O universo dos clubes de futebol com os quais trabalhei na pesquisa está constituído por duas instituições de grande representação na elite do futebol profissional argentino: o Clube Gimnasia y Esgrima La Plata e o Clube Estudiantes de La Plata. No que se refere à prática do futebol, com altos e baixos, ambos os clubes têm permanecido durante grande parte da história da elite do Campeonato Argentino de Primeira Divisão, organizado pela Associación del Fútbol Argentino (AFA).
Ambos os clubes da cidade de La Plata têm uma massa de associados que, durante os últimos 20 anos, oscilou entre 15 e 25 mil membros cada um.
90 Diário El Dia. La Plata, 30 de novembro de 1977. Séc. B. p. 9. 91 Diário El Dia. La Plata, 29 de novembro de 1977. Séc. B. p. 5.
Os sócios são habitantes da cidade de La Plata e de seus arredores92, que utilizam as instalações dos clubes nas atividades esportivas e de sociabilidade. Dos três prédios com que contam os clubes, dois estão situados no centro urbano da cidade e um na periferia. Esta separação espacial divide as funções de cada um deles e implica também uma separação temporal dos três tipos de funções que desempenham, tendo em vista que ali se realizam esportes, festas e se levam a cabo as tarefas administrativo-políticas93. Trata-se de três espaços de interação e luta, diferenciados pelas modalidades de gestão dos dirigentes: a organização do trabalho, a promoção de esportes e atividades de lazer e a produção de jogadores e do evento espetacular futebolístico.
O Gimnasia possui uma ampla ―Sede Social‖ localizada na esquina da Rua 4 com a 51. A poucos metros, entre as ruas 7 e 53, encontra-se a Sede Social do Estudiantes. Nestes locais, ambos de três andares, se realizam as atividades político-administrativas dos clubes, mas também se praticam alguns esportes, como basquetebol, ginástica, handebol, natação, etc. A mencionada sede do Gimnasia conta com um amplo ginásio poli-esportivo, construído nos finais da década de 1970, lugar em que joga o time profissional de basquetebol e onde se realizam recitais e outras atividades. Mas, como acertadamente explicita Verônica Moreira na sua etnografia sobre o clube Independiente de Avellaneda:
La sede social es el centro de la vida política del club. Allí se concentran los símbolos del poder, la autoridad y la historia del club. Como todo centro político, hay un conjunto de formas simbólicas asociada a una elite que gobierna, que reproduce en historias, mitos, ceremonias e insignias y marcan que ‗el centro como centro‘… (Moreira 2009: 127)
Nestes locais, além dos escritórios dirigenciais - ambos no primeiro andar dos prédios - encontram-se expostos em salões próprios, todos os troféus obtidos pelo clube nas diversas modalidades esportivas. Os dois clubes contam também com importantes prédios localizados nas terras de propriedade da Província, no Paseo del Bosque de La Plata. Ali estão seus respectivos e tradicionais estádios de futebol profissional e se realizam
92 No último Censo Nacional de 2001, La Plata tinha 574.369 habitantes distribuidos en una
superficie total de 926 Km2. Fonte: Instituto Nacional de Estadísticas y Censos (INDEC).
93 Genericamente: Sala de Reuniões, Presidência, Secretaria Geral, Secretaria Jurídica, Gerência,
Mesa de Entradas , Departamento de Esportes, Tesouraria, Departamento de Compras,
Departamento Contábil, Departamento de Futebol Juvenil e Profissional, Comunicação Institucional,
igualmente algumas atividades esportivas, como o tênis94. Por último, o Gimnasia conta com o Centro de Treinamento de Abasto (160 hectares) e o Estudiantes, com o do Country Clube (54 hectares), ambos localizados fora da cidade. Nestes Centros se praticam outros esportes, como equitação e golfe. Ambos os clubes administram uma escola de primeiro e segundo graus. De forma muito genérica, no contexto legal das associações na Argentina, clubes como o Estudiantes e o Gimnasia são definidos como organizações sociais comunitárias orientadas ao ―bem comum‖ dos sócios, com fortes prescrições nas atividades de lucro econômico95. São, assim, delimitados como ―propriedade‖ de uma organização autônoma da sociedade civil quanto ao aspecto formal da sua organização política e da sua ―função social‖, elaborando sua identidade em torno a um discurso quase obsessivo sobre sua vocação de favorecer atividades esportivas e culturais integradoras, através da saúde física. Apesar de poderem incluir a realização de negócios, como efetivamente vem acontecendo, com maior freqüência, com o futebol, desde 1960, no que diz respeito a acordos de marketing, publicidade, venda de jogadores, em termos ―ideais‖, seus benefícios ―deveriam‖ ser investidos no fortalecimento institucional e nas atividades sociais e esportivas que subjazem a uma origem ―comunitária‖ primordial. Os principais objetivos organizativos encontram-se, assim, marcados desde o começo, pelos valores do associativismo moderno, fundamentado basicamente na necessidade de construção de espaços de sociabilidade institucional tendentes a integrar, educar e conter indivíduos heterogêneos (Gil 2002; Carvalho 2001; Heinemann 1997).
Diferente do que acontece em outros tipos de ―entidades de distinção‖ de La Plata, como por exemplo, o Jockey Clube de La Plata, em que a incorporação efetiva de novos membros depende estritamente das condições de classe e status -o recrutamento depende das ―recomendações‖ de antigos sócios -, o Estudiantes e o Gimnasia pertencem a uma ―cultura clubística‖ baseada em agrupamentos de coletivos locais, mas ―abertos‖, cujos objetivos estão baseados na resolução de demandas sociais de um ―nós‖ definido pela idéia de integração, e mantido através das emoções e das lembranças, e da realização de eventos de diversos tipos (Diaz & Pasaro 1999: 114). Porem, esta ―abertura‖ é simultaneamente um modelo abstrato de recrutamento de grupos dirigentes que está na origem deste tipo de formações sociais; opera como um tipo ideal de referência tanto para os aspectos românticos da ação coletiva incorporados ao universo esportivo como para o desenvolvimento formal de práticas burocráticas e políticas. Como tem mostrado a sociologia das organizações, tal
94 O estádio de Gimnasia conta atualmente com uma capacidade para 26 mil pessoas. Estudiantes
encontra-se construindo um novo e moderno estádio com capacidade para 20 mil.
95 Calcula-se que na Argentina existem aproximadamente 6.000 ―clubes sociais‖ (Lupo 2003:43).
tipo de associações possui um modelo estrutural que tende à estabilização das relações de poder - reduzindo as tensões da diversidade - por meio de mecanismos de consolidação de interação, personalização, controle informal, autodeterminação e formas de influência interna que operam em vários níveis (Heineman 2000). O mencionado ―associativismo voluntário‖ é a fonte de sua organização política. Desse modo, nele, o poder é percebido fundamentalmente como um meio de habitar e administrar um patrimônio coletivo dos associados. Para denominar inicialmente esta dimensão material e simbólica que delimita a dinâmica de habitar e gerir o patrimônio dos clubes, no contexto organizativo e político em que atuam os diversos associados e que os vincula com o voluntarismo e a abertura sobre a base de uma variedade de atividades esportivas, sociais e políticas, utilizarei o conceito clube-instituição.
Sem dúvida, a importância simbólica que os times de futebol têm adquirido ao longo da extensa história do futebol argentino, as grandes somas de dinheiro e de recursos que administram hoje os clubes ―modelo‖ no futebol mundial (como Barcelona ou Manchester United), marcam de forma clara a inserção da suas economias dentro do jogo de investimentos e finanças capitalistas locais, nacionais e globais, tento dado a esta atividade uma centralidade institucional singular nos últimos 50 anos. Orçamentariamente, na apresentação da Memória e Balance de 2007, a Comissão diretiva do Gimnasia declarou gastos de quase 30 milhões de pesos e o Estudiantes, de quase 50 (entre 10 e 13 milhões de dólares). Porém, considerando-se a totalidade dos ativos diretamente relacionados com o futebol, os dois clubes contam com um capital calculado em aproximadamente 70 e 100 milhões de dólares respectivamente96. Direta ou indiretamente, ambos empregam entre 500 a 700 pessoas por mês. Apesar de estarem, ambos, entre os clubes com times de futebol de maior presença ao longo da história do futebol profissional argentino, o Gimnasia e o Estudiantes fazem parte do universo de clubes ―médios‖ do ponto de vista das suas dimensões físico-sociais. Isto se deve, fundamentalmente, ao fato de dividirem seus associados em uma cidade do tamanho de La Plata. Pensemos, por exemplo, que o Clube Atlético Lanús, cuja trajetória nas competências futebolísticas da elite é substancialmente menor do que a dos clubes que compõem o universo de nossa análise, pertence a uma
96 Entre os vinte cinco clubes que encabeçam o ranking elaborado pela revista norte-americana
Forbes, dedicada aos negócios e finanças, não aparece nenhum clube Argentino. Leva em conta o
patrimônio total dos clubes, que se dividem entre bens imóveis (estádios, sedes, etc) e os custos dos passes de seus jogadores. Tomando como base a temporada 2007-2008, os clubes mais ricos do mundo são Manchester United da Inglaterra, com um valor de 1milhão e 870 mil dólares, seguido pelo Real Madrid da Espanha com um valor de 1milhão e 353 mil e o Arsenal de Inglaterra com 1.milhão e 200 mil. A ausência de clubes argentinos se explica em parte –além dos grandes contratos por publicidade e direitos de televisão- porque eles, na condição de entidades civis, não podem ser facilmente avaliados do ponto de vista financeiro.
região dos subúrbios bonaierenses que concentra quase um milhão de habitantes97. Sendo o único clube que criou identificações e tem simpatizantes na elite do futebol, nesta região, o tamanho da sua infra-estrutura e a quantidade de sócios supera a do Estudiantes e do Gimnasia.
Os significados que constróem suas identificações respondem a diversas referências culturais e a uma trama de sentidos historicamente dados. No entanto, como acontece na grande maioria dos clubes da elite do futebol argentino, o Estudiantes e o Gimnasia têm como sustento concreto o legado do mencionado associativismo voluntário na fonte da organização política. Presente ou passado, este modelo abstrato que permeia os códigos de recrutamento ‗dirigencial‘ está na origem de organizações sociais desse tipo; ele opera como um tipo ideal de referência tanto para aspectos românticos da ação coletiva incorporados ao universo esportivo quanto para o desenvolvimento formal de práticas burocráticas e políticas que definem as condições de ação do poder institucional. Na Argentina, apesar de não estar sendo rejeitado abertamente, o modelo de ―clube social‖ é objeto de críticas por mostrar formas de favoritismo, patronato, nepotismo, escondendo negócios pessoais e impulsionando a concentração de poder. Observa-se, então, uma tendência a entender que existe uma incompatibilidade manifesta entre o modelo tradicional de gerir o poder, baseado nas cláusulas de amadorismo e voluntarismo deliberativo dos clubes, e as demandas do mercado global. As pressões pelas mudanças que transformem os clubes em empresas de desenvolvimento ―do negócio futebolístico‖ são cada vez maiores.98
Como aponta Christiam Bromberger (2001), trata-se de uma nova economia política do futebol em que se produzem mercadorias para uma nova classe de homens de negócios e em que se procura que os dirigentes sejam ―cada vez mas estranhos à vida local‖ (Bromberger 2001). Também pode ser entendida a novidade da mencionada separação objetiva - e dissociação simbólica - entre dirigentes e sócios como uma conseqüência direta da transcendência supra-local
97 O Município de Lanús está situado ao sul da cidade de Buenos Aires. 98
Neste sentido, existe, uma crença ―tranqüilizadora‖ que circula entre nós a respeito do sistema espetacular esportivo: a tendência à transformação dos clubes de futebol em empresas responderia fundamentalmente às forças do capitalismo. Serve para aqueles que a apóiam, serve para aqueles que a rejeitam. Não há como negar que as imposições do mercado e da lógica de acumulação tendem a reduzir os espaços de cidadania e representação da sociedade civil e a concentrar os elementos da espetacularidade e o negócio, entre aquelas, as que os clubes com futebol estão atrelados desde suas origens através de sua dinâmica dirigencial. Mas o que podemos refletir para o futuro consiste também em perguntar: sob que condições se dão os impactos de alguns modelos de gestão e condução sobre outros? De que maneira o êxito – ou fracasso- de um modelo de clube como foi conhecido durante o século XX, neste contexto de transformações, se converte em modelo de referência e de interpretação e reflexividade do presente para outros clubes e também para uma sociedade no seu conjunto como culturas em constante justaposição?
que os clubes têm adquirido nos últimos anos a partir da amplificação do negócio e da midiatização. Clubes como Estudiantes e Gimnasia são parte de um sistema
futbolístico com regras e prescrições de ordens diversas e que supõe uma série de
―campos‖ (Bourdieu 1989) inter-relacionados, caracterizados pela mobilidade, pelas relações transnacionais, pela globalização e pelos fluxos materiais e simbólicos. Afirma Carmen Rial a respeito:
Numa analogia com a categoria de Sassen (1991, 2003), de cidades-globais, diria que os clubes-globais são os que transcenderam as fronteiras de suas cidades, regiões e mesmo do Estado-nação. Os clubes-globais são nódulos de fluxos econômicos, humanos, midiáticos e simbólicos globais. São clubes que têm torcedores espalhados pelo planeta, jogadores provenientes de diferentes lugares do mundo, que estão presentes na mídia em diferentes países, que concentram capital que circula globalmente, que atingem a imaginação de uma população planetária. O sistema futebolístico aqui, como em outras instâncias, antecipa dinâmicas sociais de globalização. A conexão entre futebol e globalização merece atenção não apenas porque o esporte, e particularmente o futebol, detém uma centralidade cultural, refletindo aspectos da globalização, mas também impactando e redefinindo usos do termo globalização. Isso posto, devemos reconhecer que a globalização futebolística é formatada, iniciada e também limitada por contextos societais locais e interações societais específicas entre o local e o global. (Rial 2009: 2).
Estudiantes e Gimnasia concentram assim um conjunto de
significantes flutuantes99 necessários para a construção do enfrentamento ―clássico‖ entre os dois times da cidade (antes de 1931, nas distintas ligas amadoras que se sucederam). Trata-se do que alguns autores chamam a ―utilização das estruturas simbólicas‖ dos clubes por parte dos capitais financeiros (Carvalho 2001: 20). Tal fenômeno cria condições favoráveis para que estes e outros clubes sejam tidos como potenciais ―produtos globais‖ cujas antinomias formam parte de um valor de câmbio para um negócio. Em consequência, é normal que venham sofrendo uma forte pressão durante os últimos anos para aceitar a intervenção da lógica empresarial nos aspectos administrativos, enfatizando o marketing, os investimentos financeiros e a midiatização. Esta pressão tem um consequente impacto sobre a organização simbólica do poder no interior das CD, modificando a importância de
99
Categoria utilizada por Laclau & Mouffe para compreender determinadas ―sentenças simbólicas‖ capazes de concentrar a adesão de um conjunto amplo de atores sociais em ―disputa hegemônica‖ (Laclau & Mouffe 1985).
determinadas ―qualidades dirigenciais‖, por exemplo, em favor da especialização e da profissionalização executiva dos cargos ou nas mudanças nas políticas que ainda são lentas ou limitadas, nos clubes objeto de análise.
Nesse sentido, a atividade ‗dirigencial‘, no Estudiantes e no Gimnasia, continua se apresentando como amadora e voluntária, sujeita a uma ―doutrina‖ de democracia e participação interna que se postula surgida de um poder ―soberano‖ dos sócios. Quando entra em clubes como o Gimnasia, qualquer pessoa pode observar o ir e vir de professores, crianças e esportistas de todos os tipos e níveis pelos corredores, salões, etc. Mas, deverá esperar até as 18 h. para observar a presença daqueles que ocupam cargos como dirigentes no clube. Em torno dessa hora é que a maioria dos responsáveis por áreas de direção do clube se faz presente, em uníssono, uma vez terminados seus respectivos trabalhos nas empresas, nos escritórios profissionais ou nas dependências do Estado. Apenas os diretivos pagos e contratados, como secretárias e administrativos, permanecem durante o dia, sendo que geralmente chegam depois do meio-dia e trabalham até às 10 horas da noite, momento em que normalmente os dirigentes se retiram do clube.
Assim, existe, em quase todos os clubes argentinos, um modelo de
make up comunitário, sustentado em discursos e rituais institucionais, que é
constantemente mobilizado por interpretações locais de protagonistas ligados a desejo de status público através da ascensão a cargos dirigenciais. Este conceito, apresentado por Everret Hughes, destaca o caráter de ―produção‖ discursiva e narrativa da identidade das instituições no âmbito dos que se consideram ―parte‖ dela (Hughes 1984: 13). O tempo disponibilizado ao clube – subjetivado como ―tirado‖ do trabalho e da família – é, indiscutivelmente, um dos grandes bens simbólicos que possui um dirigente no começo da sua carreira e no seu desejo de progredir dentro da instituição. Esse ―tempo para o clube‖ é um bem público, mas também um bem econômico, uma vez que pertence à profissão e se transubstancializa em dinheiro para o clube, em tarefas realizadas para este último. Tarefas que, diga-se de passagem, realizadas pelo dirigente sem renda oficial, são consideradas duplamente proveitosas, já que, por um lado, ele é uma espécie de empregado e dono ao mesmo tempo; por outro lado, este fato acaba sendo objeto de um juízo moral maior quando esta tarefa não é realizada adequadamente ou quando a sua dedicação diminui. Um dado de caráter territorial de origem que é estruturante da produção de sentidos no âmbito da dirigencia, pois o ato de situar-se no espaço soial é precisamente um aspecto importante para entender as dificuldades para a busca da mencionada eficácia competitiva exigida por uma lógica mercantil empresarial, na qual justamente o futebol no clube encontra seu principal campo de desenvolvimento. Porque se trata de uma lógica que tende a
pensar o sócio como um ―cliente‖ nunca suficientemente ―cooptado‖ pela instituição e, consequentemente, a pensar uma dirigência como executivos ao serviço da reprodução de um capital com muitas dificuldades para ser medido e avaliado além do econômico.
Convém destacar que o Gimnasia, um dos clubes que pesquisei, e que foi particularmente afetado, durante os últimos anos, por sucessivas crises futebolísticas, colocou no centro da discussão, durante as eleições de 2007, a necessidade de se transformar em uma organização que seguisse o modelo empresarial. Mas ao mesmo tempo, neste debate, discutiu-se a forma em que a ―idealidade‖ associativista aumenta consideravelmente as variáveis objetivas de operar nos modelos de interações de status e nas instâncias formais e informais de construção de consensos internos e tomada de decisões para atualizar este debate. Em torno de um evento fundamentalmente polifônico como o espetáculo futebolístico, a dirigência tendia a pensar, durante esses longos debates na mídia, nas filiais e nas sedes das agrupações100, como sendo o eixo de um espaço social de relativa horizontalidade discursiva, onde tinham a faculdade de delimitar os papéis do poder dentro do clube. Nas várias ocasiões em que participei das apresentações de candidatos das agrupações que disputariam a condução do clube nas eleições, tanto a distância quanto a ausência de uma formulação ―pura‖ do enfrentamento entre o modelo de ―mercadoria‖ versus o modelo da ―camisa‖ (Neves & Rodriguez 2004) aparecia, entre as propostas, como evidência de um esforço dos dirigentes para resolver a disputa mediante uma espécie de ―alquimia‖. As contradições entre o papel profissional, comercial, sentimental e participativo podiam ser observadas apenas quando um dirigente passava a palavra ao seguinte. Efetivamente, durante os meetings políticos em que participei, dificilmente observei com clareza uma tendência dos candidatos a definir posições a respeito da mencionada modernização. Eram mencionadas, ambiguamente, tanto a ―necessidade de
melhorar a eficácia e diminuir a improvisação‖ como a de ―aumentar a participação dos sócios nas decisões e eliminar o personalismo‖. A
maleabilidade das considerações se relaciona com dois aspectos fundamentais: o primeiro, ligado à mencionada heterogeneidade na composição das CD: o segundo, à proximidade objetiva entre os dirigentes e os sócios neste tipo de eventos. Este último aspecto cria uma dinâmica de funcionamento também maleável para a ―dirigência‖: frente a determinadas consultas dos sócios, seja aquele candidato parte da ―lista”101
com maior
100
Com diversas carateristicas, ambos os espaços se referem a agrupamentos de sócios e simpatizantes que se organizam para participarem de eventos no clube.