aos santos de devoção. Eram construídos com os mesmos materiais empregados nas moradias, como esse exemplar em madeira com telhado contornado por lambrequins.

Figura 73 – Oratório dedicado a São Francisco de Assis. Memorial Casa Italiana.

Fonte: Memorial Casa Italiana/Tripadvisor. Disponível em:

<https://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotoDirectLink-g303536-d6686056-i121328547-Praca_das_Etnias- Gramado_State_of_Rio_Grande_do_Sul.html>. Acesso em: 22 Mai. 2018.

Internamente, o memorial reconstitui uma residência rural italiana do início do século XX, com acervo de móveis, objetos utilitários, peças de artesanato e instrumentos de trabalho utilizados pelos colonos quando da ocupação da cidade. A organização dos ambientes contou com doações de famílias locais, como na grande maioria dos museus-casas, de modo a compor os aposentos de acordo com suas funções originais. Nas imagens a seguir, vê-se que, tal qual a casa habitada, no pavimento inferior foi instalado um mix de depósito e cantina, enquanto no pavimento intermediário uma grande sala atende às representações de estar e cozinha, ficando o superior reservado para os dormitórios.

O porão de pedra também servia de abrigo de animais e de lenha, sobretudo quando o inverno era rigoroso, mas no dia a dia funcionava como local de trabalho, onde os proprietários desenvolviam alguma atividade específica. Como se trata de uma representação, buscou-se exibir diversos equipamentos alusivos aos diversos ofícios, como a feitura de pão, a produção de linguiça, de cestas de palha ou vime, de vinho, serviços de ferragem de cavalos, carpintaria, além da agricultura, pontuada nos instrumentos de trabalho do campo. O ambiente lembra um armazém de secos e molhados, onde produtos de diversas utilidades eram comercializados.

Figura 74 – Cantina e depósito. Memorial Casa Italiana.

Fonte: Gramado/Site. Disponível em:

<https://www.gramadosite.com.br/noticias/autor:GramadoSite/id:285216>. Acesso em: 22 Mai. 2018.

(...) à esquerda os secos e molhados, com grandes tulhas e os cereais a granel, a balança para a conferência do cliente. Do outro lado, utensílios destinados ao uso doméstico; baldes, regadores, bacias, urinóis, caçarolas, canecas e paneleiros, louças de barro, cafeteiras esmaltadas, chaleiras, tamancos e chinelos de flanela (...) as gavetas eram utilizadas para guardar as rendas, agulhas, botões, alfinetes, grampos

para cabelo, meias, e os armarinhos. Tecidos em metro como pelúcia, brim e chitas. Vendiam ainda pás, facões, foices, arame farpado, pregos e tachos. A corda era mercadoria permanente. O estabelecimento também colocava à venda, artigos e objetos femininos, pó de arroz, sabonetes e colônias aromáticas. Pequenos objetos de porcelana para presentes, brinquedos para crianças, peças de roupas prontas, doces e balas compunham os itens da loja. Para os homens a brilhantina e fumo. (CASAGRANDE, 2006, p. 61)

No grande salão que integra a sala de estar à cozinha, a profusão de objetos deixa claro que se trata de uma coletânea, dada a variedade de itens semelhantes, cada um identificado em sua denominação, função e procedência, registrando as famílias que os doaram e que querem se ver representadas. Não há reserva técnica, portanto tudo é exposto, tentando se harmonizar ao ambiente a que se destina. As repetições são interessantes para pontuar como os objetos mudaram com o tempo, no que se refere ao design e as melhorias tecnológicas, como a cadeira de assento de palha produzida artesanalmente e a poltrona de courino vermelho, o televisor e os rádios.

Figura 75 – Sala. Memorial Casa Italiana.

Fonte: Gramado/Site. Disponível em:

<https://www.gramadosite.com.br/noticias/autor:GramadoSite/id:285216>. Acesso em: 22 Mai. 2018.

Diversas máquinas de costura e revistas de moda registram que o vestuário era produzido em casa, assim como os bordados, as almofadas de crochê e a manta de tricô. Nas paredes, diversas imagens de santos mostram as diversas devoções, imperando o Coração de Jesus e o Coração e Maria, que figuram na maioria das casas. No lado da cozinha, a mesa comprida e farta lembra que as famílias italianas eram numerosas, enquanto a mesa de apoio

pontua a feitura das massas e dos pães. Além dos utensílios de cozinha, como caldeirões, moedores de café e canecas esmaltadas, os fogões de metal marcam a produção industrial desse tipo de equipamento, em substituição ao fogão de alvenaria.

Figura 76 – Sala vista de outro ângulo. Memorial Casa Italiana.

Fonte: Gramado/Site. Disponível em:

<https://www.gramadosite.com.br/noticias/autor:GramadoSite/id:285216>. Acesso em: 22 Mai. 2018.

Figura 77 – Cozinha. Memorial Casa Italiana.

Fonte: Blog Falando em Viagem. Disponível em:

No dormitório, móveis rústicos se misturam a peças encontradas em residências urbanas, produzidas por artífices locais. A configuração do quarto segue a tradição: a cama do casal ao centro, com o urinol próximos para as necessidades noturnas; berços para as crianças menores que dormiam com os pais; o baú representativo da grande viagem da Itália para o Brasil, trazendo os pertences pessoais; algumas peças de vestuários, incluindo calçados; tudo isso circundado pelos santos que dão proteção à família e a quem lhes são oferecidas orações antes de dormir.

Figura 78 – Quarto de dormir. Memorial Casa Italiana.

Fonte: Gramado Site. Disponível em: <https://www.gramadosite.com.br/noticias/autor:GramadoSite/id:285216>. Acesso em: 22 Mai. 2018.

Gramado foi colonizada por italianos, alemães e portugueses, e para marcar a presença dessas culturas inaugurou a Praça das Etnias em 2012, deslocando para o local antigas casas de imigrantes que documentam a ocupação da cidade. A casa italiana contrasta com as casas portuguesas e alemãs, cada uma com suas características peculiares.

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