No âmbito da abordagem da teoria social da aprendizagem, proposta por Lave e Wenger (1991), emerge a ideia de CoP. Com base em Cabelleira (2007), apresenta-se oito referenciais teóricos que constituem a base da teoria social da aprendizagem em CoPs:
• teoria da prática – reporta-se à produção e à reprodução de modos específicos de engajar-se no mundo. Trata das atividades cotidianas e de procedimentos da vida real e dá ênfase aos sistemas sociais de recursos compartilhados – pelos quais os
grupos se organizam e suas atividades são coordenadas –, nas relações mútuas e nas interpretações do mundo em que as pessoas vivem;
• teoria da experiência situada – mostra como as interações dos indivíduos influenciam o ambiente;
• teoria da identidade – trata da formação social da pessoa, da interpretação cultural do corpo e da criação e do uso de marcadores sociais (gênero, classe, etnia, idade e outras formas de categorização, associação e diferenciação), como uma forma de entender a pessoa que está inserida em relações complexas; • teoria da estrutura social – aborda as formas que influenciam a
ação (cultura, discursos e histórias);
• teoria do significado – refere-se às formas pelas quais as pessoas produzem seus próprios significados, a coerência entre o que se diz e o que se faz e o significado que é dado às práticas e às experiências laborais;
• teoria da coletividade – discute as configurações sociais, tais como: as famílias, as comunidades, os grupos, as redes, os estados, as classes sociais, as associações, os movimentos sociais e as organizações. Também abrange os mecanismos de coesão social pelos quais as configurações são produzidas, sustentadas e reproduzidas (solidariedade, compromissos, interesses comuns, afinidade);
• teoria do poder – ajudam a compreender os padrões, os conflitos e os deslocamentos;
• teoria da subjetividade – remetem à natureza da individualidade como uma experiência da ação.
Wenger (1998a) resume a perspectiva social da aprendizagem em alguns princípios que deixam evidente que a aprendizagem:
• é inerente à natureza humana;
• é, antes de tudo, a capacidade de negociar novos significados; • envolve uma ação recíproca entre o local e o global;
• envolve a participação; • cria estruturas emergentes;
• é, fundamentalmente, experimental e social; • transforma a identidade das pessoas;
• significa lidar com fronteiras;
• é uma questão de energia social e poder; • é uma questão de engajamento;
• é uma questão de imaginação, dependente de um processo de orientação, reflexão e exploração, para expor as identidades e as práticas em um contexto mais amplo e significativo;
• é uma questão de alinhamento.
Para Lave e Wenger (1991), a aprendizagem não é apenas um fenômeno individual, mas também coletivo, que ocorre em um contexto de participação social, ou seja, as pessoas aprendem organizando-se nas comunidades sociais a que pertencem. O contexto torna a aprendizagem situada.
O conhecimento tácito, existente em um contexto social, é incorporado à prática, no momento em que uma pessoa é reconhecida como integrante de um grupo social e no momento em que ela incorpora tal conhecimento, promovendo mudanças em suas perspectivas de significado, ampliando o nível de complexidade e de responsabilidade nas ações (LAVE; WENGER, 1991).
A abordagem de Lave e Wenger (1991) propõe o conceito de participação periférica legitimada, que não deve ser entendida como sinônimo de participação parcial, mas como um tipo de participação que possibilita acesso às fontes de conhecimento pelo envolvimento crescente em uma CoP. A aprendizagem é entendida, aqui, como um processo de participação em uma comunidade, primeiramente, periférica legitimada, mas que aumenta gradualmente em engajamento e complexidade. Assim, numa CoP, os processos de participação e de aprendizagem são inseparáveis.
A participação, na prática, onde o conhecimento existe, é um princípio da aprendizagem, em que a estrutura social dessa prática, as suas relações de poder e as suas condições de legitimidade definem as possibilidades de aprendizagem, ou seja, de participação legítima periférica (LAVE; WENGER, 1991). A noção de participação, numa prática social, traz a esta discussão uma nova dimensão.
Nessa vertente, a compreensão da aprendizagem migra de uma ênfase meramente cognitiva para uma perspectiva sócio-laboral. Em outras palavras, para tal abordagem, a aprendizagem se dá não somente na mente das pessoas, mas, fundamentalmente, nas relações sociais entre os indivíduos engajados numa prática por meio da qual intercambiam experiências, conhecimentos e significados (SOUZA-SILVA; SCHOMMER, 2008, p. 106).
De acordo com Lave e Wenger (1991), uma CoP envolve um conjunto de relações entre pessoas, atividades, o mundo e alguns elementos comuns a outras comunidades tangenciais. Nessa visão,
declara Wenger (1998a), a aprendizagem é fruto de interações e está intimamente vinculada aos contextos sócio-interacionais e profissionais.
Nas CoPs, a aprendizagem ocorre em um processo pelo qual as pessoas formam suas identidades – pela prática –, em relação às identidades sociais do grupo (DUGUID; BROWN, 2001). Ou seja, nessas comunidades, seus membros aprendem em conjunto, validam conhecimentos, questionam pressupostos, apresentam ideias novas, compartilham informações e conhecimentos, trocam contatos, criam ligações entre equipes, projetos, departamentos, parceiros ou concorrentes (NEVES, 2004).
Conforme já citado na introdução deste trabalho, a aprendizagem em uma CoP é facilitada por determinadas condições: os membros devem definir seus objetivos; os membros devem participar de forma regular e construtiva nas interações propostas à comunidade; os recursos produzidos na CoP devem ser considerados como “bens comuns” da comunidade. Tais condições podem suportar a aprendizagem dos membros de uma CoP (DAELE ET AL., 2007).
Percebe-se, pelo exposto, que o conhecimento necessita ser criado em um contexto de participação social e que a aprendizagem requer a interação social e a participação dos membros na comunidade de prática.
2.5.5 Criação e compartilhamento de conhecimento em