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1.3 Synthèse

2.1.3 Distribution des données

Se pensarmos na cidade renascentista enquanto modelo teórico ou enquanto produto de pequenas alterações às formas urbanas do período medieval, rapidamente concluímos acerca do insignificante papel da água no desenho da cidade daquele período.

Naturalmente que a água terá estado presente na construção do espaço urbano mediterrânico por questões funcionais e utilitárias, ou seja, para maior facilidade do seu abastecimento, devido à sua escassez. No entanto, Mumford desvaloriza o papel da água durante o Renascimento, chegando a afirmar que a cidade medieval típica era mais salubre e que o banho medieval deixou de existir no século XVI, em especial devido ao elevado preço da água quente: “muito embora o corpo fosse, agora, celebrado em poemas e pinturas, ou sistematicamente investigado na fisiologia, as pessoas daquele período não faziam caso de conservá-lo tão limpo como o fizera a cultura anterior”146.

Apesar disso, nas novas praças regulares foram construídos novos fontanários, chafarizes e fontes ornamentais, que viriam a ser desenvolvidas durante o período barroco. Também segundo Mumford, a nova ordem formal, a claridade e a continuidade deram origem a uma tradição renascentista recheada de ornamentos de rua, dos quais se destacam as estátuas comemorativas, os degraus de pedra e os chafarizes esculpidos: “em seu sentido de movimento vertical, o jogo ascensional da fonte e a subida dos degraus, essas inovações acrescentam uma vivacidade espacial às funções a que serviam”147.

Contudo, como vimos, a urbanidade, a realidade urbana, não se esgota no interior das muralhas da cidade. O sentido de unidade e de continuidade remetem para uma urbanidade fora da cidade, na periferia, fruto de uma necessidade constante de viver e fruir o espaço natural e de o aproximar do espaço urbano. Há uma relação entre o espaço urbano, as novas ruas, os caminhos e as villae, que obriga a uma nova perceção e organização do espaço.

Assim, é nas villae, nas casas del campo e nas quintas de recreio que a água contribuirá para a definição do desenho da cidade, pois estes novos espaços devem ser entendidos como um produto da cultura urbana e, por isso, complementares do espaço urbano.

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MUMFORD, Lewis, “A cidade na história: suas origens, transformações e perspectivas”, pp. 418

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130 Como vimos, a implantação das villae ocorre em pontos do território, em especial cumeadas e encostas, a partir dos quais se consiga estabelecer relações visuais entre a cidade e as restantes villae. Por outro lado, a arquitetura regular do edifício irá definir a arquitetura do jardim, pelo que este se desenvolve a partir de eixos e plataformas, que se relacionam com as partes edificadas e se estendem ao longo das encostas. O tema explorado, em termos de geometria do espaço, é sempre o da retícula, ou seja, a repetição da regularidade da composição, o que vai de encontro ao princípio da unidade, ou seja, de que o todo é definido por todas as partes.

Esta retícula origina diversas axialidades. O eixo principal é sempre definido por duas polaridades, que originam tensão. Na maioria dos casos, o eixo principal liga a entrada ao edifício principal. O eixo principal é atravessado na perpendicular por eixos secundários, existindo também eixos secundários paralelos ao principal, em função das polaridades que se pretendem originar. No cruzamento e no final dos eixos surgem elementos ornamentais, fontes, esculturas e arquiteturas de prazer, que completam a composição e, nalguns casos, são também definidores da organização do espaço.

Na grande maioria dos casos, a água é o elemento principal da composição, pois ela própria define as axialidades, através de canais, tanques, fontes, grutas e cascatas. A forma como a água é usada, ou seja, a sua adjetivação plástica, sobrepõe-se à própria importância da água, enquanto elemento essencial à vida. A água é um elemento de construção e possui qualidades físicas e estéticas das quais se tira partido, como por exemplo através do contraste entre a água em movimento (ou trabalhada) nas cascatas e nos repuxos, e a água estática nos tanques e espelhos de água. Ou, por exemplo, a água escondida que se ouve e não se sabe onde está, que proporciona a perceção de uma transformação que é audível mas não visível.

O melhor exemplo de villa renascentista em Itália é Villa D’Este, situada em Tivoli, próximo de Roma, desenhada por Pirro Logorio por encomenda do Cardeal Ippolito II d’Este, no século XVI.

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Figura 50 – Villa D’Este, Tivoli,

Itália. Representação pictórica. Fonte:

http://www.amromacarservice.com/t ivoli-villa-deste-e-villa-

adriana/?lang=en

Figura 51 – Villa D’Este, Tivoli,

Itália. Fonte:

http://www.amromacarservice.com/t ivoli-villa-deste-e-villa-

adriana/?lang=en

Figura 52 – Villa D’Este, Tivoli,

Itália. As Cem Fontes. Fonte:

http://www.amromacarservice.com/t ivoli-villa-deste-e-villa-

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Figura 53 – Villa D’Este, Tivoli,

Itália. Fonte:

http://www.amromacarservice.com/t ivoli-villa-deste-e-villa-

adriana/?lang=en

Villa D’Este, inspirada na Villa Adriana da Roma Antiga e no pensamento racional renascentista, acabaria por servir de inspiração para a construção de outras villae em Itália e na Europa.

Em Espanha, em simultâneo com o estabelecimento da capital em Madrid, Filipe II cria em torno desta cidade uma série de sítios reais, aproveitando residências de caça e palacetes dos seus antepassados, dos quais se destacam a Aranjuez, El Escorial, El Pardo e Valsaín. Todos eles foram recriados e inspirados segundo o Renascimento italiano e tinham como objetivo proporcionar à família real um conjunto de locais privilegiados para o recreio, desfrutando da natureza e de atividades, como a caça. Uma vez que existia nas proximidades do Alcazar Real de Madrid uma antiga villa, rodeada de hortas e extensos campos, Filipe II acabaria por convertê-la numa Casa de Campo Real, respeitando a tipologia e as funções das villae italianas, mandando executar diversas infraestruturas hidráulicas, o desvio de cursos de água, represas e uma série de tanques ornamentais navegáveis. Foram criadas numerosas fontes ornamentais, plantadas árvores e arbustos de variadas espécies e criados novos caminhos, respeitando um plano reticular. O eixo principal ligava diretamente a Casa de Campo ao Alcazar Real e era de uso exclusivo do rei (FELIÚ, 2001)148.

Depois dos empreendimentos de Filipe II, por toda a Espanha se começam a construir, pela burguesia emergente, casas de campo e palacetes ao gosto da renascença italiana, bem como a adaptar os edifícios medievais e muçulmanos existentes.

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133 Em Portugal, o equivalente da villa é a quinta de recreio, cuja tradição surge, segundo Aurora Carapinha, no século XVI, após os Descobrimentos, quando a vida agitada de Lisboa conduziu à procura de uma vida calma e saudável no campo, adquirindo a quinta uma dimensão de lugar de recreio, de quietação e símbolo de urbanidade. Trata-se de uma transformação que ocorre primeiro na envolvente de Lisboa e que rapidamente se expande a todo o reino de Portugal149:

“Guarda, Aveiro, Coimbra, Leiria, Seixal, Viseu, Colares, Santarém, Évora, Azeitão, Sintra, Matosinhos e muitas outras urbes rodeiam-se de casas de campo – quintas de recreio – que são uma realidade distinta da quinta rústica, exclusivamente de produção e da torre senhorial, símbolo do poder económico e político. As quintas de recreio são, acima de tudo, espaços que conjugam o lazer, o ócio e o recreio, com o investimento, com o rendimento económico, determinando a construção espacial muito particular e distinta – quer pelo edifício quer pelo espaço envolvente – da arquitectura tradicional da quinta de produção e da torre senhorial.”150

As quintas de recreio possuíam três componentes principais: o pomar/horta, a mata e o horto de recreio, desempenhando desta forma as três principais funções da paisagem, ou seja, produção, proteção e recreio. Não eram muito diferentes da villae renascentistas italianas, mas tinham um caráter produtivo mais vincado e um menor pendor humanista, reflexo da distância geográfica e da tradição produtiva portuguesa.

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Note-se que a tradição das quintas de recreio (ou casas de campo) coincide, de certa forma, também com o domínio filipino em Portugal (1581-1640), pelo que não é de estranhar que estas novas realidades espaciais urbanas tenham surgido também por influência castelhana, em especial de D. Filipe II, que introduziu a tradição em Espanha.

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CARAPINHA, Aurora, “Da Essência do Jardim Português”, pp. 197.

Figura 54 – Quinta da Bacalhoa, Azeitão, Portugal. Fonte:

http://viajar.clix.pt/wallpaper.php ?id=1949&sx=1920&sy=1080&l g=pt, acedida em 27/10/2011.

134 Em qualquer dos casos, seja na Quinta da Bacalhoa, em Azeitão, na Quinta do Paço de Fontelo, em Viseu, na Cerca do Convento de S. Domingos de Benfica, em Lisboa, ou na Quinta do Paço de Valverde, em Évora, o verdadeiro denominador comum e elemento principal de composição é a água.

Tal como nas villae italianas, a regularidade geométrica do desenho era assegurada pelo sistema de eixos, patamares e canteiros que, em muitos casos, eram substituídos por canais e tanques, para além da utilização de fontes ornamentais nos pontos de encontro e na definição de polaridades.

Contudo, na quinta de recreio portuguesa, para além de possuir uma adjetivação plástica, a água valia também pela sua utilidade, pois a sua escassez obrigava a que fosse pensada como um recurso a utilizar também na rega do pomar/horta.

Segundo Aurora Carapinha, a casa de campo e a quinta de recreio são, ideológica, social e economicamente, um símbolo de urbanidade e, por isso, estão intimamente ligadas à cidade:

“Conceptualmente, não existe por si só, mas em contraponto à vida citadina. Economicamente é um satélite da cidade; surge pelos excedentes financeiros que o comércio e/ou a indústria, inerentes ao mundo urbano, proporcionam e é mantida, na maioria das vezes, pela comercialização dos seus produtos agrícolas. Esta dependência intrínseca face à cidade, determina-lhe a localização e o carácter.”151

Segundo Jacob Sobiesk e outros152, existiam nos arredores de Lisboa, no século XVI, mais de seiscentas quintas de recreio, sendo o vale do Tejo, desde Santarém até Lisboa, ao longo das margens ocupado por “quintas de aspecto e situação muito adorável e aprazível”.

Também o Padre António Carvalho Costa e outros153, referem que Setúbal, Sintra, Coimbra, Lamego, Aveiro, Tomar e Évora ofereciam a mesma imagem de “arredores risonhos, amenos e verdejantes”.

Pelo que atrás foi exposto, concluímos que a água foi determinante na construção da cidade do Renascimento, pois é neste período que surge uma nova vivência e

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CARAPINHA, Aurora, Op. Cit., pp. 198

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Citados por Aurora Carapinha, 1995, Op. Cit., pp. 199.

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135 interpretação do espaço urbano, que valoriza a organização do território e da paisagem na procura da unidade.

O espaço urbano mediterrânico, ainda que defendido pelas muralhas, é agora ampliado à periferia e as novas realidades espaciais que ali surgem, quer sejam villae, casas de campo ou quintas de recreio, são dependentes da cidade e, por isso, complementares.

O desenvolvimento urbano do Renascimento, sendo influenciado por estas novas realidades, é-o também pela água, umas vez que é ela também o principal elemento estruturante e construtor daqueles espaços.

No entanto, estes espaços do interface urbano-rural serão substituídos, no período Barroco, por outras realidades, mais viradas para a contemplação, para a exuberância, para a ornamentação e para a homenagem a um homem, a uma família ou ao Rei, em detrimento da celebração do Humanismo.

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