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Diferentemente de Cleão, do qual se tem muito material cômico, permitindo que se faça uma comparação entre as peças, Arquedemo só é mencionado aqui e no fragmento 80 de Êupolis. Fora das fontes cômicas, há também uma breve menção a ele em Xenofonte e Ésquines.

Assim, falarei acerca dessas passagens, começando mesmo por contextualizar o mὁmἷὀὈὁΝἷmΝὃὉἷΝἷlἷΝὧΝmἷὀἵiὁὀἳἶὁΝὀ’As Rãs: depois que chegam ao Hades e livram-se da Empusa (a partir do verso 312), Dioniso e Xântias encontram o coro de iniciados nos Mistérios de Elêusis, que estão dançando e fazendo evocações aos deuses, como é do costume desse ritual. Então, na passagem compreendida entre os versos 416 a 421, o Coro diz: {ΧΟέὓΝ κτζ γ Ν αΝεκδθ Ν ευοπη θΝἈλξΫ βηκθ,Ν μΝ π Ϋ βμΝ θΝκ εΝ φυ ΝφλΪ λαμν – ΝυθὶΝ ὲΝ βηαΰπΰ ῖΝ 137 Grifos meus.

θΝ κῖμΝ θπΝθ ελκῖ δ,Ν

ε δθΝ ὰΝπλ αΝ μΝ ε ῖΝηκξγβλέαμέ –

CORO DE INICIADOS: Vós quereis, então, que em público, nós zombemos de Arquedemo,

que aos sete, não tinha dentes de cidadão? Agora ele é demagogo,

dentre os corpos lá de cima e o primeiro nas depravações de lá.

Os versos acima citados estão inseridos em uma passagem em que o coro zomba de Clístenes – já zombado anteriormente, no v.48, por ser efeminado e que aparece em As Tesmoforiantes (vv.574-654) igualmente como um efeminado que ajuda as mulheres, desmascarando o parente de Eurípides − e Cálias.138 Segundo Dover, essa estrutura assemelha-se ao fragmento 99 do Demes, de Êupolis, no qual indivíduos são ridicularizados em sequência.

Mais do que isso, sabe-se que a zombaria a indivíduos faz parte de vários festivais e rituais, e até mesmo discute-se a origem da comédia nesses termos,139 de modo que é adequado o uso dessa estrutura para um coro de iniciados nos Mistérios, culto associado a esse tipo de zombaria.

Assim, é possível perceber que a menção a esses indivíduos não aparece de forma gratuita. Arquedemo, entretanto, o primeiro deles a ser zombado, é o único envolvido na política ateniense e, para uma melhor compreensão do significado dessa zombaria, acredito ser interessante fazer uma breve nota à única passagem a que temos acesso em que ele é mencionado por um comediógrafo, no caso o fragmento 80 de Êupolis, em que se diz: “ἓlἷΝ [χὄὃὉἷἶἷmὁ]Ν ὧΝ nativo ou ἶἷΝ ὉmἳΝ ὈἷὄὄἳΝ ἷὅὈὄἳὀgἷiὄἳἍ” ().

Essa passagem é significativa, não somente por ser a única fonte cômica, além da passagem que agora analiso, que mencione Arquedemo, mas também pelo fato de a

138 Não farei uma discussão sobre o retrato de Clístenes neste trabalho, pois não há evidências de que ele

tenha tido alguma atuação política. Faz-se necessário notar que este Clístenes não é aquele político conhecido pelas reformas políticas que fez em Atenas e por ser o criador do ostracismo, este, segundo Cromey (1979:129-130) está ausente na literatura, provavelmente devido à sua má reputação. Por exemplo, ele não aparece em Píndaro, que cita a sua família, nem em Simônides, que fala de seu sobrinho, nem mἷὅmὁΝ ἷmΝ χὄiὅὈóἸἳὀἷὅΝ ἷΝ ὀἳΝ ἷὅἵóliἳΝ ἶ’Ν As Nuvens ou em Lisístrata. Também não é mencionado nos fragmentos de Êupolis, incluindo Demes e Poleis e, dos dez oradores áticos, só é mencionado em Isócrates. Em Aristóteles ele aparece, mas não se elucidam as motivações de Clístenes; e ele também não tem lugar em Tucídides. Já Cálias, filho de Hipônico, foi um ateniense muito rico do final do século V e um iὀὈἷlἷἵὈὉἳlέΝἠὤὁΝἸἳὦὁΝὉmἳΝἳὀὠliὅἷΝὅὁἴὄἷΝἳΝὅὉἳΝὄἷpὄἷὅἷὀὈἳὦὤὁΝὀ’As Rãs, pois também não há evidências de que ele tenha atuado como político em algum momento de sua vida.

representação que ela faz desse político ir de encontro ao retrato feito por Aristófanes: ambos os comediógrafos questionam a cidadania do demagogo.

Diferentemente do fragmento de Êupolis, em que o questionamento sobre a cidadania de Arquedemo está claro, na medida em que se questiona se ele seria estrangeiro ou não, nos versos aristofânicos, é preciso compreender, primeiramente, o jogo de palavras que o poeta faz, para que se possa verificar a acusação de cidadania ilegal.

Nessa passagem, há um jogo de palavras entre (phráteres,“mἷmἴὄὁὅΝ ἶἷΝ ἸὄἳὈὄiἳὅ”Ν – subdivisões políticas e religiosas da tribo) e (phrastéres, “ἶἷὀὈἷὅΝpἷὄmἳὀἷὀὈἷὅ”)έΝχὁΝὃὉἷΝὅἷΝsabe, os meninos eram introduzidos às fatrias por seus pais assim que nasciam. A piada consiste no trocadilho presente no final do verso: enquanto a audiência tinha a expectativa de ouvir phrastéres (“ἶἷὀὈἷὅΝpἷὄmἳὀἷὀὈἷὅ”),ΝὁὉΝ seja, que Arquedemo, aossete anos de idade ainda não tinha trocado a primeira dentição, ouve phráteres (“mἷmἴὄὁὅΝἶἷΝἸὄἳὈὄiἳὅ”)έΝχὅὅim,ΝἳΝpiἳἶἳΝἸἳὐΝὉmἳΝἵὄíὈiἵἳΝἳΝχὄὃὉἷἶἷmὁΝ como não cidadão, na medida em que não havia sido inscrito por seu pai na fratria assim que nascera.

No verso 588 d’As Rãs, Aristófanes volta a mencionar Arquedemo. Dioniso e Xântias encontram-se diante dos portões do Hades e o mestre troca seus figurinos com o de seu escravo conforme lhe é mais conveniente. Em um dos momentos em que ele pede ao escravo que lhe dê o figurino que está usando, Dioniso diz (vv.584-88):

ὑ ΙέὓΝΟ ΥΝκ ΥΝ δΝγυηκῖ,Νεαὶ δεαέπμΝα ὸ λ μ·ΝΝ ε θΝ η Ν τπ κδμ,Νκ εΝ θΝ θ έπκδηέΝ κδέ

ἈζζΥΝ θΝ Ν κ ζκδπκ πκ ΥΝ φΫζπηαδΝξλσθκυ, πλσλλδακμΝα σμ,Ν ΰυθά,Ν ὰ παδ έα,

εΪεδ ΥΝ πκζκέηβθ,Νε λξΫ βηκμΝ ΰζΪηπθέ

DIONISO: Eu sei, eu sei que está zangado e com razão faz isso. Mesmo se me bater, não me oponho a você.

Mas se, alguma vez, no futuro eu lhe arrancar o traje, que, por completo, minha mulher, minhas crianças

e eu pereçamos terrivelmente, e também Arquedemo, o remelento.

Nessa passagem, algumas coisas são interessantes: em primeiro lugar, Dioniso, que é um deus, promete por sua vida que não irá mais pedir a Xântias que troque de figurino com ele. Embora essa troca não mais ocorra, o próprio Xântias admite que espera que Dioniso quebre com a sua promessa (vv. 600-1), caso algo mais conveniente a ele apareça. Além disso, a própria estrutura da cena deixa a expectativa no público de que,

mais uma vez, ocorra uma reviravolta e Dioniso tenha a necessidade de trocar de figurino com seu escravo.

O que é curioso é justamente o fato de Dioniso jurar não somente pela sua vida, que de fato não pode ser destruída, pois ele é um deus, mas também pela vida de Arquedemo, este, sim, que poderia pagar o perjúrio do deus. Sobre o epíteto que lhe é dado, Dover (1997:151) nota que era comum atribuir uma doença crônica a adversários políticos.

Assim, as duas passagens em que Arquedemo é mencionado, denigrem-no, ao contrário do que ocorre nas fontes históricas. Como nota Mabel Lang (1992:278):

A descrição que Xenofonte faz de Arquedemo em Helênicas (1.7.2) como um homem proeminente no Demos, responsável pela e como um magistrado autorizado arequerer multas deve ser suficiente para contradizer os ataques de Aristófanes (Rãs. 416-417 e escólio) e Êupolis (71K = frag. 80), questionando a sua cidadania.140 Tendo isso em vista, é possível chegar às seguintes conclusões: (1) o fato de Arquedemo ser um demagogo já era o suficiente para que ele fosse alvo da zombaria de Aristófanes, pois, ao que tudo indica, esse era um topos cômico, e, (2) mesmo que ele não tenha obtido a sua cidadania de modo escuso, o simples fato de Aristófanes insinuar que isso aconteceu já é suficiente para que ele seja contraposto a Alcibíades, cuja origem aristocrata é a forma de obtenção de status mais reconhecida, uma vez que sua linhagem está ligada aos heróis fundadores da cidade.

Assim, é possível verificar que mesmo aquelas passagens que parecem mais gratuitas, como simples pilhérias com a função de fazer o público rir, funcionam para criar o pano de fundo dessa contraposição entre os demagogos e Alcibíades. Vão mostrando ao público, pouco a pouco, que todos os que estiveram e estão no poder são incapazes de governar a cidade de modo adequado. Assim, Alcibíades é, como já ἶἷmὁὀὅὈὄἷiΝὀὁΝἵἳpíὈὉlὁΝἳὀὈἷὄiὁὄ,Ν“ἶὁὅΝmἳlἷὅΝὁΝmἷὀὁὄ”έ

140ἦὄἳἶὉὦὤὁΝmiὀhἳέΝ“XἷὀὁphὁὀΥὅΝἶἷὅἵὄipὈiὁὀΝὁἸΝχὄἵhἷἶἷmὁὅΝiὀΝὈhἷΝἘiὅὈὁὄiἳΝἕὄἳἷἵἳΝ(1,Νἅ,Νἀ)ΝἳὅΝἸὁὄἷmὁὅὈΝ

in the Demos, in charge of the  fund, and as a magistrate authorized to exact fines should be sufficient to contradict slurs in Aristophanes (Ra. 416-417 and schol.) and Eupolis (frg. 71 K.) questioning hiὅΝἵiὈiὐἷὀὅhipέ”