Foi neste curso de formação de 2014, que se estendeu a sua plena consumação até o início de 2016, que consegui, junto ao coletivo plural de seus educadores e educadoras participantes, organizar um livro-musical constituído por diferentes saberes e produto culturais expostos em cinco partes, a saber: cinco canções populares infantis inéditas, cinco novas brincadeiras para cada uma dessas canções, ilustrações das crianças da educação infantil de um Centro de Educação Infantil, CEI, da rede pública de Campinas, relatos de aprendizagens de professoras da educação infantil de outro curso de Educação Musical que coordenei no ano de 2015, e por fim, uma interface com a Universidade Estadual de Campinas a partir de uma ponte conceitual com algumas leituras que eu tecia sobre “Memorial de Formação” e “Pesquisas Narrativas” (PRADO e SOLIGO, 2005) e (PRADO, SOLIGO e SIMAS, 2014), do grupo GEPEC. E toda essa materialidade viva, de uma prática educativo-musical registrada em um livro-musical intitulado: “A Formação em
Educação Musical: uma aventura para o mais além da música”.
É fato que o processo de pré-publicação desse livro foi bem tenso. Mesmo tendo o incentivo e apoio da coordenadora geral Gisele Marchi, outros
Neste capítulo revelo ao leitor e à leitora os elementos pedagógicos que me instigaram, enquanto pesquisador, a iniciar uma pesquisa de forma conceitual, relacionando as angústias de da experiência da prática com os seus desdobramentos epistemológicos encontrados no processo da pesquisa. Ou seja, os sentimentos e as razões que incitam e possibilitam o pesquisador a pesquisar...
profissionais da Coordenadoria Setorial de Formação da Secretaria Municipal de Campinas se contradiziam quanto à publicação ou não desse livro, que seria distribuído às escolas da rede pública da cidade, como produto da Formação Continuada realizado por seus próprios professores, professoras, educadores e educadoras. São razões políticas e de diferenças epistemológicas que talvez não me sejam viáveis perscrutar aqui nessa pesquisa.
Entretanto dezenas e dezenas de assinaturas de cessão de direitos autorais foram recolhidas entre os participantes autores e coautores do livro. Tempo para organizar todo seu conteúdo (músicas, relatos, desenhos de crianças, fotos, etc.), investimento com arte de capa, investimento da própria Prefeitura Municipal de Campinas com a contratação de um estúdio profissional às gravações das canções autorais compostas no curso. Depois ainda da reprodução de 1.000 cópias do CD de áudio das canções que foram compostas no curso e gravadas neste estúdio com todos os profissionais da educação e crianças envolvidos. Enfim, depois de todo um movimento de produção e processo de publicação que os educadores, educadoras, professoras, professor da universidade, familiares de crianças e crianças se imbricaram nessa aventura de formação musical, o livro não foi publicado. Alegaram, por parte da prefeitura, falta de verba para realizar a publicação das 1.000 cópias dos exemplares escritos, nas quais iriam os CD’s já prontos. Nem mesmo 500 exemplares que fossem! Por fim, o livro físico está parado na fila das publicações da Secretaria Municipal de Campinas, desde 2016.
Acredito ser importante trazer para você leitor e leitora essa passagem, pois muito da materialidade dessa pesquisa está posta sobre o processo de realização desse curso de formação em Educação Musical, especialmente de 2014, o qual nos rendeu como resultado esse livro-registro, estético, criativo e teórico- musical.
Mas o que eu não imaginava é que esse trabalho de formação, mesmo sem sua publicação, ficaria cravado em minha alma, em meus guardados de professor/formador com o potencial de compor um Inventário de Pesquisa a se revelar de novo para mim como momentos de um ato vivido, em seus aspectos teóricos, partes constitutivas de um todo, formas e conteúdos específicos e generalizantes da minha prática como formador, dentro de um processo de investigação acadêmica.
Portanto, vejo através desse ato-livro, essa prática vivida, esse contexto circunscrito criador derivante de um contexto expandido, o mar aberto para lançar as velas dos meus objetivos de pesquisa: investigar e reconhecer, a partir da releitura do ato vivido, quais são essas aprendizagens artístico-pedagógicas-musicais que me constituem como um professor musical na educação infantil e Formação Continuada, bem como perceber como estas aprendizagens se constituem como conhecimentos na pessoa deste professor musical, o qual tem na educação infantil um espaço de atuação artístico-musical.
Não há como deixar de investigar essas aprendizagens e escrever sobre essa experiência que me atravessam e deixam raízes em mim para o meu crescimento. Não há como virar a página dessa ação responsável, vivida com a paixão de um ser professor-musical da/na educação infantil que se deixou tomar por sua prática pedagógica (LARROSA, 2002), entrecruzada pela Educação Musical, a tal ponto de não poder mais caminhar sem objetivá-lo, dar-lhe um acabamento provisório e necessário para que continue existindo como um profissional autêntico em seu meio de trabalho. Como pesquisador de sua própria prática, precisa fazer o caminho de volta, na carona de seu “autor-escritor”, a fim de se reencontrar, estendido de sua visão (BAKHTIN, 1997), porque no calor de sua ação responsável não pode parar e ver-se no espelho do outro, a fim de conhecer um pouco mais sobre seu caminho trilhado, sua identidade identificável, em um coletivo específico de educadores e educadoras que conviveram consigo a aventura da formação musical, autoral, criativa, compartilhada. Talvez agora, voltando a esse processo com a ótica de outro tempo, possa compreender melhor as características desse processo de objetivação de si mesmo dentro de um todo: o Ser-evento (BAKHTIN, 1993).