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4.3. DISTRIBUTED HEAVY HITTERS 41
Foi visto que discurso é o meio pelo qual o sentido é produzido. O discurso é a linguagem em movimento. Ao produzir discurso o sujeito produz sentidos e produz a si mesmo enquanto sujeito social. Tal produção está envolvida em uma série de fatores que a influenciam. Fatores de ordem psicológica, ideológica, histórica e cultural.
Propõe-se aqui levantar alguns pontos em comum das duas vertentes apresentadas para que sejam elaboradas as categorias de análise a serem usadas nesta pesquisa. Pode-se dizer que há mais convergência que divergências entre as duas correntes, embora o ponto de discordância toque em um dos principais elementos de construção do discurso.
Ambas as correntes mostram-se como entremeio entre a Linguística, o Materialismo e a Psicanálise. Partem destes campos teóricos e tentam superá-los, reunindo-os por meio da análise de discurso. Também é unanimidade para as escolas que a linguagem não é um processo transparente, como afirma a Linguística, evidenciando que existem fatores externos e implícitos que atuam na formação daquele dizer. Ambas as escolas, então, buscam revelar que fatores são esses, como eles se caracterizam e de que modo estão presentes no discurso. Para isso, as correntes elencam pontos (condições de produção, relações de força e poder, interdiscurso, formação discursiva etc.) que devem ser observados pelo analista ao realizar seu trabalho.
O ponto de divergência entre as escolas está em como a corrente francesa e a corrente inglesa percebem a participação da ideologia na construção do discurso. Enquanto a AD francesa destaca o assujeitamento em relação à ideologia, em que o sujeito reproduz inconscientemente a ideologia em seu dizer, por meio das formações discursivas, a AD inglesa considera que existem sistemas hegemônicos ideológicos passíveis de mudança e substituição. Não há predominância ideológica imutável, inalterável. O sujeito, neste caso, é também agente do discurso, e não mero reprodutor, sendo o dizer resultado da negociação que ele faz do consciente com o exterior. O sujeito é influenciado, mas também influencia as estruturas sociais as quais é submetido. Noção com a qual compartilhamos.
A partir dessa premissa, tomamos o território simbólico-cultural do sujeito como uma das estruturas sociais que o constroem e, portanto, constroem seu discurso, nessa relação
de troca descrita por Fairclough. Buscamos ver como a estrutura social é materializada e sob que perspectiva. Acredita-se que haja certa autonomia do sujeito ao processar as informações e externá-las. Então, além de identificar se o território é presentificado no dizer, quer-se, sobretudo saber, de que modo ele é presentificado, sob qual ponto de vista, ideologia ou discurso hegemônico aquela imagem do território está sendo construída. No quesito identidade, tenta-se compreender como o sujeito se relaciona com o local, com o intuito de perceber qual a visão dele sobre o local que habita e como ele se vê inserido nesse local, que posicionamento ele assume em relação ao território.
Concorda-se com Flairclough sobre as identidades serem caracterizadas como posições internalizadas. Posições estas que requerem determinados dizeres, determinadas ações que as legitimam. Resgatando Castells que pensa identidade como internalização de valores simbólicos, pode-se inferir que tais valores simbólicos sejam a língua e a história, apreendidos desde os primeiros anos do sujeito e que vão sendo internalizadas e modificadas ao longo de sua existência. Esta internalização naturaliza tais valores e eles são reproduzidos de diversos modos a depender dos papéis sociais, ou posições, que o sujeito ocupa. No contexto do blog, ver-se-á, então, a relação entre o dizer e a exterioridade, percebendo que efeitos de sentido eles produzem acerca do território.
Desse modo, os pontos que serão analisados nos textos para entender a relação do sujeito e seu território são: o objeto do discurso que compreenderá o tema sobre o qual o texto discorre e de como o texto o aborda; as condições de produção que dizem respeito ao contexto que suscitou aquele dizer; o interdiscurso que mostrará quais outros dizeres são presentificados no texto; a posição do sujeito para identificar o lugar de fala dele em relação ao objeto; e, por fim, as formações discursivas, nos quesitos ideologia e imaginário, para perceber a quem o sujeito dirige seu texto e sob quais determinações ideológicas. Estes fatores agirão como marcações discursivas que nos darão base para compreender o funcionamento do discurso, o modo como ele foi construído para significar aquilo que o sujeito/autor quer que ele signifique.
Estas categorias vão revelar os aspectos tridimensionais do discurso. A dimensão textual poderá ser vista na categoria objeto do discurso, onde serão analisados os aspectos linguísticos (coerência, arsenal léxico, estrutura social) utilizados para falar daquele objeto. A dimensão da prática discursiva poderá ser extraída das categorias condições de produção, posição do sujeito e interdiscurso para perceber de onde o sujeito fala, por que ele fala, quais outros dizeres estão envolvidos em sua fala. Ao resolver essas questões, ter-se-á subsídios
para revelar a terceira dimensão do discurso, a da prática social. Como visto em Fairclough, essa dimensão diz respeito ao aspecto mais amplo de constituição do dizer e diz respeito à interação das estruturas sociais com a formação ideológica do sujeito, percebendo como um influencia o outro. Este ponto será circunscrito através da categoria das formações discursivas para perceber como a ideologia é presentificada no texto e quais trocas há entre a ação consciente do sujeito (ao produzir o texto) e as estruturas sociais.
Fairclough apontou também três funções da linguagem que são resultados da interação entre linguagem e sociedade. Para estudar sistemas da linguagem na perspectiva dos papéis sociais, ele usa as funções: identitária (identidades reveladas no discurso), relacional (relações sociais representadas no discurso) e ideacional (modos de significar o mundo). Os três serão verificados, mas dar-se-á ênfase ao aspecto identitário da linguagem.
Dentro da função identitária ou identificacional, por sua vez, serão vistos aspectos de subjetividade e identidade social, percebendo a relação deles no discurso. O aspecto subjetivo corresponde à dimensão particular do EU, já a identidade social (também pode ser entendida como identidade cultural) compreende o pertencimento a determinado local ou grupo, referindo-se a identidades de gênero, de profissão e de território. Por meio da categoria posição do sujeito essa função poderá ser revelada.
Ainda na perspectiva da função identitária do sujeito no discurso, Fairclough propõe algumas categorias de análise, das quais interessará aqui a que ele chama de modalidade. A modalidade pode ser subjetiva, em que o sujeito faz uso de termos na primeira pessoa ou objetiva quando se fala na terceira pessoa. Também pode ser de afirmação ou negação de uma sentença em relação ao objeto do discurso. A modalidade mostrará por meio de diversos fatores o grau de afinidade do sujeito com o objeto discursivo.
Esclarecendo o processo analítico a ser utilizado, chega-se a análise em si das produções textuais publicadas nos blogs Zema Ribeiro e Luís Cardoso. O corpus do trabalho foi delimitado do seguinte modo: foram selecionados seis textos de cada blog. Os do Zema são referentes aos meses de janeiro a junho; os de Luís Cardoso, de março a agosto. Os meses janeiro e fevereiro foram descartados no blog do Luís Cardoso, pois, em decorrência da troca de servidor, alguns arquivos desses meses foram apagados.
Assim, os textos do blog Zema Ribeiro são:
“Pra não dizer que não falei de big brother”, publicado em 25/01/12; “Nagô”, publicado em 02/02/12;
“Cinema grátis e de qualidade”, publicado em 30/03/12;
“Pequena amostra do jornalismo Décio Sá”, publicado em 26/04/12;
“Papoético premiará hoje vencedores de seu I Festival de Poesia”, publicado em 31/05/12;
“Nossa miséria cultural (ou: acorda, serpente!)”, publicado em 09/06/12. Já os seis textos do blog Luís Cardoso são os seguintes:
“Hospital de Bacabal é um caminho para a morte”, publicado em 31/03/12; “Assim que a OAB reage à morte de um jornalista”, publicado em 26/04/12; “Grupo político racha em Balsas”, publicado em 27/05/12;
“Só no Maranhão: cinco cidades têm mais eleitores do que população”, publicado em 22/06/12.
“Bagunça na via Expressa: carro de deputado foi rebocado”, publicado em 25/07/2012.
“Vice-governador quer fechar o blog”, publicado em 29/08/2012.
No capítulo seguinte, será feita uma descrição dos espaços e seus autores para que se possa analisar cada texto com base nas categorias anteriormente elencadas.