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O significado de ideologia não é algo simples de ser discutido, por isso não é a nossa intenção realizar aqui um tratamento pormenorizado sobre essa questão. Tentaremos apenas explanar de forma breve as considerações de Michael Apple sobre esse conceito. O autor apresenta dois entendimentos sobre ideologia, o primeiro, como forma de falsa consciência a serviço dos interesses das classes dominantes de uma sociedade, o segundo, como criações inevitáveis que funcionam como convenções compartilhadas e servem para tornar acessível o funcionamento da complexa realidade social. Esses entendimentos são considerados ideais e estão associados, respectivamente, à “teoria do interesse” e à “teoria da tensão social”. Apesar de divergentes, o autor aponta elementos comuns entre aqueles que se interessam pelo problema da ideologia. São eles: a ideologia sempre lida com a legitimação, o conflito de poder e um estilo especial de argumentação (APPLE, 2006).

A legitimação constitui-se numa questão primordial e faz-se presente pela necessidade de justificação da ação de grupo e sua consequente aceitação social. Se enfrentado, o grupo dominante busca racionalizar os seus interesses justificando a determinação dos papéis sociais a partir dos seus argumentos, que são tomados como corretos.

O conflito de poder é algo inerente às disputas ideológicas, ainda que às vezes elas permaneçam tácitas. A busca pelo poder está relacionada à distribuição formal de autoridade e de recursos numa sociedade, acontecendo, principalmente, na esfera política. A apropriação do poder proporciona benefícios ou recompensas aos seus detentores, o que justifica a origem dessas disputas.

A difusão ideológica pressupõe um estilo especial de argumentação, geralmente pautada numa retórica explícita e relativamente sistemática. A explicitação tem o propósito de persuadir, mobilizar apoios e converter novos simpatizantes. A relativa sistematização busca disfarçar a qualidade das pressuposições e ideias que sustentam os argumentos.

Essas características que delineiam a ideologia podem contribuir na análise de políticas educacionais, inclusive nas voltadas à análise do currículo. Há “intelectuais” que buscam legitimar a hegemonia ideológica de um dado grupo de forma tão sutil que ela até parece neutra. Examinar os procedimentos que são utilizados na disseminação das formas ideológicas, certamente, pode nos ajudar a compreender: a prática educativa, as formas de conhecimento desenvolvidas e o papel do professor nas escolas – instituições formativas.

Apple (2006) considera que as análises curriculares, pela complexidade que lhe é atribuída, devem estar em conexão com as análises de outros campos sociais, como o sociopolítico e o econômico e sugere a utilização do conceito de hegemonia como uma forma de pensar as implicações ideológicas.

A maneira mais útil de pensar as características complexas, o alcance e as funções variadas da ideologia se encontra no conceito de hegemonia. A ideia de que a saturação ideológica permeia essa experiência vivida nos capacita a ver como as pessoas podem empregar modelos que tanto as ajudam a organizar seus mundos quanto as preparam para acreditar que são participantes neutras na instrumentalização neutra do ensino, [...] embora ao mesmo tempo esses modelos sirvam a determinados interesses econômicos e ideológicos que lhes são ocultados (APPLE, 2006, p. 56).

A associação entre os índices oriundos das avaliações em larga escala e a qualidade educacional, por exemplo, é algo que vem ganhando caráter hegemônico dentro de alguns espaços educacionais. De forma similar, a apreensão do conhecimento matemático pode ser atestada pelo número de acertos dos testes dessas avaliações. Compreender um pouco do percurso discursivo que favorece o processo de consolidação dessa e de outras políticas no meio escolar requer o mapeamento dos principais sujeitos e canais comunicativos envolvidos no processo da disseminação ideológica. Partindo da região mais central das estruturas institucionais até a sala de aula, poderemos melhor compreender a arquitetura ideológica que sustenta as políticas, evidenciando as suas possíveis repercussões na construção dos conhecimentos escolares.

“A estabilidade ideológica e econômica depende, em parte, da internalização, bem no fundo de nossas mentes, dos princípios e das regras do senso comum que governam a ordem social existente” (APPLE, 2006, p. 81). E essa estabilidade tem como uma das vias de construção o currículo escolar. Dessa forma, a escola, de forma consciente ou não, pode estar trabalhando a favor da manutenção da hegemonia ideológica. Entender o processo de saturação ideológica a que os

nossos educadores estão submetidos nas instâncias educacionais abre possibilidades para despertar movimentos contra-hegemônicos. Compreender como a hegemonia atua no sentido de construir um senso comum, uma interpretação única sobre a organização do mundo em que vivemos nos ajudará a construir um posicionamento mais crítico sobre o que nos é posto como natural.

Williams, (apud APPLE 2006), assim traz-nos um entendimento sobre hegemonia:

É todo um conjunto de práticas e expectativas; nossa energia empregada em diferentes tarefas, nossa compreensão comum do homem e de seu mundo. É um conjunto de significados e valores que, quando experimentados como práticas, parecem confirmar-se reciprocamente. Ela assim constitui um sentido de realidade para a maior parte das pessoas na sociedade, um sentido de ser absoluta porque experimentada [como uma] realidade a que a maior parte dos membros de uma sociedade dificilmente conseguirá ir além (WILLIAMS, apud APPLE, 2006, p. 39).

Para que se perceba a existência de uma cultura dominante é necessário o entendimento do seu processo social de incorporação. As instituições de ensino funcionam como agentes de transmissão dessa cultura dominante, se constituindo como uma das suas aliadas. É por meio do que Raymond Williams chama de tradição seletiva50 que se faz uma seleção intencional daquilo que culturalmente interessa às classes dominantes, construindo assim o pensamento hegemônico. A partir de uma visão naturalizada de uma história forjada apagam-se fatos relevantes que venham a se opor a versão tida como oficial.

Nas nossas instituições educacionais quase não se problematizam os elementos que guiam o processo de seleção do conteúdo, já que o foco está direcionado na sua distribuição (quantidade, tempo a ser utilizado, série/ano...). No entanto, ao idealizarmos o sujeito que almejamos formar nas nossas escolas, é imprescindível que estejamos atentos aos conteúdos que lhes são propostos, buscando entender o porquê de eles constituírem o currículo. Considerando o conceito de tradição seletiva, cada seleção de conteúdos traz, ainda que implicitamente, um conjunto de destaques e omissões. Para Apple, a seleção de conteúdos se constitui como uma das vias de construção da hegemonia, guiando o

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Teoricamente, a cultura de um dado período é sempre registrada, mas na prática todo esse registro é absorvido por uma tradição seletiva, que nos faz conhecer determinados aspectos de uma época e outros não. A tradição seletiva cria, então, uma cultura geral humana, o registro histórico de uma dada sociedade e uma rejeição de áreas consideráveis da cultura vivida.[...] Trata-se de um papel que não é realizado unicamente pela educação, mas a esta cabe um papel preponderante (LOPES; MACEDO, 2011, p.82).

trabalho cotidiano dos professores, que operam esses conhecimentos no sentido de os tornarem parte do senso comum, conforme pontuam Lopes e Macedo (2011), ao referendar o autor:

Apple apresenta a discussão de tradição seletiva de Williams de forma conectada à análise que o mesmo autor faz da hegemonia. Para Apple, o conhecimento hegemônico é todo um corpo de concepções, significados e valores que constituem as práticas cotidianas e a compreensão humana sobre o mundo. Quanto maior é a capacidade de esse conhecimento hegemônico se constituir como senso comum, mais facilmente exerce sua hegemonia. Quanto mais esse conhecimento hegemônico é transmitido como se fosse o conhecimento universal sistematizado, fruto de uma tradição que o seleciona como se fosse o melhor, mais se traduz como cultura dominante efetiva (LOPES; MACEDO, 2011).

A compreensão sobre a difusão ideológica do vínculo entre os índices do SAEPE e a qualidade educacional é um dos elementos que tem absorvido o nosso interesse, pois é a partir dessa propagação que as possíveis diretrizes do SAEPE encontram espaço e se materializam no âmbito escolar e mais precisamente na sala de aula. Eis porque compusemos um recorte discursivo expressivo, já mencionado anteriormente, considerando os papéis estratégicos que os sujeitos ocupam na organização educacional e nos propusemos a fazer a análise crítica dos seus discursos51, buscando elencar convergências e divergências entre eles, no intuito de melhor compreender o campo de disputa hegemônica no qual essa política se processa.

Para compreendermos, via currículo na ação, como esses aspectos hegemônicos viriam ou não a emergir na sala de aula, pela complexidade que a análise do currículo requer, tomamos a contribuição de alguns autores, dentre eles, Zabala (1998), Sacristán (2000) e Apple (2006), construímos o nosso referencial para a coleta e análise dos dados relacionados à descrição situacional da vida

escolar observada, mais precisamente do currículo na ação praticado nas aulas de

Matemática do ensino médio. Na categorização dos grupos de conteúdos curriculares vivenciados ao longo das duas unidades didáticas consideradas, valemo-nos dos critérios de interpretação qualitativa sugeridos por Minayo (2014).

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