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Aqui será considerado que o percurso gerativo de sentido é capaz de desvendar aspectos sociais que possibilitaram uma determinada construção do discurso, por este ser construído por um ator social, que interage dentro de estruturas sociais e é influenciado por toda uma gama de elementos que, de um modo ou de outro, guiam o modo como o sentido é construído (e mais importante, qual sentido será construído) (KELLNER, 2001).

A partir da análise da revista Ragú através dos três níveis semióticos e do semi- simbolismo, pretendemos compreender a construção do sentido em suas histórias, perceber quais são os elementos empregados na construção discursiva, e qual a posição social presente nas entrelinhas do discurso. Tentaremos, para isso, identificar as diferentes formas como o discurso é construído em cada autor.

Lin e Mascaro afirmam que a revista não tem uma temática, que o objeto abordado nas estórias não precisam tratar de nenhum tema específico. O que a revista quer expressar com sua existência é o sentimento dos autores marginalizados pelas grandes editoras brasileiras, mas não irá empregar nenhum critério, nesse sentido, de escolha do conteúdo das estórias – estas não precisam abordar o tema da exclusão como obrigatoriedade. Dessa maneira, não havendo uma linha mestre condutora da temática geral, os autores podem construir os mais variados temas.

Tendo como prioridade a análise semiótica das HQs, esta pesquisa recorreu a dois informantes-chave, João Lin e Christiano Mascaro, para compreender a posição da Ragú no meio das HQs brasileiras. Através das entrevistas com os dois editores pode-se afirmar quais são as propostas da Ragú enquanto revista de quadrinhos autorais, qual a posição ideológica dela, e outras questões próprias que apenas puderam ser explicadas pelas palavras dos editores. Ao analisar as estórias, pretende-se compreender como se dá essa posição social que foi descrita pelos próprios editores. A posição deles é a mais significativa na revista porque eles escolhem qual estória entra na revista, com critérios próprios. Dessa maneira, as estórias analisadas, embora escritas por outras pessoas além

dos dois editores, entrou pela seleção deles, e isso as torna representativas de sua posição ideológica.

A interpretação desses agentes sobre sua própria obra pode ter um significado relevante quando comparado às análises semióticas. Porém, não será dado um valor propriamente analítico a estas entrevistas, pois este trabalho foca na análise do discurso das estórias, e não no discurso dos editores sobre as estórias. As entrevistas servirão para situar a revista e os atores envolvidos no campo social. Demais textos, como os editoriais escritos por Lydia Barros e o texto informando o significado de autoralidade, por Fabio Zimbres, também servirão para nortear a posição da revista, pois os editores, ao incluírem esses textos na revista, confirmam sua concordância com eles.

Sendo a semiótica extremamente detalhista e precisa em suas análises, não é possível analisar todas as oito revistas Ragú por completo, portanto será necessário um recorte para viabilizar uma análise que dê cabo de um perfil geral da revista. Para isso, será necessário fazer um recorte que apanhe amostras de cada revista. Primeiramente, serão eliminadas da escolha as histórias que sejam: experimentais, adaptações de histórias publicadas em outro meio de comunicação e poesias ilustradas.

As HQs experimentais possuem uma construção discursiva que, por vezes, sequer busca ter um significado lógico, mas busca que o leitor reflita e re-signifique aquilo que lê. A análise de uma HQ experimental poderia se deparar com o vazio, com a possibilidade de interpretar diversas possibilidades, que pode ser a própria intenção do autor, deixar o significado da história em aberto, como um dadaísmo em quadrinhos. Essa dificuldade em analisar esse tipo de história faz com que ela tenha menor prioridade nas análises, já que estas serão em número reduzido.

As adaptações de outras histórias, por mais que possam trazer um conteúdo ligeiramente diferente do original, pelas escolhas tomadas pelo artista na hora de adaptar para os quadrinhos, deverá seguir a maior parte das escolhas tomadas pela obra original. Sendo assim, foge do que buscamos neste trabalho, que são HQs com um conteúdo criado inteiramente pelo artista e que represente o que ele quer dizer (ou deixa escapar).

As poesias, por fim, embora incluídas em uma antologia de quadrinhos, são postas mais como poesias ilustradas do que uma história em quadrinhos poetizada (ou uma poesia quadrinizada). Não contam uma história por meio de uma união entre imagens e palavras, mas as palavras são o importante do discurso, enquanto que as imagens ocupam um espaço secundário, sem uma necessária ligação com o que é dito. Embora

não seja simples conceituar o que é uma história em quadrinhos, as poesias ilustradas da revista Ragú dificilmente se enquadrariam em alguma classificação de quadrinhos.

Porém, mesmo com essa delimitação do objeto, o recorte segue com um número muito alto de estórias a analisar (mais de 130), pois pela semiótica será empregado muito tempo em cada uma delas. O que será feito, então, é escolher uma estória de cada revista, contabilizando um total de oito estórias a serem analisadas. Um novo critério a ser estabelecido para escolher o recorte será a não-repetição de autores. Ou seja, um autor escolhido não será analisado duas vezes.

Com todas as estratégias empregadas para criar um recorte metodológico viável, a variedade de estórias a serem analisadas reduz enormemente, porém não a ponto de todas as estórias que restaram serem as únicas possíveis de serem analisadas. Não foi possível, com os critérios de seleção empregados, encontrar um único recorte possível. Ainda existem mais do que oito estórias a serem analisadas. Assim sendo, o último critério a ser empregado será mais subjetivo, pois remeterá a uma “densidade discursiva” presente nas estórias.

Este trabalho parte de uma série de estudos que apontam as histórias em quadrinhos brasileiras como críticas da realidade social, como meios de comunicação que não convergem necessariamente com a ideologia dominante. Dessa maneira, nos propomos não a buscar se há uma interpretação da realidade, uma “proto-sociologia” presente nas HQs, mas sim a desvendar de que maneira essa representação da sociedade se dá – quais são as estratégias discursivas apresentadas nas HQs. Por isso, o que nos referimos por “densidade discursiva” nada mais é do que alguns simples elementos que nos permitam obter maior número de material para analisar posteriormente. Esses elementos seriam tais como: quantidade de páginas, quantidade de texto, riqueza visual, e outras categorias que apontem para a possibilidade de uma determinada estória ter mais elementos discursivos passíveis de serem analisados. Esses elementos e o conceito de “densidade discursiva” não pertencem a uma bibliografia metodológica, foram criados pelo pesquisador através de uma leitura inicial do objeto pela falta de um termo que se enquadrasse melhor. Na falta de uma bibliografia que explicasse a riqueza de elementos passíveis de se encontrar em uma história em quadrinhos, iremos empregar de agora em diante a “densidade discursiva” como categoria que justifica a escolha das oito estórias escolhidas para a análise.

Os demais conceitos utilizados nesta pesquisa são, de forma geral, da base teórica bourdieusiana e as categorias analíticas da semiótica greimasiana.