III. Quelle nouvelle procédure pour le bassin versant ?
III.1. Discussion autour des procédures
Na teoria reichiana, a noção de corpo não é unívoca, já que Reich apresenta formas específicas de pensar e abordar o corpo na clínica, conforme a teoria vai sendo elaborada.
Nota-se, entretanto, que o corpo ao qual Reich se refere não é idêntico ao corpo articulado por Freud (imaginário, pulsional, erógeno), no qual se intervém por meio da palavra. A noção de corpo reichiana não coincide tampouco com as da Anatomia e da Fisiologia, pois, como coloca Rego (1993), ainda que se opere na clínica com base na couraça muscular conforme proposta por Reich, “a idéia de anéis da couraça muscular pode ser contestada pela análise de suas bases anatômicas” (p.43).
Por mais que a leitura freudiana da corporalidade marque de forma indiscutível a elaboração reichiana e ainda que Reich não deixe de enfatizar a importância do simbólico e o papel do psíquico no corpo, ele, não cessa de buscar integrar, na prática, o corpo psíquico ao biológico.
Assim, na clínica, o corpo para Reich é também o corpo real sobre o qual o psicoterapeuta intervém diretamente. Ele é o corpo somático, substrato privilegiado sobre o qual a neurose se deposita. É o corpo-organismo capaz de auto-regulação, mas também o corpo-encouraçado, no qual a genitalidade e a auto-expressão clamam por serem liberadas. É o corpo enrijecido pela couraça muscular, mas também a perspectiva de felicidade e saúde do caráter genital e do restabelecimento de seu potencial vital. Corpo que resiste. No qual se inscreve a história e o caráter. Corpo a ser interpretado e tocado.
Reich propõe que para se ter acesso às resistências e ao inconsciente, é preciso não ater-se unicamente ao discurso, mas considerar a resistência caracterial em todas as suas formas. Por meio do corpo, de todas as maneiras de ser e de aparecer do sujeito, como afirma Dadoun (1991), “através dos aspectos formais do comportamento geral do doente: sua maneira de falar, de movimentar-se, (...) sua ironia, (...) sua amabilidade”, etc. Como mecanismo de proteção narcisista, o caráter (e o corpo) se impõe à análise essencialmente como forma a ser desvendada, pois,
Os aspectos formais, a Forma, as formas em todos os lugares e sob todas as representações, constituem objetivos privilegiados para o pensamento
reichiano; é antes de tudo enquanto forma, jogo de formas que o caráter se impõe à análise. E a forma reichiana é inseparável da função – ela não é na verdade nada mais que outro nome da função; assim, “o caráter, assinala Reich, é em primeiro lugar um mecanismo de proteção
narcisista” contra a dupla ameaça representada pelo mundo exterior, por
um lado, e pelas pulsões instintivas interiores, por outro. (p.101).
Apesar de, em 1934, Wilhelm Reich ter sido expulso tanto do Partido Comunista Alemão, como da Associação Psicanalítica Internacional (IPA), como dissemos, vários autores afirmam a atualidade e a originalidade da contribuição reichiana ao pensamento psicanalítico, enumerando a inegável importância teórico-clínica de noções tais como o caráter e suas implicações metapsicológicas e clínicas, as elaborações sobre a técnica, a ênfase nos distúrbios sexuais em sua relação com a neurose e à busca de prevenção da neurose e de seus efeitos sociais e massificantes.
Devidamente inserida na época do “império da imagem”, segundo Berlinck (1995), Reich nos transmite na Análise do caráter, uma das mais contundentes e extensas críticas da aparência como essência do ser, revelando, nessa medida, “sua adesão ao espírito freudiano”. Segundo o autor:
Tanto para Freud quanto para Reich, o aparente é, ao mesmo tempo, o que resiste e o que revela. Mas para ambos, o aparente não se confunde com o essencial. O aparente, o caráter, é uma formação defensiva privilegiada do inconsciente, como o sonho, o chiste, o ato falho. E para Reich, o caráter é uma formação defensiva privilegiada do inconsciente já que está intimamente relacionado com o narcisismo e, mais especificamente, com o ego ideal. (p.12).
Além disso, a análise do caráter pretende fazer surgir uma história diversa daquela que até então o paciente se empenhava em sustentar como
“a análise do caráter proporciona o acesso a uma outra história que aquela de sustentar a própria imagem e, por isso, é estritamente psicanalítica, no sentido freudiano” (p.12).
Se Reich contribui para a ampliação do que se entende por uma psicopatologia psicanalítica, incluindo nesse panorama as manifestações psicossomáticas e patologias como o câncer, ele permite também constatar que o trabalho analítico tem efeitos sobre o corpo.
Ao mesmo tempo, ao pensar a chamada doença orgânica como manifestação caracterológica, “como parte do discurso transferencial no qual o ser humano está empenhado”, permite ampliar o campo do discurso sobre o qual a análise pode incidir. “Nessa perspectiva, não só o corpo é discurso – não só o corpo fala – mas todo o organismo, por ser um corpo erógeno, é parte fundamental desse discurso” (Berlinck, 1995, p.13).
Reich trabalha com o doente. Segundo Dadoun (1991), “no sentido estrito, quase material do termo, Reich chega às vezes a colocar-se ao lado do doente, a acompanhá-lo em sua doença (...)” (p.368). Isso pode implicar em imitar o comportamento de certo paciente, tentando levá-lo a abandonar as resistências e começar a analisar-se a si mesmo, ou prestar-se de fato como alvo para o acesso agressivo de outro. Reich não teme ser de fato inserido no processo de seu paciente, fazendo disso um estilo clínico. Nas palavras do autor:
Ainda que Reich não tema, de nenhum modo, ser implicado direta e corporalmente no processo terapêutico, não recorre, em geral, às intervenções corporais. Com exceção, evidentemente, de um eventual exame médico preliminar, destinado a deteminar um fator patológico, com exceção também de um apalpar ou de uma pressão manual que permita ao paciente reconhecer um bloqueio muscular, uma zona sensível de inervação neurovegetativa (...), evita as manipulações; é pela palavra, pelas imagens expressivas, recomendações e conselhos, explicações e
demonstrações da análise caracterial, descrições orgânicas, emocionais, vegetativas etc., que procura dirigir e focalizar a atenção do paciente sobre expressões corporais precisas, ancoragens musculares, disfunções psicológicas, (...); incita-os às vezes a realizar gestos determinados, como o de provocar um vômito, à medida que isso possa liberar uma via vegetativa, mas considera que as manifestações orgânico-emocionais (gritos, choros, enrijecimentos catatônicos, expressões mímicas, motrizes e sexuais, etc.) devem aparecer espontaneamente a seu tempo, como conseqüência e a confirmação de um processo terapêutico. (p. 370).
Como manifestação do caráter ou como disfunção psicológica, para Reich, o corpo, invariavelmente, está incluído no processo terapêutico. Sobre ele se intervém diretamente, permitindo a emergência da expressão emocional mas também por meio da palavra e da análise caracterial.
Tachado de louco, Reich morre em novembro de 1957 quando cumpria pena na penitenciária federal de Ludwiburg, no estado da Pensilvânia. Termina assim o percurso polêmico e trágico desse autor que, paradoxalmente, foi um otimista.
Dadoun (1991) aponta a “extraordinária capacidade de criação concreta” de Reich e a “extrema riqueza de seus métodos terapêuticos”. Reich foi um apaixonado pela clínica. Segundo Dadoun (1991), “é bem evidente que existe em Reich uma paixão pela terapêutica que o impele a apreender de entrada e a atualizar rápida e sistematicamente as possibilidades práticas de um desenvolvimento teórico (...). Esta famosa ligação da prática com a teoria (...) não é um problema para Reich: é um exercício espontâneo” (p.370).
Reich buscava obstinadamente a cura para a neurose e uma técnica terapêutica efetiva que o permitisse ajudar seus pacientes. Sonhava com um mundo melhor e a promoção de maior bem-estar entre os homens, movido pelo adágio, segundo o qual, “o amor, o trabalho e o conhecimento são as fontes de nossa vida. Deveriam também governá-la”. (Reich, 1927, 1933, etc.).