A proposta deste trabalho, para apoio à implementação da Etapa 4 do procedimento de referência, é um SBC-Fuzzy denominado DALF-Diagramas1 (Decisão Apoiada por Lógica Fuzzy para aplicação dos Diagramas de Decisão da MCC), desenvolvido nos mesmos moldes do DALF-MCC. O DALF-Diagramas auxilia a aplicação dos diagramas de decisão da MCC, tratando as incertezas inerentes ao processo. Este tratamento se dá pela incorporação de termos primários Fuzzy relativos ao nível de aderência da empresa/sistema a quesitos, os quais devem ser ponderados pela equipe de implantação da MCC, durante a implementação da Etapa 4. A utilização de termos primários (lingüísticos) Fuzzy se contrapõe às respostas simplistas do tipo “Sim” ou “Não”, propostas pelas normas e bibliografias pesquisadas, para os questionamentos dos diagramas de decisão da MCC. Os quesitos ponderados alimentam um processo de inferência Fuzzy que irá indicar qual o melhor caminho a seguir no diagrama de decisão. Para estruturar o processo decisório, o DALF-Diagramas utiliza os diagramas de decisão propostos pela IEC 60300-3-11, adotados pelo procedimento de referência detalhado no Capítulo 5.
O DALF-Diagramas incorpora soluções para tratamento de incertezas das Etapas 4 e 5 do procedimento de referência. No caso específico de Etapa 4 as seguintes funcionalidades estão disponíveis: Identificação/Definição da Significância ou Não da Função; e Classificação dos Modos de Falha das Funções Significantes. Além destas funcionalidades, este trabalho propõe a inclusão, nos diagramas de decisão da Etapa 4, de mecanismos para análise do risco, uma crítica recorrente à MCC, explicitada no próximo item.
7.3.1 Análise de Risco nos Diagramas de Decisão da Etapa 4 da MCC
O tratamento de riscos de segurança relacionados às atividades de manutenção não são adequadamente tratados pela MCC segundo Hauge e Johnston (2001), os autores afirmam que há um “vazio” entre a MCC e a análise de risco.
Segundo Moubray (2001), as conseqüências para a segurança e o meio ambiente são consideradas em uma questão específica do diagrama de decisão da MCC. No caso do procedimento de referência adotado por este trabalho, a questão referida por Moubray (2001) está
1 Para o desenvolvimento do DALF-Diagramas foram selecionadas somente ferramentas de software livre, conforme segue: Python 2.5.1 – Linguagem de programação (http://www.python.org/); TK 8.4 – Módulo (built-in) Python de Interface Gráfica (http://www.tcl.tk/); LXML 1.3.4 – Módulo Python para manipulação de arquivos XML (http://codespeak.net/lxml/); Numpy 1.0.3.1 – Módulo Python para processamento matemático (http://numpy.scipy.org/); Matplotlib 0.90.1 – Módulo Python para plotagem de gráficos (http://matplotlib.sourceforge.net/); PIL 1.1.6 – Módulo para processamento de imagens (http://www.pythonware.com/products/pil/); Py2exe 0.6.6 – Módulo para "construção" de aplicativos Windows (http://www.py2exe.org/); Txt2tags 2.4 – Script Python para geração de documentos HTML (http://txt2tags.sourceforge.net/); FuzzyCLIPS 6.10d – Máquina de inferência Fuzzy (http://www.iit.nrc.ca/IR_public/fuzzy/fuzzyClips/fuzzyCLIPSIndex.html). A codificação e estruturação dos arquivos HTML segue o padrão W3C chamado XML - EXtensible Markup Language (http://www.w3schools.com/xml/default.asp).
contemplada no diagrama para identificação de função significante, onde um dos questionamentos feitos para a equipe de implementação é: A perda da função tem efeito adverso de segurança ou ambiental? Neste caso, a conseqüência para a segurança significa a possibilidade de ferir ou matar alguém enquanto a conseqüência ambiental indica quebra de um regulamento ou padrão.
Hauge e Johnston (2001) concordam com a observação de Moubray (2001), entretanto, afirmam que uma técnica de análise de risco pode resultar em maior consistência durante a aplicação dos diagramas de decisão da MCC, evitando o tratamento simplista de “Sim” ou “Não” comumente utilizado para evidenciar ou não o risco.
As evidências apontadas por Hauge e Johnston (2001) foram ratificadas ao longo do processo de aquisição do conhecimento do DALF-MCC. Sendo assim, este trabalho propõe no DALF-Diagramas, a inclusão de uma sistemática mais elaborada que, utilizando a lógica Fuzzy, possa suscitar nos especialistas uma análise de risco mais aprofundada quando na determinação da significância ou não da função. A metodologia incorporada no DALF-Diagramas está baseada na proposta de Raposo (2004). Entretanto, o DALF-Diagramas acrescenta mecanismos para implementação da metodologia e o tratamento por lógica Fuzzy das incertezas do processo decisório, com objetivo de auxiliar a tomada de decisão. A metodologia que embasa os questionamentos do DALF-Diagramas tem o objetivo de sensibilizar os envolvidos com o processo de implementação da Etapa 4 para a reflexão e ponderação sobre os aspectos relacionados ao risco, os quais impactam a identificação e caracterização das funções significantes. As reflexões e ponderações suscitadas pelo DALF-Diagramas são:
Tipo e Extensão das Conseqüências
Quanto ao tipo de conseqüência, da falha funcional ou do modo de falha, esta pode ser caracterizada por afetar a saúde, a vida ou a segurança do operador e/ou da coletividade ou ainda uma lei ou padrão ambiental. Quanto à extensão das conseqüências, da falha funcional ou do modo de falha, esta pode transcender ou estar restrita aos limites do sistema/empresa.
Graduação da Severidade das Conseqüências
O objetivo deste tópico nos questionamentos do DALF-Diagramas é garantir que a equipe de implementação da Etapa 4 reflita sobre a severidade das conseqüências, levando em conta a graduação proposta na Tabela 7.3.
Tabela 7.3 – Graduação da Severidade das Conseqüências. Fonte: adaptado de Raposo, 2004.
Severidade Quanto a Segurança das Pessoas Quanto a Saúde das Pessoas Quanto ao Impacto no Meio Ambiente
Nenhuma Não há impacto na segurança. Não há impacto na saúde das pessoas. Não há impacto sobre o meio ambiente. Baixa Danos insignificantes em equipamentos. Necessita de pronto atendimento e primeiros socorros. Danos insignificantes ao meio ambiente.
Moderada
Danos leves e controláveis em equipamentos (baixo custo de reparo).
Princípio de incêndio (debelado pelo operador).
Lesões leves em funcionários, terceiros ou moradores vizinhos.
Acidentes sem afastamento. Doenças ocupacionais não graves.
Danos leves e controláveis ao meio ambiente.
Crítica
Danos severos em equipamentos. Parada de unidade ou sistema. Incêndio restrito (debelado pela
brigada interna).
Lesões ou doenças ocupacionais severas em funcionários, terceiros
ou moradores vizinhos. Acidentes com afastamento. Probabilidade de morte remota.
Danos severos ao meio ambiente.
Requer comunicação ao órgão ambiental.
Muito Crítica
Danos irreparáveis em equipamentos. Parada desordenada de unidade ou
sistema.
Incêndio de grandes proporções (requer acionar plano de ajuda externa).
Morte, lesões ou doenças ocupacionais de várias pessoas na planta ou na comunidade vizinha.
Danos irreparáveis ao meio ambiente.
Grau de Risco
Consiste na avaliação do Grau de Risco inerente a falha funcional ou ao modo de falha, com auxílio da matriz de risco, a qual relaciona a severidade das conseqüências com a freqüência de ocorrência da falha funcional ou do modo de falha. Este trabalho utiliza a Tabela 7.4, como referencial para ponderação da freqüência de ocorrência.
Tabela 7.4 – Freqüência de Ocorrência da Falha Funcional ou do Modo de Falha. Fonte: adaptado de Raposo, 2004.
Categoria / Denominação Faixa de Freqüência
Anual Descrição
Extremamente Remota f < 10-4 Conceitualmente possível, mas extremamente remota de
ocorrer durante a vida útil da instalação.
Remota 10-3 < f < 10-4 Não é esperado que ocorra durante toda a vida útil.
Possível 10-2 < f < 10-3 É pouco provável que ocorra durante toda a vida útil.
Provável 10-1 < f < 10-2 É esperado que ocorra 1 vez durante a vida útil.
Muito Provável f > 10-1 É esperado que ocorra várias vezes durante a vida útil.
O DALF-Diagramas utiliza a matriz de risco mostrada na Figura 7.2 para relacionar a severidade das conseqüências, com a freqüência de ocorrência da falha funcional ou do modo de falha.
Muito Provável 3 2 1 1
Provável 4 3 2 1
Possível 5 4 3 2
Remota 5 5 4 3
Extremamente Remota 5 5 5 4
Baixa Moderada Crítica Muito Crítica
Figura 7.2 – Matriz para Avaliação do Grau de Risco. Fonte: adaptado de Raposo, 2004.
Outros modelos de matriz de risco podem ser encontrados em: Lima (1999), Barreiro (1999), DNV (2003), Hauge e Johnston (2001) e Melo et al (2002). Tais modelos variam em número de linhas, colunas e denominações dadas ao Grau de Risco, entretanto, todas resultam em uma graduação de risco que permite adotar as medidas mitigadoras necessárias para sua eliminação ou redução.
A Tabela 7.5 mostra as categorias e as considerações para a equipe de implementação da Etapa 4 da MCC, relativas à matriz de risco. O processo de inferência do DALF-Diagramas considera que, se o Grau de Risco for 1, 2 ou 3, a falha funcional ou o modo de falha analisado tem implicações no meio ambiente, saúde ou segurança e deve ser submetido à análise da MCC.
Durante a implementação da Etapa 5, para qualquer Grau de Risco elicitado na Etapa 4, a equipe de implementação deve se assegurar de que as estratégias ou tarefas de manutenção atendam às ações sugeridas na Tabela 7.5.
Tabela 7.5 – Categorias de Risco da Falha Funcional ou do Modo de Falha. Fonte: adaptado de Raposo, 2004.
Grau de Risco Categoria Aceitabilidade Ações 1 Crítico Não Aceitável
2 Sério Indesejável
Verificar se existe alguma estratégia ou tarefa de manutenção para evitar a falha ou reduzir o risco para grau 3. Caso não haja, o risco deve ser mitigado com reprojetos ou controles administrativos para um grau menor ou igual a 3, no menor tempo possível.
3 Moderado Aceitável com Controles Verificar se existe alguma estratégia ou tarefa de manutenção para evitar a falha. Caso não haja, deve ser verificado que procedimentos ou controles podem ser implementados.
4 Menor Aceitável com Avisos Sinalização e avisos são medidas necessárias. Verificar se alguma estratégia ou tarefa de manutenção para evitar a falha é economicamente viável.
5 Desprezível Aceitável Nenhuma mitigação requerida.
A interface e a estrutura do DALF-Diagramas para a Etapa 4 são mostrados em detalhes no Apêndice G.