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Disentangling inequality in the aftermath of financial crisesaftermath of financial crises

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INSTABILITY: STRUCTURAL LIMITS TO

C. Probing deeper into the inequality-instability nexus

2. Disentangling inequality in the aftermath of financial crisesaftermath of financial crises

“Lutar, lutar, lutar e resistir pela Chapada do Apodi” (Palavras de ordem em defesa da Chapada do Apodi).

Resistir. Com o sentimento que esse verbo evoca, chegamos às considerações, por ora, finais desta pesquisa. Para nós pesquisar sobre letramentos de resistência é também uma forma de resistir, pois ao estudarmos nossa própria história – sim, essa também é minha história – estamos construindo resistência.

Os povos do campo resistem, há muito, pelo direito à terra, pelas suas sementes crioulas, pelo direito de produzir, pelos seus territórios, pela agricultura familiar, pelo seu bem viver, pela agroecologia, pelos direitos de trocas e da economia solidária e feminista.

Falar de resistência é também falar das mulheres, que além dessas disputas, têm que lutar contra o machismo e o patriarcado, muitas vezes dentro dos próprios espaços de militância política.

Da primeira questão desta pesquisa, Como são construídos eventos de letramento de resistência na luta por terra e território na Chapada do Apodi?, compreendemos que os eventos de letramento de resistência foram construídos a partir de uma perspectiva da coletividade, da valorização dos saberes de cada militante e com base na Educação Popular. A construção dos eventos favoreceu as trocas de saberes, a escrita colaborativa, o trabalho em mutirão, a solidariedade.

Na luta pela Chapada do Apodi as mulheres protagonizaram grandes eventos de letramento de resistência de âmbito local a internacional. Foram as mulheres que fecharam portões para impedir que carros com funcionários do DNOCS entrassem em suas propriedades. Foram elas que lideraram várias mobilizações de bloqueio das vias de acesso ao canteiro obras do Projeto Irrigado Santa Cruz do Apodi. Foram duas mil trabalhadoras rurais que, em uma ação em mutirão, escreveram duas mil cartas endereçadas à então Presidenta da República Dilma Rousseff. Foram as mulheres que, em 2011, construíram a ideia da carta para ser enviada à Presidência da República. Foram as mulheres que em nove estados brasileiros e em diversos países, mobilizaram 24 horas de solidariedade ao povo da Chapada do Apodi e disseram ao governo brasileiro e ao mundo “Somos Todas Apodi”.

Para a Comissão de Mulheres do STTR de Apodi, a ação coletiva é uma constante na sua auto-organização. A dinâmica da luta e a experiência do grupo, a partir da Educação Popular de perspectiva feminista, contribui com um movimento de compartilhamento de

aprendizagens, saberes, práticas de escrita baseadas na colaboração e solidariedade. Essas práticas, desenvolvidas pelo grupo, fortalecem as ações de enfrentamento direto como formas de denunciar e de lutar contra o avanço do capitalismo neoliberal no campo, representado no território pelo Projeto Irrigado Santa Cruz do Apodi.

Da segunda questão, Que estratégias e táticas de linguagem são construídas pelas trabalhadoras rurais de Apodi para fortalecer suas práticas de agricultura familiar e, ao mesmo tempo, contrapor-se ao discurso das grandes empresas do agro e hidronegócio?

podemos afirmar que as estratégias adotadas pelas trabalhadoras rurais reconhecem o poderoso papel da escrita em uma sociedade grafocêntrica.

Percebemos o quão as militantes da MMM e da Comissão de Mulheres do STTR de Apodi lidam habilmente com o caráter dialógico da língua(gem). A cada ação de linguagem do Governo Federal, elas constroem estrategicamente e taticamente eventos de letramento e gêneros discursivos capazes de responder tais ações. No momento que Governo Federal publicou o decreto de desapropriações de terras em Apodi, as mulheres estrategicamente se mobilizaram a partir também de um gênero escrito, as cartas, para reivindicar da Presidenta Dilma Rousseff a revogação desse decreto.

Cientes da força de um decreto presidencial e do poder da escrita, as militantes escrevem não apenas uma carta coletiva, mas constroem a estratégia de transformar a carta produzida coletivamente em um mutirão de duas mil cartas que saem de cada comunidade e assentamento para ocupar o expediente de correspondência do Palácio do Planalto por pelo menos quatro meses.

Outra demonstração da hábil resposta às ações do Governo Federal foi a substituição da placa de obras do DNOCS/Ministério da Integração Nacional pela emblemática placa com a assinatura “NÃO ao #ProjetoDaMorte do DNOCS na Chapada do Apodi”. A estratégia das militantes de fazer uma ação direta na área do canteiro de obras construiu a simbologia de reapropriação das terras, de retomada do território. Terem mobilizado cerca de três mil militantes de diversos movimentos e cidades brasileiras para que se juntassem a elas no momento da instalação da placa em defesa do território, demonstra que as mulheres reconhecem o papel central da escrita. Concluímos também que elas compreendem que a escrita apenas não é o suficiente e por isso precisa ser construída entrelaçada a outras formas de mobilização popular.

Da terceira questão, Que impactos sociais resultam dos letramentos de resistência protagonizados pela Comissão de Mulheres do Sindicato dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais de Apodi no processo de luta por terra e território na Chapada do

Apodi norte-rio-grandense?, destacamos o fortalecimento da auto-organização das

trabalhadoras rurais de Apodi, que a cada evento de letramento elas inventavam e reinventavam estratégias para continuarem na resistência ao agro e hidronegócio na

Chapada do Apodi.

Os eventos de letramento de resistência na Chapada do Apodi, aliados a outras formas de mobilização, como as ações diretas de fechamento de portões e bloqueios de rodovias, em articulação com movimentos sociais nacionais e internacionais, favorecem a constituição de agentes de letramento de resistência em âmbito local, nacional e internacional.

Pesquisar sobre práticas de letramento de lideranças feministas no processo de luta por terra e território na Chapada do Apodi evidencia o potencial mobilizador das trabalhadoras rurais desse território. Os dados mostram que o poder de mobilização dessas mulheres extrapola os limites geográficos do território, ultrapassando inclusive fronteiras internacionais. Os dados também sinalizam que essa força mobilizadora é possivelmente resultado da militância das trabalhadoras rurais na Marcha Mundial das Mulheres, um movimento feminista internacional que, articulado em mais de 60 países, consegue organizar grandes mobilizações internacionais de denúncia e solidariedade entre os países membros.

A luta por terra e território no Brasil tem muitas narrativas de resistência das mulheres, sejam indígenas, negras, camponesas, ribeirinhas. Essas narrativas carecem de mais visibilidade. Os estudos de letramento de vertente etnográfica mostraram-se como uma possibilidade de incitação dessas discussões, permitindo que pudéssemos olhar as ações empreendidas por mulheres da Chapada do Apodi como práticas de letramento e mais, letramentos de resistência.

Reconhecer lideranças feministas do território da Chapada do Apodi enquanto agentes de letramento de resistência pode suscitar novas pesquisa no campo da Linguística Aplicada, especialmente nos estudos de letramento de vertente enográfica, uma vez que há, ainda, poucas pesquisas nessa perspectiva dos letramentos de resistência/reexistência. Além disso,

discutir o potencial que as lideranças dos movimentos sociais têm para contribuir com o desenvolvimento de teorias e conceitos na academia é uma importante janela de pesquisas

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