Em sua obra, Huizinga (2000) expõem as características e a independência do conceito jogo em relação a outros conceitos. O autor afirma que por mais que busque-se ligar a outras finalidades que não o próprio jogo, essas abordagens geram respostas parciais a atividade lúdica. A realidade do jogo encontra-se além da vida humana, e tentar encontrar a origem do jogo no pensar do homem é impossível. Por exemplo, afirmar que o jogo esta ligada a cultura é uma visão parcial da origem do jogo.
Huizinga mostra que o jogar é uma atividade mais antiga que a própria cultura, pois cultura pressupõe a formação de sociedade e é possível identificar atividades lúdicas entre os animais selvagens. Se o jogo existe antes da cultura ele é elemento que acompanha-a, deixando traços no desenvolvimento desta que a marcam até os dias de hoje. Sendo assim, para o historiador, deve-se explorar o jogo como “forma significante, como função social”.
Para isso, Huizinga (2000) da exemplos de como o jogo influenciou no surgimento dos conhecimentos mais antigos que a humanidade usou como instrumento para a formação da sociedade. No caso, a linguagem é apresentada como um jogo de designar. Ao definir o que lhe circunda, o homem eleva coisas ao “domínio espiritual”, ou seja, retira do real e designa ao mundo racional (Huizinga,
2000). O homem então joga com metáforas para criar significado a termos abstratos, criando um mundo novo, diferente do real, mundo esse que existe nas ideias e é criado através do jogo de palavras. Com isso pode-se observar a importância do jogo não apenas como entretenimento, mas como instrumento que influencia no criar.
Porém ao tentar determinar o jogo, o autor prefere defini-lo através de suas características e sugere que ao pesquisar o conceito de jogo nos será limitado ao seguinte: ”o jogo é uma função da vida, mas não é passível de definição exata em termos lógicos, biológicos ou estéticos. O conceito de jogo deve permanecer distinto de todas as outras formas de pensamento através das quais exprimimos a estrutura da vida espiritual e social.” (Huizinga, 2000, p.9)
Sendo assim, a primeira característica que Huizinga (2000) aponta sobre os jogos é que estes são uma atividade voluntária. O jogador participa do jogo por sua vontade e pode interromper este a qualquer momento, caso contrario não é jogo e sim uma “imitação forçada”. Jogar é uma escolha e nunca uma imposição moral ou social, a não ser quando este jogo tem uma função cultural, como o caso de rituais dentro de uma sociedade. Ou seja, uma das características que define o jogo é a liberdade pelo jogar. Essa liberdade é normalmente causada pelo prazer que os jogos proporcionam.
Jogar é uma atividade prazerosa, caso contrário torna-se dever. Jesse Schell um game designer famoso por seu livro "The art of Game Design: A Book of Lenses (2008)" define o jogo como ”a problem-solving activity, approached with a playful
attitude2” (J.SCHELL 2008, pag. 37). Para Schell o jogador deve ser recompensado
pelo jogo, seja através da resolução de uma curiosidade, de um mérito de vitória sobre o jogo ou um adversário.
Huizinga (2000) diz que Jogar não é vida “corrente” é evasão da realidade para uma atividade orientada pelo próprio jogador. Isso atribui uma característica de inferioridade ao jogo em relação a seriedade, pois sabe-se separar o real do “faz de conta” . Entretanto o jogo pode ser sério e a seriedade do jogo pode ultrapassar a da realidade, fazendo com que naquele espaço de tempo o jogo absorva completamente o jogador. Mesmo assim o jogo ocorre em intervalo a realidade, sendo esta outra de suas características. Jogar não produz elementos de
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subsistência. Entretanto ele satisfaz os ideais comunitários e adorna a vida para o indivíduo, ficando em um patamar diferente das necessidades básicas biológicas (Huizinga, 2000).
Outra característica do jogo apontada por Huizinga (2000) é o isolamento. O jogo é uma atividade temporária, limitada a um duração de um determinado tempo e a um espaço específico no qual o jogo acontece. Percebe-se isso observando um tabuleiro, ou mesmo um culto sagrado, no qual joga-se com a realidade durante um determinado período dentro de um ambiente específico. Esse tempo e lugar são definidos pelas regas, mais uma característica dos jogos. Jogo não só estabelece uma ordem como ele mesmo a cria. Diferenciando-se das incertezas da vida, o jogo estabelece meios de controle para ser jogado (Huizinga, 2000). Aqueles que agem contra elas ou as ignoram são considerados “desmancha-prazeres” e estragam o jogo. Ao momento que as regas são quebradas a ilusão do universo criado pelo jogo é destruída matando o jogo e trazendo os jogadores novamente ao mundo real (Huizinga, 2000). Outra possibilidade que as regras criam são os jogadores desonestos. São jogadores que aproveitam-se do mundo criado pelo jogo e fingem participar deste mesmo jogando por fora das regras. Isso acontece por outra característica do jogo, a tensão. (Huizinga, 2000)
A tensão é elemento de resolução do jogar. O jogador quer ganhar e a tensão é o resultado da proximidade da vitória. Essa tensão testa a ética do jogador em relação a ele e aos outros, afinal ele deve manter as regras do jogo para ganhar “honestamente” (Huizinga, 2000). Para ganhar em um jogo é necessário um parceiro ou adversário; jogos solitários não podem conceder isso. Ganhar é importante pois é instintiva a busca em ser melhor que os outros; secundariamente vem o fato dessa vitória agregar valor em questão de grupo. Joga-se pela vitória, e essa vitória é acompanhada de trunfos, sejam esses riquezas ou honras. Por fim, as regras possibilitam a repetição, não só do jogo em si, mas das características que constituem cada jogo (Huizinga, 2000). Entretanto, é possível recriar um jogo, mas não uma partida. O jogo e sua essência podem ser recriados em um novo momento, porém a liberdade do jogador, experiência e diversidade dos elementos que constituem a partida de um jogo são, na maioria das vezes, impossíveis de serem recriadas, tornando elas únicas, mas os jogos que as constituem não (Huizinga, 2000). Com estas características, Huizinga resume o jogo da seguinte maneira:
O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço, segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da vida quotidiana. (Huizinga, 2000, p.24)
Huizinga (2000) aprofunda ainda mais os estudos sobre o conceito de jogo e a relação deste com diversos outros aspectos de nossa sociedade, como o direito, a guerra e a poesia. Entretanto, para este trabalho deve-se dar continuidade com as características básicas que compõe os jogos e afunilar ainda mais nosso conhecimento, afinal o intuito deste capítulo é chegar ao jogo eletrônico.