Chapitre V : Second lot de dispositifs
V.3. Structure en PZT
V.3.2. Dispositifs
No relatório de 2015, elaborado pelo Global Media Monitoring Project, é assumida a tendência mundial de haver cada vez mais mulheres jornalistas.
O cenário em Portugal transformou-se de forma diferente e mais lenta. Ao longo dos anos, até à revolução, em 1974, o crescimento dos profissionais a trabalhar nesta área foi escasso, como seria de esperar numa altura em que a liberdade de imprensa era reduzida (Garcia, 2009).
Ainda que algumas mudanças ocorridas nos anos 60, particularmente marcados pela candidatura do general Humberto Delgado, em 1959, deram um impulso aos media para um funcionamento de âmbito mais comercial que permitiu que que os meios de comunicação não estivessem tão subjugados ao Estado. É o 25 de Abril que marca uma nova etapa para a profissão. A vida democrática bem como um modelo económico cujo crescimento beneficiava novas empresas de media propiciou o crescimento da profissão e a profissionalização dos jornalistas, que até então era praticamente inexistente. Após um período de turbulência, em que os jornais e restantes meios de comunicação se adaptavam ao novo panorama português, é a partir de meados da década de 1980 que se começa a traçar o jornalismo que vai vigorar em Portugal durante largos anos (Garcia, 2009).
«Cinco traços principais permitem esboçar a situação nessa altura: (a) o declínio do jornalismo estreitamente vinculado aos partidos políticos, substituído por um modelo informativo com afinidades com o praticado na Europa; (b) a implantação de uma lógica comercial de concorrência sem entraves, em que os eventuais subsídios estatais são acessórios, e os vários órgãos de imprensa escrita e audiovisual dependem da sua capacidade de se imporem no mercado, da publicidade angariada e da existência de fortes suportes financeiros; (c) o desenvolvimento de projectos empresariais e a sua progressiva concentração, de características multidimensionais, recobrindo por vezes a reunião de grupos com poder económico e político, a convergência de anunciantes, a acumulação de fontes organizadas e a agregação de camadas de leitores; (d) a participação de capitais internacionais; (e) a presença de novas formas de gestão comercial, edição electrónica/informática e interacção entre os universos comercial e técnico no sentido da permanente mudança de propostas informacionais.» (Garcia, 2009: 68)
Entre 1950 e 1970, poucas mulheres começaram a trabalhar como jornalistas. Segundo José Luís Garcia, ingressavam apenas duas mulheres por ano. De 1974 a 1987 esta tendência alterou-se, ingressaram na profissão 1206 homens e 324 mulheres, e em 1990 acentuou-se a
feminização do jornalismo com as mulheres a constituírem um quarto dos profissionais da área (Garcia, 2009).
Quase sem presença até 1974, as jornalistas representam agora cerca de 30% do total dos profissionais (Subtil, 1995). No estudo da Obercom, de 2017, estimava-se que estes números chegassem aos 48,2% de mulheres jornalistas (Crespo et al, 2017).
Os novos tipos de media e o aumento dos números de meios de comunicação levou a que o panorama mediático português se diversificasse e possibilitasse a entrada a mais jornalistas para as redacções, o que permitiu que a profissão se rejuvenescesse. Foi nos anos 80 que aconteceu uma grande entrada de jornalistas mulheres. Este maior ingresso na profissão aconteceu, numa primeira fase, em condições de precariedade através de estágios que, em alguns dos casos não eram remunerados. Há, nesta altura, uma diferença da escolaridade entre homens e mulheres no jornalismo. As mulheres chegam à profissão depois da faculdade, ou seja, com um grau de escolaridade maior (Subtil, 1995).
Tendo em conta a entrada posterior na profissão, as mulheres debateram-se também com a questão da antiguidade no jornalismo. O facto de os homens já terem mais anos de redacção podia ser visto como uma desvantagem para elas e dificultar a ingresso em pleno no jornalismo e também na ocupação dos lugares de chefia (Subtil, 1995).
Nos cursos de jornalismo, a presença feminina é ainda mais significativa, o que, segundo Subtil, pode ser um factor positivo para o crescimento da paridade nas redacções.
«Em 1960, as universitárias constituíram uma pequena minoria, representando apenas 29, 5% dos estudantes. A partir daquela data, têm crescido continuamente, sendo actualmente a maioria, atingindo quase os 60%» (Subtil, 1995: 2)
As análises feitas diziam que, além de todos os factores relacionados com a vida profissional da mulher já mencionados, havia ainda uma ligação muito forte e co-dependente entre a vida conjugal e a mulher, o que não permitia uma entrada e dedicação tão profundas no mundo laboral (Subtil, 1995).
Entre as décadas de 1960 e 1970 surgem as primeiras mulheres repórteres em Portugal. Na sua dissertação de mestrado, Isabel Ventura, menciona seis mulheres que se destacaram na
imprensa escrita: Alice Vieira, Edite Soeiro, Diana Andringa, Leonor Pinhão, Maria António Palla e Maria Teresa Horta. A autora descreveu estas mulheres como «casos paradigmáticos do jornalismo português» (Ventura, 2012: 30 apud Alvarez, 2013: 155) naquela época. Paradigmáticos porque, apesar do período político, que asfixiava o jornalismo, que o país atravessava e de uma sociedade profundamente sexista onde era incutida a ideia de que o papel da mulher era ser esposa, mãe e dona de casa e não seguir uma carreira, estas mulheres conseguiram destacar-se na sua actividade laboral (Ventura, 2012 apud Alvarez, 2013).
Para esta evolução no mundo do jornalismo foi, também, importante o aumento de mulheres jornalistas sindicalizadas, percentagem que em 1960 estava nos 2% e em 1980 atingiu os 10%. Foi também importante o aparecimento de novos grupos económicos que detinham alguns dos principais jornais e trouxeram uma nova lógica comercial que permitiu a entrada de jornalistas e estudantes universitários mais novos, onde havia cada vez mais mulheres, nas redacções (Ventura, 2012 apud Alvarez, 2013).
A forte escolarização das jornalistas portuguesas não se repercute, todavia, na ocupação de posições cimeiras no interior das redacções. A tendência para a crescente visibilidade das jornalistas, resultante da sua crescente presença no “mundo da comunicação” e nas redacções, dando-lhes uma imagem moderna, não tem correspondido à transformação das estruturas de hierarquia e organização do trabalho jornalístico. Existem, sim, mais mulheres nos cargos de estagiárias, nos chamados cargos de execução do que nos cargos de topo (Subtil, 1995)
Nas revistas de cariz feminino elas estão, substancialmente, mais representadas do que eles. A entrada das mulheres no mundo do jornalismo, deve ser analisada à luz da evolução dos níveis de escolarização nas mulheres que contribuiu para uma maior profissionalização feminina nas últimas décadas. As mulheres deixaram de estar presas ao espaço de trabalho doméstico e passaram a envolver-se no mundo profissional e corporativo que levou a um aumento para o dobro da taxa de profissionalização feminina, fenómeno ainda mais visível nas camadas etárias mais jovens (Subtil, 1995).
redacções, são menos as que sobem a um cargo de chefia. Isto significa que a evolução da participação das mulheres no jornalismo não é idêntica à sua evolução nos cargos de topo da profissão, cenário ao observado no resto do mundo, perspetiva que é corroborada por Isabel Ventura (2012, apud Alvarez, 2013) que determinou o acesso cargos de chefia uma causa próxima das mulheres jornalistas.
Em 2014, e segundo dados da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista (CCPJ), as mulheres representavam já 53,9% do total de profissionais desta área com menos de 40 anos Este processo aconteceu, em grande parte, devido ao aumento de raparigas nos cursos de comunicação social. Há, no entanto, um contraste entre um jornalismo com cada vez mais mulheres licenciadas, devido a um aumento de mulheres nos cursos de comunicação social e aquelas que ascendem a cargos de topo na profissão (Miranda, 2017).