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A topicalização é um fenômeno altamente produtivo no PB, muito embora seja raramente mencionado nas gramáticas tradicionais. Segundo Perini (2010, p. 331), o tópico "é um elemento da sentença cuja função é delimitar o assunto principal do enunciado", podendo ou não ter uma das funções sintáticas tradicionais, como sujeito e objeto. A posição típica do tópico no PB é no início do enunciado, servindo, para o ouvinte, como uma espécie de apresentação do assunto que será tratado.

Nas sentenças seguintes, a informação apresentada é a mesma:

(3) Essa bolsa eu quero comprar. (4) Eu quero comprar essa bolsa.

Entretanto, a forma de dar a informação muda totalmente. Em (3), a estrutura de Tópico e Comentário coloca em relevo um elemento (essa bolsa), ao passo que em (4), a informação é apresentada de forma neutra.

Segundo Perini (2010), o tópico pode ter a estrutura de SN, SP, SAdj, SAdv ou SV28. Pode apresentar composicionalidade sintática dentro do resto do enunciado, como em (3), ou não, como no exemplo (5) abaixo. Essa característica ocorre porque a relação entre tópico e comentário é de natureza funcional, não necessariamente sintática, sendo marcada pela estrutura prosódica (CASTILHO, 2010):

(5) Esse xampu, o cabelo fica ótimo.

O livro de Eunice Pontes (1987), que é uma compilação de artigos escritos pela autora na década de 80, apresenta o início das pesquisas sobre as construções de tópico no PB, levando em conta o uso da língua, e mostrando a importância desse tipo de estrutura. No capítulo “Da importância do tópico em português”, a autora apresenta a tipologia de línguas de Li e Tompsom (1976 apud PONTES, 1987), procurando enquadrar o PB dentro de um dos quatro tipos:

- línguas com proeminência de sujeito (estrutura das sentenças: sujeito- predicado);

- línguas com proeminência de tópico (estrutura de tópico-comentário);

- línguas com proeminência de tópico e sujeito (ocorrência das duas estruturas); - línguas sem proeminência de sujeito ou tópico, (sujeito e tópico mesclados, não

sendo possível distingui-los).

Tradicionalmente, o PB sempre foi considerado uma língua do primeiro tipo. Entretanto, Pontes afirma que, ao se observar a língua em sua modalidade oral, é possível

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perceber a grande produtividade da estrutura de tópico. Assim, de acordo com suas análises, o PB se enquadraria, no mínimo, no terceiro tipo (proeminência de tópico e sujeito).

Ainda no capítulo mencionado, Pontes enumera as características das construções de tópico, bem como as características das línguas com proeminência de tópico. As características do tópico nas línguas de tópico são:

a) Definição: o tópico é sempre definido, enquanto o sujeito pode ser indefinido. (...)

b) Relações selecionais: o tópico não precisa ter relações selecionais com o verbo, o sujeito sim. Só não se verifica esse fato nas orações em que o tópico é idêntico ao sujeito (...). c) O verbo determina o sujeito, mas não o tópico: (...) pode-se

prever de um determinado verbo com que sujeito ele vai ocorrer. (...) Já o tópico não tem nada a ver com o verbo. Sua seleção é independente do verbo. (...)

d) Papel funcional: ‘O papel funcional do tópico é constante através das sentenças’. ‘Ele é o centro da atenção’, ‘ele anuncia o tema do discurso. Já o sujeito nem sempre desempenha qualquer valor semântico na S, sendo que em muitas línguas ele pode ser vazio’. Mesmo quando o sujeito tem um papel semântico, esse papel é intra-sentencial. O tópico está mais ligado ao discurso. (...)

e) Concordância verbal: É muito comum nas línguas o sujeito entrar em relação de concordância com o verbo, mas a concordância de tópico com verbo é rara. (...) Não há caso de concordância de verbo com tópico, mas apenas de verbo com sujeito [no PB]. É claro que nos casos em que sujeito e tópico são idênticos isso não pode ser verificado.

f) Posição inicial na sentença: (...) em todas as línguas o tópico vem sempre em posição inicial de S, mesmo naquelas que têm uma partícula marcadora de tópico. (...) a posição inicial do tópico está ligada à sua função no discurso: se ele anuncia o tema do discurso, é natural que ele venha primeiro.

g) Processos gramaticais: o sujeito, e não o tópico, governa processos gramaticais como reflexivização, passivização, etc. Todos esses processos, que são internos à sentença são dependentes do sujeito. O tópico, como é independente da S, não governa tais processos sintáticos.

Pontes (1987, p. 21-24) descreve também as características, resumidas a seguir, das línguas de tópico:

a) A construção passiva é rara ou mesmo não existe na fala;

b) “Sujeitos vazios”29, como “it” do inglês, ou “il” do francês, não existem nas línguas de tópico;

c) Duplo sujeito: é a construção típica das línguas de tópico, o mais claro caso de estrutura de tópico-comentário;

d) Controle de co-referência: em uma língua de tópico, é o tópico e não o sujeito que controla a co-referência;

e) Restrições sobre o constituinte tópico: qualquer elemento da sentença pode ser tópico;

f) Sentenças básicas: as sentenças de tópico não devem ser consideradas transformações de outros tipos mais básicos de sentenças, mas elas mesmas são sentenças básicas; não é possível derivá-las de outras.

Portanto, para Pontes (1987), o PB compartilharia com as línguas de tópico a maioria de suas características e, por isso, poderia ser considerado, no mínimo, como língua de proeminência de tópico e de sujeito. Diversos trabalhos sugerem que o PB seja língua de proeminência de tópico (GALVES, 1998; ORSINI, 2005; KATO, 2006). Contudo, Kenedy (2011) questiona tal afirmação, pois, segundo o autor, resultados experimentais apontariam para a preferência pela estrutura com sujeito em vez da estrutura de tópico, pois este traria uma carga maior para o processamento. Ele defende, assim como Duarte (1996), que as construções de tópico no PB se caracterizam, na verdade, como um fenômeno do discurso oral e espontâneo de qualquer língua natural; as verdadeiras línguas de tópico possuiriam, na verdade, uma morfossintaxe específica nos processos de topicalização.

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