Nossas vivências e experiências com o mundo são permeadas por diferentes relações que nos constituem e nos transformam continuamente. A educação é um processo pelo qual relações sociais são construídas e que engendra aprendizagem, crescimento e transformação a partir das vivências dos sujeitos.
No livro “Vida e educação”, de John Dewey (1978), o autor nos lembra que não deve haver nenhuma separação entre vida e educação. Isso porque as pessoas não estão, num dado momento, sendo preparadas para a vida e, em outro, vivendo. Para o autor, vida e educação são o mesmo, sendo a educação uma “contínua reconstrução da experiência”. Anísio Teixeira, estudioso da pedagogia de Dewey, explica na primeira parte deste livro alguns conceitos importantes sobre experiência e educação.
Cabe aqui esclarecer o conceito de experiência adotado por Dewey e explicado por Anísio Teixeira: o universo é composto por um conjunto infinito de elementos que se relacionam de maneiras diversas. Essas relações mútuas fazem com que os corpos ajam uns sobre os outros e modifiquem-se reciprocamente. Essa ação, acompanhada de uma reação entre os corpos é o que chamamos de “experiência”. Conforme Teixeira (1978, p. 16) argumenta, a vida é um tecido de experiências, visto que constantemente vivemos, sofremos, fazemos experiências e aprendemos (DEWEY, 1978, p. 16).
No caso da experiência educativa, a aquisição e a percepção de novos conhecimentos nos permite aumentar a nossa experiência, reconstruindo-a e reorganizando-a:
Eu me educo através de minhas experiências vividas inteligentemente. Existe, sem dúvida, certo decurso de tempo em cada experiência, mas assim as primeiras fases como as últimas do processo educativo, têm todas igual importância e todas colaboram para que eu me instrua e me eduque – instrução e educação que não são resultados externos da experiência, mas a própria experiência reconstruída e reorganizada mentalmente no curso de sua elaboração. (TEIXEIRA, 1978, p. 18).
Segundo Teixeira (1978), para Dewey, a vida social é um complexo de crenças, costumes, instituições, ideias e linguagem adquiridas e transmitidas de geração em geração. A sociedade, por sua vez, assegura a sua continuidade por transmissão, mediante comunicação, que também é educação. Na comunicação, tanto os agentes que recebem a mensagem quanto os que a comunicam são transformados: “quem recebe a comunicação tem uma nova experiência que lhe transforma a própria natureza. Quem a comunica, por sua vez, se muda e
se transforma no esforço para formular a sua própria experiência” (TEIXEIRA, 1978, p. 18). Dessa forma, toda relação social pode ser considerada educativa para os que dela compartilham. É justamente a permanente circulação de reações e experiências e de conhecimentos que constitui a vida em comum das pessoas, e que lhes permite a contínua renovação de suas existências.
Para Ruth Sabat (2001), durante muito tempo, grande parte dos estudos realizados no campo educacional esteve voltada para a instituição escolar como espaço privilegiado de operacionalização da pedagogia. Todavia, essa autora ressalta a importância em se voltar a atenção para outros espaços que também funcionam como produtores de conhecimentos e saberes, como a mídia impressa. Isso porque muito mais do que informar, as mídias produzem “valores e saberes, regulam condutas e modos de ser, fabricam identidades e representações, constituem certas relações de poder" (SABAT, 2000, p. 9). Corroborando com a visão de Sabat, Rosa Fischer (1997, p. 12) esclarece que a mídia é vista não somente “como veiculadora, mas também como produtora de saberes e formas especializadas de comunicar e de produzir sujeitos, assumindo uma função nitidamente pedagógica”.
Neste trabalho, assumimos a revista Casa & Jardim como mídia de pedagogias de gênero. Ao ensinar, aconselhar ou sugerir determinadas condutas das donas de casa, elencadas por Casa & Jardim como “ideais”, o periódico influenciava a maneira como essas mulheres se autopercebiam e se relacionavam com os membros de suas famílias, bem como com a sociedade. Conforme Luca (2012) argumenta, as revistas cumprem funções pedagógicas ao ensinarem, aconselharem, proporem e indicarem determinadas condutas. Nas palavras dessa autora, os periódicos “podem influir no processo de constituição do indivíduo, na maneira como se autopercebe e se relaciona com o mundo a sua volta” (LUCA, 2012, p. 448). Assim, a revista, “amiga que acompanha a mulher” em várias etapas de sua vida, oferece padrões de comportamento, maneiras de viver a feminilidade e a masculinidade, percebidas como “normais” pela sociedade (LUCA, 2012, p. 463). Logo, a revista Casa & Jardim, na medida em que informava, também operava como produtora de conhecimentos e saberes, visto que as donas de casa eram “instruídas” sobre os modos “ideais” de ser e estar na sociedade em que viviam.
As revistas direcionadas para públicos específicos, como as revistas femininas, apresentavam características particulares como o uso da linguagem em tom coloquial. Segundo Tania de Luca (2012, p. 448), esse gênero de impresso exibia a linguagem “de alguém próximo e que aconselha, ampara, aplaca angústias, resolve dúvidas, sugere, fazendo
as vezes de uma amiga e companheira à qual sempre se pode recorrer”. Além disso, a autora ressalta que, a partir dos anos 1940, a maioria das revistas substituiu o tom cerimonioso das reportagens pelo intimista “você”, como se o periódico fosse destinado somente àquela leitora que o tinha nas mãos. Dessa forma, essa proximidade carregada de afetividade podia operar como um “importante elo no processo de transmissão da informação, mas também de convencimento e mesmo imposição, apoiados em anúncios prescritivos e normativos, que ordenam o que fazer e como fazer” (LUCA, 2012, p. 448).
Em várias publicações, podemos perceber o caráter didático-pedagógico da revista, que abordava e ensinava questões referentes às tarefas cotidianas das donas de casa: “Também do estômago depende o amor do marido”37 mostrava a importância de se “cativar” o marido pelas “qualidades culinárias”; “A esposa perdulária”38 informava a responsabilidade da dona de casa em fazer a “economia no lar”; “Reminiscências de mãe”39 aconselhava sobre a importância de ensinar as filhas “a gostar de trabalhos domésticos”; “Cinqüenta e um implementos à dona-de-casa”40 propunha cinquenta e um itens fundamentais na cozinha e que permitiam “à dona de casa acompanhar receituários modernos”.
A aquisição da revista Casa & Jardim e a assimilação de seus conteúdos pelas práticas de leitura das donas de casa implicavam no que Roger Chartier (1999) denominou de “apropriação, invenção e produção de significados”. De acordo com Chartier (1999, p. 152), o texto desencadeia “significações que cada leitor constrói a partir de seus próprios códigos de leitura, quando ele recebe ou se apropria desse texto de forma determinada”. Para esse autor, isso acontece porque todo/a o/a leitor/a, diante de uma obra, a recebe em um momento, uma circunstância e de uma forma específica. Sendo assim, o investimento afetivo ou intelectual depositado na obra está diretamente ligado a este objeto e à circunstância na qual ele foi lido.
Dessa forma, o/a receptor/a recebe, mas não de forma passiva a informação: ele/a também participa do processo de comunicação. Jesus Martín Barbero (2001), explica que a “recepção não é o ponto de chegada dos meios aos receptores, mas o lugar a partir do qual o processo de comunicação pode ser entendido”. Partindo dessa premissa, no processo ativo de interpretação, o/a leitor/a é tão importante quanto o/a escritor/a na produção do sentido.
37 TAMBÉM do estômago depende o amor do marido. Casa e Jardim. São Paulo: Monumento S. A., n. 7, p. 56- 58, mar/abr. 1954.
38 A ESPOSA perdulária. Casa e Jardim. São Paulo: Monumento S. A., n. 54, p. 69, jul. 1959. 39 REMINISCÊNCIAS de mãe. Casa e Jardim. São Paulo: Monumento S. A., n. 68, p. 6, set. 1960.
40 DAMM, Flávio. Cinqüenta e um implementos à dona-de-casa. Casa e Jardim. São Paulo: Editora Monumento S. A., n. 69, p. 55-58, out. 1960.
Chartier (1999, p. 77) explica que “o texto não tem de modo algum – ou ao menos totalmente – o sentido que lhe atribui seu autor, seu editor ou seus comentadores”. Toda prática de leitura supõe uma liberdade do/a leitor/a que desloca e subverte aquilo que o livro lhe anseia impor. Mesmo assim, essa “liberdade leitora” nunca é absoluta, pois é cercada de limitações decorridas das “capacidades, convenções e hábitos” que, em suas diferenças, caracterizam as práticas de leitura.
Carlos Alberto Faraco e Lígia Negri (1998) esclarecem que não existe um significado único e último no texto, fixado pelo/a autor/a. Não há uma única interpretação, correta e final de qualquer texto. “Ler não é, portanto, um gesto passivo de mera decifração desse (inexistente) significado último, mas um processo ativo e complexo de geração de significados" (FARACO; NEGRI, 1998, p. 164). Portanto, os textos são também criados pelos/as leitores/as nas práticas de leitura. Essas práticas não obedecem “a uma lógica dedutiva, mas a uma lógica do símbolo que é sempre associativa”: na medida em que as práticas de leitura acontecem, “outras ideias, outras imagens, outros textos, outras significações” são associadas ao texto (FARACO; NEGRI, 1998, p. 164). Nessa perspectiva, Faraco e Negri (1998), comentam que nossas conceitualizações do mundo são sempre perpassadas de valores. “Os signos verbais refletem e refratam o mundo”, visto que os elementos verbais estão “sempre totalmente ensopados de valores” (FARACO e NEGRI, 1998, p. 166).
Nas leituras da revista Casa & Jardim, podemos inferir que as donas de casa não eram meras receptoras passivas, mas, isto sim, que ativamente elas se envolviam e eram envolvidas pelas mensagens e aprendizagens veiculadas no periódico reagindo, respondendo, recusando ou as assumindo parcial ou inteiramente.
Uma questão bastante divulgada nas revistas direcionadas para públicos femininos dizia respeito aos afazeres domésticos como atividades predominantemente femininas, ressaltando o valor das donas de casa neste ambiente. A seguir, destacaremos as formas como o periódico abordava a questão da oposição entre esfera pública e o espaço doméstico, ao enfatizar a clivagem entre os mundos masculino e feminino e a construção da casa como refúgio particular.