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Dissidences de TCE

3.   PROCESSUS D’ENTENTE NÉGOCIÉE

3.3   Particularités pour l’année tarifaire 2009

3.3.3   Dissidences de TCE

Não raro, a idéia que formamos de uma obra é condicionada por determinadas leituras acumuladas em camadas ao longo do tempo. Daí a importância de saber quem foram os leitores e como leram e perceberam a obra de João Lisboa 1. Integram essas percepções as visões sobre a Crônica. Nos dom í nios do s est udo s e das p ercep çõ es d a obra de J o ão Lisboa, duas leituras se destacaram: a “antiga” de Antônio Henriques Leal e a “moderna” de Maria de Lourdes Mônaco Janotti 2. O destino da obra de João Lisboa, porém, perpassou vários grupos-gerações de leitores, desde aqueles que escreveram estudos específicos da “vida e obra” até os que abordaram um ou outro aspecto, passando pelos que fiz eram uso da obra como fonte ou observações rápidas em notas de pé de página ou mesmo elaboraram verbetes para dicionários bio-bibliográficos. Sem pretender esgotar a compreensão da “comunidade dos leitores” de João Lisboa, e tendo em vista aqui o foco da pesquisa em um dos seus jornais, vamos delinear um quadro e uma perspectiva de análise. Na história da 1 T r a t a - se d a i d é i a d e “ c o mu n i d a d e d e l e i t o r e s ” . N o s t e r mo s d e M i c h e l d e Ce r t e a u : “ L o n ge d e se r e m e sc r i t o r e s, f u nd a d o r e s d e u m l u g a r p r ó p r i o , he r d e i r o s d o s s e r vo s d e a n t i g a me n t e ma s a go r a t r a b a l ha nd o no so l o d a l i n g u a ge m, c a va d o r e s d e p o ç o s e c o n s t r ut o r e s d e c a sa s, o s l e i t o r e s sã o v i a j a n t e s; c i r c ul a m na s t e r r a s a l h e i a s , nô ma d e s c a ç a nd o p o r c o nt a p r ó p r i a a t r a v é s d o s c a mp o s q ue nã o e sc r e v e r a m, a r r e b a t a nd o o s b e n s d o E gi t o p a r a us u fr u í -l o s. A e sc r i t a a c u m ul a , e st o c a , r e si st e a o t e mp o p e l o e s t a b e l e c i me n t o d e u m l u g a r e mu l t i p l i c a s ua p r o d u ç ã o p e l o e xp a n s i o ni s mo d a r e p r o d uç ã o . A l e i t ur a n ã o t e m ga r a n t i a s c o n t r a o d e s ga st e d o t e mp o ( a ge n t e e sq ue c e e e sq ue c e ) , e l a nã o c o n se r va o u c o n se r v a ma l a s u a p o s se , e c a d a u m d o s l u ga r e s p o r o nd e e l a p a s sa é r e p e t i ç ã o d o p a r a í so p e r d i d o ” ( 1 9 9 4 . p p . 2 6 9 -7 0 ) . Ro ge r C ha r t i e r a na l i sa e s se t r e c ho e m a “ Co m u ni d a d e d e l e i t o r e s ” . I n: C H A RT I E R, R. A O r d e m d o Li v r o ( 1 9 9 8 ) . 2 LE A L , A n t ô ni o H e nr i q u e s. P a n t h e o n M a r a n h e n s e – e ns a i o s b i o g r á fi c o s d o s ma r a n he n se s i l u st r e s j á fa l e c i d o s p e l o D r . A n t ô n i o H e nr i q u e s L e a l . 2 ª e d . , R i o d e J a ne i r o : E d i t o r i a l Al h a mb r a , 1 9 8 7 . 2 t o mo s. A b i o gr a f i a d e J o ã o L i sb o a a c h a -s e no t o mo I I , p p . 2 9 7 -3 8 7 ; J A N O T T I , M a r i a d e Lo u r d e s M ô na c o . J o ã o F r a n c i s c o Li s b o a : j o r na l i st a e h i s t o r i a d o r . S ã o P a u l o , E d i t o r a Á t i c a , 1 9 7 7 .

transmissão cultural da obra de João Lisboa é possível divisar quatro grupos-gerações principais 3, correspondentes a momentos da construção da sua memória, marcados, quase todos, por acontecimentos simbólicos: 1) a cerimônia do enterro em S ão Luís, em 1864; 2) as cerimônias em torno da estátua, desdobradas em dois instantes: 2.1) o da transferência dos restos mortais da Igreja do Carmo para o local, na praça com seu nome, onde seria erguida sua estátua, em 1911; e 2.2) o do levantamento da estátua, em 1918; 3) a cerimônia do centenário do falecimento, ocorrida em S ão Luís, em 1963.

Na primeira fase, compreendendo a dos contemporâneos de João Lisboa, destacaram-se os seguintes nomes: Joaquim Franco de S á, Francisco Sotero dos R eis, C andido Mendes, Frederico Augusto Pereira de Morais, Francisco Adolfo de Varnhagen, Francisco Otaviano da Silva R osa, Joaquim Manoel de Macedo (necrológio, Revista do IHGB), C ésar Augusto Marques, Antonio Gonçalves Dias, Frederico José Correa e Antônio Henriques Leal. Entre estes, o estudo de Antônio Henriques Leal, reconhecido como biógrafo d e J oão Lisbo a, di stin guiu -s e como base d a can onização n ão apenas da obra como da figura de João Francisco Lisboa. A influência dessa leitura na cristaliz ação da imagem pública de João Lisboa foi tão forte que se tornou mais que referência obrigatória, alvo inevitável para qualquer estudo crítico.

João Lisboa morreu em 1863, aos 51 anos. Em 1864/65, Antonio Henriques Leal e Luiz Carlos Pereira de C astro editam e publicam as “Obras Completas de João Francisco Lisboa”, em quatro volumes, pela tipografia Berlamino de Mattos 4. Em 1865, por acórdão da C âmara Municipal de São 3 V e j a P a l a v r a s- c h a v e ( p p . 1 9 1 -9 3 ) , d e Ra y mo n d W i l l i a ms , o nd e o s vá r i o s se nt i d o s d a p a l a vr a fo r a m r e s u mi d o s. O se n t i d o ma i s p r ó x i mo a q ui é a q ue l e e m q u e se p õ e ê n f a s e no “ c a r á t e r d i st i nt i vo d e u ma é p o c a o u d e u m c o nj u nt o d e p e s so a s e m p a r t i c ul a r ” . E m no s so c a so , o s d i ve r so s gr up o s d e l e i t o r e s c uj o “c a r á t e r d i s t i n t i vo ” c o n s t i t ui r i a o s mo d o s c o mo l e r a m a o b r a d e J o ã o Li sb o a e m d i fe r e nt e s “p e r í o d o s” d a H i st ó r i a d o B r a s i l . 4 “O b r a s d e J o ã o F r a nc i sc o L i sb o a , na t u r a l d o M a r a n h ã o ; p r e c e d i d o s d e u ma no t í c i a b i o gr a p hi c a p e l o D r . A n t o n i o H e nr i q ue s L e a l . - E d i t o r e s e r e vi so r e s L ui z Ca r l o s P e r e i r a d e Ca s t r o e o D r . A. H e nr i q ue s Le a l ” . E s t e é o t í t u l o d a p r i me i r a e d i ç ã o ( d e p a r t e ) d a s

Luís, a rua do Egito, onde João Lisboa residiu, passou a chamar-se R ua João Lisboa, medida desaprovada pela vereação seguinte ( Leal, 1987, p. 11, nota 11). Em janeiro de 1868, o cronista autodenominado Pietro de Castellamare, em sua “chronica interna”, no S emanário Maranh ense, noticiava a chegada ao Maranhão dos retratos de Gomes de S ousa, Odorico Mendes, Gonçalves Dias e João Lisboa, doados pelo próprio autor, o “jovem” Horacio Tribus y. Afirmava sobre os retratos que estavam “perfeitamente acabados e recommendão-se todos quatro tanto pela semelhança como pela delicadesa do pincel” (Seman ário Maranh ense, anno I, nº 21, p. 8). o b r a s d e J o ã o Li sb o a . G r a ç a s à so l i c i t ud e e o i n t e r e s s e d e M a r c o s G a l i nd o , p ud e mo s e x a mi n a -l a n u ma d a s sa l a s d a B i b l i o t e c a C e nt r a l d a U F P E . E s sa s o b r a s e s t a v a m n u m d e p ó s i t o , l i t e r a l me n t e , o nd e p o r a c a s o e l e a s e nc o n t r o u. A s o b r a s fo r a m p ub l i c a d a s e m q ua t r o vo l u me s, o p r i me i r o e m 1 8 6 4 e o s o ut r o s t r ê s e m 1 8 6 5 . P e l o í nd i c e p o d e mo s ve r a se g u i nt e d i s t r i b u i ç ã o d o s a s s u nt o s. O p r i me i r o vo l u me é d e d i c a d o à s e l e i ç õ e s; no se g u nd o t e m- s e a p r i m e i r a p a r t e d o s “ A p o n t a me nt o s” ( H i s t ó r i a d o M a r a n hã o ) ; no t e r c e i r o , a se g u nd a p a r t e ; no q u a r t o e ú l t i mo v o l u me o s “ e d i t o r e s e r e vi so r e s ” p u se r a m a b i o gr a fi a d e V i e i r a e o ut r o s e st ud o s ( f o l he t i n s, b i o gr a f i a d e O d o r i c o M e nd e s, e s c r i t o s p o l í t i c o s) . E sc r e v e r a m a i nd a a se g ui n t e “ A d ve r t ê nc i a ” , q ue a q u i t r a ns c r e v e mo s: “P a r a c o m mo d i d a d e d o l e i t o r d i v i d i mo s a o b r a e m q u a t r o vo l u me s. O s t r ê s p r i me i r o s c o nt ê m o nz e d o s d o z e n u me r o s d o b e m c o n he c i d o e a p r e c i a d o J o r n a l d e T i mo n ; no q ua r t o e ul t i mo r e u n i mo s á V i d a d o P a d r e A n t o n i o V i e i r a , o b r a p ó s t u ma d e Li sb o a , o q ue so b r e e s t e me s mo a s s u mp t o , e a p r o p ó s i t o d e í nd i o s, ha v i a e s c r i p t o no d é c i m o n u me r o d o j á c i t a d o J o r n a l d e T i mo n . I n c l u í mo s t a mb é m ne s t e vo l u me a b i o gr a p h i a d o S nr . M a n ue l O d o r i c o M e nd e s, o d i s c ur so q u e c o mo d e p ut a d o á a ss e mb l é a p r o vi nc i a l d o M a r a n hã o p r o n u nc i o u, e m 1 8 4 9 , p o r o c c a s i ã o d e d i sc u t i r -s e a p r o p o s t a p a r a i mp e t r a r - se d o go ve r no i mp e r i a l a gr a ç a d e a mn i st i a p a r a o s r e vo l to so s d e P e r n a mb uc o , o s fo l he t i n s q ue p ub l i c o u o s t í t u l o s d e F e st a d o s R e mé d i o s , F e st a d o s M o r t o s, T h e a t r o d e S . L u i z , e a l g u n s o u t r o s t r a b a l ho s d e c r í t i c a e p o l í t i c a . “ À fr e n t e d o p r i me i r o v o l u me va e a b i o gr a p hi a d e J o ã o F r a n c i sc o L i sb o a , c o mp o st a p o r u m d o s d o u s a mi g o s d o a uc t o r i nc u mb i d o s d e d i r i gi r a i mp r e s sã o d e s ua s o b r a s, o d o u t o r A n t o ni o H e n r i q u e s L e a l , q ue , p o r q ue e s c r e vi a d e c o nt e mp o r â ne o , e d e u m q ue t o mo u gr a nd e p a r t e n a s no s sa s t a m r e n hi d a s l uc t a s p o l í t i c a s, t e ve nã o p o uc a s v e z e s d e r e p r i mi r a p e n na c o m r e c e i o d e o f fe nd e r s us c e p t i b i l i d a d e s . ” ( p p . V - V I )

A sacralização de J oão Lisboa (na acepção da palavra, pois foi sepultado dentro de uma igreja) teve momento determinante no cerimonial do enterro em S ão Luís, quando a figura do imortal começou a ser criada 5. De um lado, os registros médicos e epistolares da morte agônica em Portugal, de outro, a produção da imortalidade na cerimônia e nos discursos fúnebres. Como contraponto, no primeiro momento lembramos o folhetim a “festa do morto” (ou “procissão dos ossos”). Lisboa agora era o “morto” e os “vivos” estavam ali a homenageá-lo. De modo algum naquele folhetim sua visão apontava para a idéia da morte como “festa”, ali utilizada para ser objeto da crítica. Mas do que festa, sua visão talvez apontasse para a morte como “teatro” (tema de outro folhetim seu). “Timon” não foi jogado na vala como os negros, escravos ou não, mas, enterrado no altar mor da Igreja do Carmo, assistido por aproximadamente seis mil pessoas; tal como indicadas neste folhetim, cargas pesadas de ressentimento atravessavam a relação entre o ilustre morto e os vivos (leia-se: “maranhenses”). Talvez fosse o caso de lembrar, ainda, trecho de Condorcet citado por João Lisboa no primeiro número da Crônica Maranhense, quase uma epígrafe do programa doutrinário desta folha, onde era dito: “E se, apesar de todas as virtudes, te vires alguma hora atravessado pelo ferro das facções, lembre-te ao menos, descendo ao túmulo, (e essa lembrança te consolará) quão diverso que és dos teus algozes, e que antes quiseste ser vítima que opressor” (1969, 1ª parte, p. 4). Traços de ressentimento ressaltam nas últimas cartas de João Lisboa e mesmo em artigos de jornais publicados pelos amigos. Suas cartas e o relato de Henriques Leal sugerem que, intuindo o fim, ele não pretendia morrer e ser enterrado em Portugal, mas no Maranhão. Depois de morto, a viúva providenciou o traslado do corpo. Isso demorou um ano. Lisboa morreu em 1863 e foi enterrado em 1864. Segundo os registros, o tom do enterro foi de solenidade. Em artigo publicado no jornal, Leal afirmou que “todos mostraram grande empenho em tornar este ato o mais solene possível” (1987, p. 385). Tratava-se de inscrever a “lembrança dos maranhenses gratos e que sabem prez ar suas glórias” (idem, ibidem). E,

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N e s se se n t i d o , va l e a p e na a n a l i s a r o d i s c ur so d e S o t e r o d o s Re i s, a s s i m c o mo o ne c r o l ó g i o d e J o a q u i m M a no e l d e M a c e d o .

com efeito, aqueles que se puseram á frente da cerimônia de enterro procuraram explicitar o gesto da gratidão e, sobretudo, do reconhecimento do morto como uma das “glórias” do Brasil e do Maranhão. O velho mestre e adversário político, Sotero dos Reis, várias vezes em seus discursos enfatizou o relevo nacional do “comprovinciano”: “todos os maranhenses perdemos no Sr. Comendador Lisboa não só um comprovinciano, mas um dos brasileiros mais distintos por seus talentos, instrução e relevantes serviços prestados às letras” (idem, p. 386). No entanto, em vida, João Lisboa queixava-se da falta de reconhecimento na província, indicada pelo fracasso das vezes em que seu nome concorreu a uma vaga de deputado geral ou de senador. Henrique Leal confirmava isso ao diz er: “Afora um ou outro justo apreciador de seu subido merecimento, os maranhenses o votaram ao ostracismo” (idem, p. 383). (Esse “ostracismo” é, mais que contraponto, o avesso complementar da “espirituosidade” observada por Veríssimo). S egundo Henriques Leal, isso se devia ao fato de João Lisboa se recusar a ceder ás “solicitações e imposições” do jogo partidário para, em troca, obter um “diploma de deputado” (idem, ibidem). Em carta de julho de 1861 dizia Lisboa que enquanto da corte havia recebido “duas únicas provas de consideração” – a condecoração que não havia pedido e a comissão para pesquisa em Portugal – “da minha Província e dos meus absolutamente nada, a não ser boas palavras, e não duvido mesmo que excelentes desejos, que infelizmente o destino não tem consentido que sejam coroados de bom êxito” (Niskier, 1986, p. 64). E aludindo ao uso político da “ingratidão dos Maranhenses” dizia na mesma carta:

[ . . . ] d e p o i s d e e x ub e r a n t e s e l o gi o s no s j o r n a i s, c o m d ur a s i n v e c t i va s à i n gr a t i d ã o d o s M a r a n h e ns e s , q u e me d e i xa m no e sq ue c i me n t o , a p a r e c e m o s me u s a mi go s c o m o s se u s 2 0 0 e 3 0 0 vo t o s, se mp r e e l e i t o s p a r a a l g u ma c o i s a , se n ã o p a r a t ud o , e p o st o q ue t ud o fo ss e t e n t a d o , e u s e mp r e t e n ho si d o ho nr a d o c o m a s mi n ha s d úz i a s d e vo t o s ( e m 1 8 3 6 t i ve , c r e i o q ue u m o u d o i s) e na c a ud a o u c o i c e d a b e s t a , a b a i xo d o s ma i s vi s e o b j e t o s t r a t a nt e s, e m p a r t e a go r a fe l i z me n t e e mi g r a d o s ( i d e m, i b i d e m) .

Em seu discurso, Sotero dos R eis tratava de justificar a situação – de um homem de letras de renome nacional não estar ocupando cargo político à

altura – com o argumento genérico de que enquanto em Portugal e na França os homens de letras eram escolhidos para altos cargos, “não têm entre nós outra recompensa de seus trabalhos, ou dos relevantes serviços que prestam ao país, senão a glória; não podem aspirar ás vantagens na vida civil”. Havia para Henriques Leal um “estigma” a combater: o do esquecimento e da ingratidão dos comprovincianos para com um ilustre maranhense. Com as “honras póstumas” tratava-se de atenuar a “reprovação vindoura” a uma província que, em geral, não deu provas de reconhecimento dos méritos do morto ( Leal,1987, pp. 384-85).

O enterro na capela-mor da Igreja do C armo; a concessão de dois contos para a impressão das obras; a entrada do brigue An gélica 1ª com vergas cruzadas seguido por todos os navios no porto; o não funcionamento da Assembléia Provincial no dia do enterro; a ida dos deputados à rampa para recepção e acompanhamento do féretro até o jazigo; a criação de uma comissão para dar os pêsames à viúva; o acompanhamento por “muitos cavalheiros distintos”, em escaleres, do barco que transportava os restos mortais de João Lisboa do brigue até o porto (“partiu na frente do préstito o escaler coberto de crepe, que conduzia o corpo para terra, seguindo-se o em que vinham os inspetores da tesouraria e da alfândega, o do capitão do porto, e após os das demais pessoas”); a conservação das vergas cruz adas pelos navios mercantes durante os dias em que o cadáver permaneceu a bordo do Angélica 1ª; o desfile em terra do préstito...

i nd o à s a r c a s o s S r s. F . S o t e r o d o s Re i s, L u í s C a r l o s P e r e i r a d e Ca s t r o , F e r na nd o P e r e i r a d e Ca st r o , M a r t i n us H o ye r , O l e gá r i o J o sé d a C u n ha , J o ã o P e d r o Ri b e i r o , I n á c i o N i n a e S i l va , J o ã o G o nç a l ve s N i na , Lo ur e nç o d e C a s t r o B e l f o r t e o D r . A n t ô ni o H e nr i q u e s Le a l . . . e c e r c a nd o o fé r e t r o o s d e p u t a d o s p r o v i nc i a i s e a s c o mi s sõ e s d a s d i ve r s a s so c i e d a d e s l i t e r á r i a s e b e n e fi c i e n t e s. . . ( i d e m, p p . 3 8 5 -8 6 ) .

da capital; o número de pessoas e as instituições e tipos de autoridades que acompanharam o caixão (“O largo do P alácio e praias próximas estavam literalmente apinhadas de povo, e para mais de seis mil pessoas, entre elas

o corpo dos Educandos Artífices, de que fora protetor, e as primeiras autoridades, civil e policial”); pronunciamento de discursos fúnebres pelos Srs. Tenente-C oronel Fernando Luís Ferreira, Eduardo A. de M. R ego (membros da comissão do Ateneu Maranh ense) e o Sr. Dr. João Bernardino Jorge; a alocução dirigida pela comissão da Assembléia à viúva, em sua casa, depois do depósito do caixão na Igre ja; as várias missas e ofício fúnebre antes do sepultamento na capela-mor da igreja dos Carmelitanos às nove horas do dia seguinte (idem, pp. 385-86). Henriques Leal, com esses atos, dizia sentir-se ufanado como maranhense, pois demonstravam que tanto seus concidadãos quanto estrangeiros “souberam honrar” as cinz as do “distinto maranhense”; fazia questão de indicar que tudo fora “ato espontâneo” (provavelmente se referia á presença das pessoas, pois diz que nem a viúva e nem o irmão do finado fizeram convites e também evitaram sinais de “pompa” ou “vaidade humana” no saimento, como indicaria o fato de não se cantar durante o transporte e nem dentro da igreja e não se pintar de preto o seu forro) (idem, p. 387).

Sem querer extrair mais que a leitura permite, nesse enterro é possível entrever algo do “cortejo de triunfo” benjaminiano mencionado na conhecida tese 7 de “Sobre o conceito de história”:

T o d o a q ue l e q ue , a t é h o j e , o b t e v e a v i t ó r i a , ma r c ha j u n t o no c o r t e j o d e t r i u n f o q u e c o nd uz o s d o mi n a n t e s d e ho j e [ a ma r c ha r e m] p o r c i ma d o s q ue , ho j e , j a z e m p o r t e r r a . A p r e sa , c o mo se mp r e d e c o st u me , é c o nd uz i d a no c o r t e j o t r i u n fa n t e . C ha ma m- n a b e n s c ul t u r a i s [ . . . ] o q u e e l e [ o ma t e r i a l i s mo hi s t ó r i c o ] , c o m s e u o l h a r , a b a r c a c o mo b e n s c u l t ur a i s a t e s t a , se m e xc e ç ã o , u ma p r o ve ni ê nc i a q u e e l e nã o p o d e c o n si d e r a r s e m ho r r o r . S u a e x i st ê n c i a n ã o se d e ve so me n t e a o e s fo r ç o d o s gr a nd e s gê n i o s, s e u c r i a d o r e s, ma s, t a mb é m, à c o r vé i a s e m no me d e se u s c o n t e mp o r â n e o s . N u n c a há u m d o c u me n t o d a c u l t ur a q u e nã o se j a , a o me s mo t e m p o , u m d o c u me nt o d a b a r b á r i e . E , a s si m c o mo e l e nã o e st á l i v r e d a b a r b á r i e , t a mb é m n ã o o e s t á o p r o c e sso d e s ua t r a ns mi s s ã o , t r a n s mi s s ã o n a q ua l q ua l e l e p a s so u d e u m v e nc e d o r a o ut r o . P o r i s so , o ma t e r i a l i s t a hi s t ó r i c o , n a me d i d a d o p o s sí v e l , se a fa st a d e s sa t r a n s mi s s ã o . E l e c o n si d e r a c o mo s u a t a r e fa e s c o va r a h i s t ó r i a a c o n t r a p e l o . ( B e nj a mi n , 2 0 0 5 , p . 7 0 ) .

O enterro de João Lisboa na São Luís de 1864 teve muito de um “cortejo de triunfo” do tipo acima indicado. S em se tratar de figura das classes dominadas, ao contrário, o corpo ali velado não deixava de ser paradoxalmente o de um “vencedor vencido”. Para os dominadores, seus despojos compunham as expressões exatas de um “bem cultural”. Procuraram, porém, evitar a percepção do “horror” presente na “origem” do mencionado “bem cultural” (a “obra” produzida pelo morto). Um bem que não era produto apenas dos esforços do “gênio” – como estabeleceu romanticamente Henriques Leal – mas também da “corvéia anônima” dos contemporâneos, vários dos quais estariam ali acompanhando o cortejo. Para este, vale como luva a seguinte formulação: “Nunca há um documento da cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie. E, assim como ele não está livre da barbárie, também não o está o processo de sua transmissão, transmissão na qual ele passou de um vencedor a outro.” Parece-nos difícil ler a obra de João Lisboa e pensar a história da sua transmissão como se fosse apenas a de um “documento da cultura”. Esta é a visão característica do programa daqueles que não apenas participaram como comandaram o cortejo triunfal, ponto de partida da transformação de João Lisboa e de sua obra, produtos de uma relação de reflexo e reflexão com o horror da barbárie, em documentos (e monumentos) da cultura. É desse ângulo que o espanto de José Veríssimo em relação à espirituosidade dos maranhenses se torna compreensível:

D e c i d i d a me nt e , o s ma r a n he n se s d a q ue l e t e mp o e r a m ho me n s d e e sp í r i t o , p o i s q ue l e r a m e s se s o p ú sc u l o s, e l o n ge d e ha ve r e m a ma l d i ç o a d o e v a i a d o se u a ut o r , e o e sc o r r a ç a d o d a p r o v í nc i a , o a d mi r a r a m a t é o p o nt o d e , mo r t o e l e , fa z e r e m d o s e u e n t e r r o u ma so l e ni d a d e p úb l i c a e vo t a r e m d i n h e i r o p a r a s e l he r e i mp r i mi r e m e s se s me s mo s fo l h e t o s e m q u e e r a m t ã o d e sp i e d o sa , e ve r a z me n t e , t r a t a d o s. . . ( 1 9 9 8 , p . 1 0 8 ) .

Nisso tudo havia algo daquilo que Deleuze e Guattari, pensando num outro contexto as relações entre Estado e “sábios”, viram como “canalhice organiz ada”: reapropriação e enquadramento das “maquinazinhas desejantes” (s/d, p. 245). Contudo, o “sábio” João Lisboa não era um

membro dos “vencidos” (no sentido dado por Walter Benjamin, e que, em nosso caso, seriam os escravos e camponeses), mas um vencedor (igualmente no sentido de Benjamin), um “agente integrado da integração” (Deleuz e e Guattari, idem, p. 246). De certo modo, no cortejo, era homenageada uma figura que os seus organizadores sabiam que lhes pertencia. Por certo, havia coerência nos discursos de Sotero dos Reis. Contudo, o “vencedor” ali homenageado e monumentaliz ado era também um “vencido”. É esse aspecto, deliberadamente relegado ao esquecimento, como João Lisboa queixava-se em vida, que ao mesmo tempo dava à sua figura um caráter de presença incômoda entre pares.

Questão importante, neste momento, foi a da polêmica, que não houve, entre João Francisco Lisboa e Francisco Adolfo de Varnhagen em torno do tema dos índios (os “vencidos” por excelência). A polêmica foi componente essencial dessa fase de construção da memória de Lisboa, na medida em que apontou para diferenças de opiniões em torno do valor da sua obra. Portanto, o momento da morte de João Lisboa foi ao mesmo tempo o da consagração da obra e da figura, mas também de críticas. Mais interessante ainda por haver se dado em torno de tema central para a elite letrada do império: a questão dos índios e do indianismo 6. Gonçalves de Magalhães havia publicado A Confederação dos T amoyos (1857) e José de Alencar O Gua ran i (1 857 ). Em 1858 , em Po rt u gal, J oão Lis bo a pub licara en fim a segunda parte do Jorn al de Timon, onde criticava as posições de Varnhagen sobre os índios, fazendo uma espécie de mea-culpa em relação às suas idéias na primeira parte. Varnhagen havia também lançado o segundo volume da História Geral d o Brasil (1857), colocando em confronto a visão dos indianistas e a do maior historiador do Império. O debate chegou a envolver a participação até de dom Pedro II. Na verdade, no caso de João Lisboa não chegou a se configurar exatamente uma polêmica entre ele e Varnhagen, pois a plaqueta – Os índios b ravos e o S r. Lisboa (18 67 ) – imp ress a em 186 2, só fo i publi cad a em 1867 (qu at ro ano s

6

V e j a P u nt o n i , “ O sr . V a r ha g e n e o p a t r i o t i s mo c a b o c l o : o i nd í ge na e o i nd i a n i s mo p e r a nt e a h i s t o r i o gr a f i a b r a s i l e i r a ” ( 2 0 0 3 , p p . 6 3 3 -6 7 5 ) .

após a morte de Lisboa), em Lima, justificada, segundo o historiador paulista, pela notícia da “assaltada”, no Javari, à Comissão de Limites Brasílico-Peruana (10/11/1866). E o estudo que saiu logo depois da publicação da segunda parte do Jorn al de Timon – supostamente do cunhado de Varnhagen (o português Frederico Augusto P ereira de Morais) – Diatrib e contra a timonice do Jorn al de Timon Maranh ense acerca da Histó ri a Geral do Brasi l do Sr. Va rn hagen ( Lis bo a, 185 9 ) – n ão ch ego u ao conhecimento de João Lisboa, que morreu sem conhecê-lo 7. A polêmica ocorreu entre seguidores ou admiradores dos dois historiadores, especialmente na resposta de Antônio Henriques Leal a Frederico Augusto Pereira de Morais, no Panth eon Maranh ense. Leal acreditava que “Diatribe” era escrito pelo próprio Varnhagen. Na Província do Maranhão, a repercussão da polêmica trouxe à tona diferenças locais, como em relação a César Marques, um dos “desafetos” de João Lisboa (Niskier, 1986, p. 106), que teria divulgado “Os Índios Bravos”. S egundo Clado Ribeiro Lessa, C ésar Marques

fa l a v a ma l d e se u s c o m p r o v i nc i a no s e m g e r a l , e p a r ti c ul a r me n t e d o a ut o r d o P a n t e o n M a r a n he n se ( H e n r i q u e s Le a l ) e d a p a n e l i n ha d e a mi g o s e a d mi r a d o r e s d e J o ã o F r a n c i sc o L i sb o a , q ue se a r r o ga va m o p a p e l d e M e sa Ce n só r i a d e p r o v í nc i a e a s se g ur a q ue , p o r nã o s e q ue r e r s ub me t e r à s u a p e t ul a nt e t i r a n i a l i t e r á r i a , e r a p o r e l e s p e r s e g ui d o s, e ma i s a i nd a , p o r se r p o s s ui d o r d o fo l he t o O s Í nd i o s B r a vo s, e o t e r d a d o a l e r a me i o mu n d o , d o q ue n ã o s e a r r e p e nd i a ( N i s ki e r , 1 9 8 6 , p . 1 0 6 ) .8

Além do aspecto passional e violento dos debates entre os letrados, ficam indicadas as diferenças de concepção histórica entre o programa da Histó ri a Geral, um pro gram a cump rid o , e o pro grama “mo no gráfi co ” do Jorn al d e Ti mon , u m p ro grama n ão cu mpri do. Di feren ças sob re as q uais tinha precisa consciência Francisco Adolfo de Varnhagen, como expôs em Os Índio s B rav os e o Sr. Lisb oa:

7 O t e xt o fo i i mp r e s so ma s nã o p ub l i c a d o . H á a u t o r e s q u e o d ã o c o mo d e J o s é d e A l e n c a r , q u e o t e r i a e sc r i t o p a r a d e f e nd e r V a r n h a g e n ( Ca r v a l ho , 1 9 9 5 , p . 1 5 ) . 8 A “ p a ne l i n h a ” l i t e r á r i a fo i a sp e c t o r e s sa l t a d o p o r F r e d e r i c o J o sé Co r r e i a e m s e u Li v r o d e C r í t i c a s o b r e o P a n t h e o n M a r a n h e n s e .

Q ue a H i s t ó r i a G e ra l h a v i a s i d o e sc r i t a a n t e s d o q u e c u mp r i a , vi s t o q ue o q ue ma i s i m p o r t a va e r a t e r mo no gr a f i a s. É o q ue se d e d u z d o p r ó l o go d e T i m o n , p á g. X . M a s o q ue o c e nso r nã o d i z é c o mo se a d vi r i a m o s no s so s mo nó gr a fo s se m a l g u ma l uz q ue o s g ui a s se , t a l c o mo a q ue o c e nso r ( p a r t i c ul a r me nte e m s u a s c a r t a s) c o n f e s sa q ue e n c o n t r o u n a s p á g i na s d a H i s t ó r i a G e ra l . ( N i s ki e r , p p . 1 0 2 - 0 3 ) .

O fato é que os últimos anos de João Lisboa, até sua morte, e os anos seguintes, até a publicação dos trabalhos de Varnhagen e de Leal, foram marcados por dois tipos de juízos sobre ele e sua obra: um negativo, outro positivo. No primeiro, foi julgado como “mau esposo”, “mau filho” (por ter

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