apresentar como características de personalidade uma maior abertura para temas que extrapolam o conhecimento técnico-científico. Talvez seja por isso que frequentemente ganhem a pecha de “diferentes” e não sejam reconhecidos pelos colegas como médicos. Clovis ofereceu testemunho desse tipo de impressão e reconheceu diferenças que sugiriam da necessidade de ruptura com a Medicina:
Ah... meio especialidade de segunda, né? “O cara que não quer ser médico.” Mas o meu supervisor que fala isso, e acho que nisso ele tem razão, que tem que fazer um luto da Medicina. Dessa busca desenfreada pela cura, que também é um pouco da questão de ser médico mesmo.
De fato, as mudanças técnicas e as dificuldades pessoais vivenciadas pelos psiquiatras ao longo da sua formação em Psiquiatria levam a crer que tal passagem diz respeito mais a uma transição da Medicina à Psiquiatria do que a uma especialização no interior da própria Medicina. A amplitude e complexidade dos impactos desse trânsito por vezes levam à revisão das representações formadas sobre a própria Medicina. Das doenças no sentido pragmático e “científico”, passa-se ao cuidado para com todo e qualquer sofrimento - o que com frequência gera novas perspectivas éticas e atitudes diante do paciente, como atestaram os entrevistados:
Franz: Eu era muito apegado a essas coisas da definição estrita, dos diagnósticos da clínica, por exemplo, que era muito científico. Mas quando comecei a ter contato com os pacientes psiquiátricos mudou muito. Eu acho que a maior parte das pessoas entra um pouco mais pragmática do que sai. O que é bom, num certo sentido, sai mais reflexivo assim. [...] Então, acho que... não sei se dá para falar muito sobre essa tendência agora, precisa esperar um pouco. O pessoal ir saindo assim... ver como sai. Mas falando por mim mesmo, mudei bastante.
Caio [...] porque a residência é uma baita experiência no intuito da gente mudar as nossas próprias ideias assim.
Tulio: [...] hoje em dia, para mim, a medicina é uma ferramenta para ajudar as pessoas que têm algum tipo de sofrimento. Seja físico, seja psicológico... que de alguma forma dificulte a evolução dela a se relacionar com as pessoas.
Leandro descreveu a mudança sentida logo nos primeiros meses da residência e o impacto que ela teria tido na sua visão sobre a “essência humana”:
É outro ritmo assim, completamente diferente. Lembro os três primeiros meses da residência: tudo bem, trabalhava só das 8h às 18h, chegava em casa acabado emocionalmente, e fisicamente inclusive. Você nem tem tantos pacientes assim, mas o dia de ambulatório era um dia extremamente cansativo [...] E defender um pouco a existência dessa subjetividade humana, né? A existência de que...“olha, quem não aguenta trabalhar 12 horas por dia não é fraco, é humano”. Errado é a gente achar que as pessoas deveriam trabalhar 12 horas por dia e pegarem 2 horas de trânsito para ir e 2 horas de trânsito para voltar [...] Acho que desmistificar um pouco o que é a... vou falar um termo metafísico, mas “o que é a essência humana”. No sentido do que é a boa vida humana, o que é... uma existência humana com os seus sofrimentos, com os seus
pormenores, mas evitar essa robotização que a gente vai vivendo hoje em dia e essa ditadura da felicidade.
Diversos entrevistados relataram também terem passado por tratamento psiquiátrico em diferentes momentos da sua formação profissional:
Beatriz: [...] pelo menos para mim, quanto estava muito mal pensava muito: “será [que] o que eu estou sentindo está interferindo no como estou interpretando o que o paciente está me contando?” [...] Eu acho que... eu tenho uma facilidade em empatizar, mas, é diferente assim... do que sentir na pele, sabe? Leandro: [...] já...no final do R2 eu me mediquei. Porque eu tenho uma personalidade, o pessoal até brinca que eu sou bipolar. Assim, tenho uma personalidade que tende a uma certa flutuação de humor. Eu faço alguns episódios, quase hipomaniacos assim, principalmente quando estou muito focado no trabalho. Então, por exemplo, quando foi a greve dos residentes (não desse ano, que eu não participei, mas no ano passado, que foi a nacional, que eu estava puxando junto com a turma)... nossa! Estava ligado no 220v, dormindo 3 horas por noite, hiper focado, fazendo mil coisas ao mesmo tempo.
Ana: [...] é, não é nenhum problema você tomar pelo momento. Não estava deprimida, não, não tinha... não era muito um diagnóstico, eram mais os sintomas. Mas que eu acredito assim, na hora falei: “puxa, mas eu nem estou me sentindo diferente!” Mas eu acho que fez uma grande diferença eu ter conseguido... sei lá, tudo bem, foi 6 anos depois, mas pensando no vestibular, que eu fiquei meia hora olhando para a prova...tipo, olhando sem saber o que fazer. E eu cheguei e fui super numa boa fazer todas as provas, sem pirar, sem ficar super ansiosa, acho que me ajudou sim, bastante.
É interessante notar que tais vivências foram consideradas determinantes pelos entrevistados em sua escolha da especialidade ou na forma como se relacionam com os pacientes:
Rafael: [...] e a coisa estava assim. Aí depois o segundo ano da faculdade foi mudando, foi ficando mais pesado. Lembro que [a terapeuta] falou: “não, você já está há alguns meses assim, ia nas aulas, mas estava desmotivado e tal...”. Aí eu tomei por alguns meses, uns seis meses, um ano. Melhorou, fiquei legal. Foi essa vez. Me influenciou, claramente. Até a escolha de medicina no começo eu discuti com ela, a gente falou... e teve bastante influência.
Patrícia: [...] falei: “meu, os psiquiatras dão felicidade para as pessoas”, porque ele me salvou naquele momento dramático para mim.
Caio: [...] alguém me disse uma vez isso, e eu já disse para outras pessoas isso também...assim...porque até teve alguém que me disse não...” uma pessoa que teve um problema psiquiátrico também, também no meio da residência, falou: “puta, mas você não acha que é complicado eu ser psiquiatra tendo algum transtorno psiquiátrico?” Eu falei: “cara, eu acho que isso é muito bom, acho que isso vai te dar uma outra visão, muito mais complexa e muito mais ampla do que está acontecendo”. Porque essa vivência, por exemplo, que eu contei, de uma ruminação mental, de não conseguir escapar do pensamento, de ficar absolutamente inquieto e ao mesmo tempo muito cansado, é uma experiência que só quem viveu consegue entender de fato a dimensão disso [...] Então, por muita sorte, como eu disse, tem um resquício da depressão em mim, um resquício para a parte ruim... mas tem um resquício da parte boa...que eu superei isso e sou uma pessoa muito melhor...Na verdade foi a depressão que me fez mexer também, né?, e tentar olhar a situação da minha vida que não estava legal.
Guilherme: [...] Daí eu, aquela coisa meio de acreditar no método, e eu vi uma diferença significativa em mim. Consegui parar de tomar a medicação que tomava e ficar sem queixas ansiosas. Consegui entender o significado da ansiedade para mim.
Franz: Foi aí que pensei: “puxa, um método significativo e que pode ser aplicado a outras pessoas também”.
Além disso, outros entrevistados relataram a importância de realizarem sua própria psicoterapia:
Mário: [...] eu acho que muitas vezes com os pacientes a gente fica com conflitos que são nossos, né? A gente não consegue lidar com a situação, não consegue dar continência para aquela demanda porque a gente não consegue porque tem uma demanda nossa no meio, que a gente não resolveu. E acho que a análise ajuda a clarificar essas coisas.
Guilherme: [...] foi um contato [com psicoterapia] que até desacreditava. “Ah, é baboseira isso”, não achava nada legal. Aí, quando eu comecei a fazer a minha psicoterapia atual, cheguei a uma visão completamente diferente. Acho que a minha psicoterapia atual foi o fator mais decisivo para eu trabalhar com psicoterapia.
Nas falas selecionadas, os entrevistados destacaram a importância das dimensões subjetivas no exercício de sua profissão e das vivências sentidas “na
pele”, as quais podiam exigir o uso de medicação ou início de um processo psicoterapia. Aqui vale destacar que boa parte dos psiquiatras descreve essas vivências como positivas no sentido de estabelecer uma maior conexão e compreensão do sofrimento de seus pacientes, e muitas vezes elas despertaram o interesse pela especialidade. Tais vivências permitiram ainda um maior autoconhecimento, considerado uma das virtudes mais importantes para o psiquiatra (Radden e Sadler, 2010).