De uma forma geral verificamos que os enfermeiros, na sua maioria, concorda totalmente (mediana) com as afirmações “ A EC é um instrumento valioso na melhoria dos cuidados de
enfermagem perioperatórios” (52%) e “Através da EC podemos modificar os procedimentos de enfermagem perioperatórios de forma a melhorar os cuidados a prestar” (54%). Igualmente verificamos
que os inquiridos assumem uma posição de concordância (mediana) com as afirmações “A Evidencia
Cientifica é uma ferramenta essencial na prática dos cuidados perioperatórios, por fornecer aos enfermeiros autoridade para mudar a realidade dos cuidados perioperatórios, por constituir uma prática fundamentada”; “Na minha prática clinica utilizo a Evidencia Cientifica como ferramenta de melhoria contínua da qualidade dos cuidados perioperatórios”. Com o objetivo de prestar cuidados de qualidade,
os enfermeiros devem refletir e avaliar as suas intervenções devendo as mesmas serem fundamentadas por conhecimentos clínicos baseados na evidência feito através da investigação (Ferrito, 2010).
Neste estudo, os inquiridos assumem uma posição de concordância (mediana) para a afirmação “Os enfermeiros perioperatórios realizam poucos trabalhos de investigação com base em
Evidencia Cientifica, devido a escassez de formação nesta área do conhecimento científico”. Em
estudo realizado no Hospital Universitário da Holanda sobre “Attitudes, Awareness, and Barriers
Regarding Evidence-Based Surgery Among Surgeons and Surgical Nurses”, verificamos que os
enfermeiros mencionam como barreiras para a utilização daquele paradigma na prática perioperatória: o desconhecimento de relatórios de pesquisa, a falta de tempo para ler esses relatórios e implementar novas ideias, e ainda, as implicações pouco claras para a prática (Anouk et al, 2009).
Os enfermeiros do estudo compreendem a importância da EC na prática perioperatória, uma vez que as respostas obtidas relativas àquelas afirmações, relacionam a EC com a melhoria da qualidade da prática dos cuidados e simultaneamente, com a alteração das práticas, pelo que verificamos a existência de uma preocupação manifestada e estabelecida de forma positiva, em que a EC pode melhorar a qualidade dos cuidados, modificando a prática perioperatória. Este grupo de enfermeiros perioperatórios sente como é importante a existência de uma cultura de tomada de decisões fundamentada em evidência científica, para uma mudança na melhoria da prática perioperatória, dando assim legitimidade aos enfermeiros para que essa mudança ocorra. Ao longo dos anos a qualidade dos cuidados é uma preocupação permanente dos enfermeiros e também das organizações de saúde, pelo que é fundamental a envolvência de todos os funcionários da organização independentemente dos seus cargos, tal como na afirmação seguinte: a Qualidade é definida como
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“um processo dinâmico, ininterrupto e de exaustiva actividade permanente de identificação de falhas
nas rotinas e procedimentos, que devem ser periodicamente revistos, actualizados e difundidos, com participação da alta direcção do hospital até aos seus funcionários mais básicos” Feldman, Gatto e
Cunha (2005, p 214). É introduzida a necessidade de envolver todos os funcionários da organização de saúde, independentemente dos cargos organizacionais.
Verificamos que os inquiridos têm uma opinião neutra relativamente ao conceito “Na minha
prática clinica a minha experiência é mais valiosa que a Evidencia Cientifica publicada” (mediana se
situa “não concordo, nem discordo”). Cerca de 75% das respostas situaram-se abaixo da posição neutra, isto é, discordando da afirmação o que em nosso entender é revelador do conhecimento que os enfermeiros têm acerca da importância da EC como ferramenta para a mudança da prática perioperatória, uma vez que fornece dados objetivos e científicos que fundamentam as intervenções de enfermagem, sendo que essa evidência sustenta a prática perioperatória e não só a experiência individual. A prática de EBE integra a melhor EC existente resultante da investigação, a par da experiência individual, da opinião de peritos e das preferências dos clientes tendo em conta os recursos disponíveis (OE, 2006).
No nosso estudo verificamos que existe uma percentagem (59%) de enfermeiros que utiliza, como fonte de informação científica, o esclarecimento com os pares. Este tipo de abordagem parece ser comum entre profissionais, pois em estudos efetuados, também profissionais de saúde recorrem ao esclarecimento com os pares para obter aconselhamento terapêutico (Galvão, Sawada & Rossi, 2002; Ferrito, 2004).
Relativamente a afirmação “A operacionalização da melhor Evidência Cientifica é um
processo lento e difícil, porque os enfermeiros não têm formação nesta área” verificamos que os
inquiridos referem não concordar, nem discordar (mediana). No entanto, a caixa de bigodes apresenta um maior cumprimento e cerca de 50% da amostra variou entre o concordo e o discordo parcialmente. Os enfermeiros do estudo revelam conhecer a EC e a sua aplicabilidade na prática perioperatória, como um instrumento de melhoria continua. Após análise das respostas à afirmação acima mencionada, verificamos que os inquiridos têm uma opinião neutra. Após as evidências encontradas através da pesquisa, como será que os enfermeiros as introduzem na prática dos cuidados? Existem estudos que identificam as dificuldades dos enfermeiros para o desenvolvimento de pesquisas e também, dificuldade na utilização dos resultados das pesquisas, ou seja, a dificuldade em implementar a prática baseada em evidências, pelo que ainda existe um longo caminho a percorrer (Galvão, Sawada & Rossi, 2002; Anouk et al, 2009). Em um estudo realizado a enfermeiros perioperatórios no
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Brasil, estes identificam como barreiras, a falta de tempo e de suporte organizacional e ainda, a falta de reconhecimento dos pares (Galvão, Sawada & Rossi, 2002).
No Canadá estão a ser aplicadas medidas que visam o desenvolvimento da prática baseada em evidências. Organizações de saúde têm definido um vínculo entre a investigação e a prática, com adoção de estratégias, como sejam comissões orientadas para a investigação em enfermagem, o desenvolvimento de planos estratégicos, entre outras. Estão a ser introduzidos programas formativos dirigidos à equipa de enfermagem para o desenvolvimento de projetos de investigação (Galvão, Sawada & Rossi, 2002).
8.1.7 – FAMILIARIEDADE COM O CONCEITO NORMAS DE ORIENTAÇÃO CLÍNICA
(NOCS)
Mais de metade dos inquiridos (93%) sabe o que são NOCs e desse número a maioria (90%) considera utilizá-las na prática clínica. As NOCs são definidas como “conjunto de recomendações
clínicas, desenvolvidas de forma sistematizada constituindo um instrumento que se destina a apoiar o profissional de saúde e/ou o doente na tomada de decisões acerca de intervenções ou cuidados de saúde, em contextos bem definidos” Roque, A.; Bugalho, A.; Vaz Carneiro, A, (2007, p 7).
As NOCs podem constituir uma ferramenta importante na mudança de comportamento dos enfermeiros, uma vez que permitem obter um ganho sistemático, fácil, relevante e eficaz sobre uma determinada patologia, reforçando a qualidade da decisão clínica, uma vez que disponibilizam recomendações claras sobre determinada situação, indicando qual a melhor prática clínica. Paralelamente, a sua importância é reconhecida por focalizar-se nos melhores resultados (outcomes), com aumento da eficácia clínica, minimização de riscos com consequente diminuição de intervenções desnecessárias, ineficazes ou até prejudiciais (Roque, A.; Bugalho, A.; Vaz Carneiro, A, 2007).