Aí aos poucos que, com o passar do tempo que nós (...) aí o soldado moderno tirava o segundo socorro, que é uma viatura que todas as ocorrências de grande vulto quem vai é o primeiro socorro, que era o pessoal mais experiente, a quantidade de homens era bem maior para a ocorrência. (PRAÇA EGRESSO - PERSEU).
Ulisses enseja esta concepção, ao trazer um discurso em que a experiência vivida na profissão se sobrepõe à patente, no momento da ocorrência.
Porque quando a gente entra a gente sempre busca procurar um curso, a gente sempre busca de desenvolver, até ter essa maior interação com os antigos como eu falei, aqueles que são mais experientes. Quando eu entrei, eu como aspirante, eu buscava. (...) eu buscava essas experiências neles. “E aí, como é que nós vamos resolver, como é que se faz?” (...) e eu adquiri muitas experiências com eles, porque apesar de eles...eu ser lá, no momento, o comandante deles, ser superior, mas eles tinham uma experiência, uma vivência de vida de quinze, vinte anos. Então isso aí me ajudou muito, essa interação, e a gente não vê essa interação, essa
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vontade de aprender, essa vontade deles de se inteirar, de viver como bombeiro. (OFICIAL EGRESSO – ULISSES).
Ainda sobre a valorização da experiência, os achados e análise dos dados empíricos apontam que, na instituição, a hierarquia (antiguidade e a patente) se sobrepõe ao nível educacional alcançado fora da instituição, conforme relato de Ulisses:
tem muitos concurseiros, então o que a gente já viu no...que a gente já identificou e que a gente teve que rebater até chegar e falar isso aí pra eles. O que é que aconteceu muito, muitos já entraram formados, graduados já, certo? Já tinham uma formação de nível superior. Então, muitos dos antigos, né? Sargentos, subtenentes não são formados. O que acontecia? Eles achavam isso: “Não, ele não é formado e eu sou formado”. Não queria dar a ele aquele devido respeito à hierarquia. Mas você entrou pra ser soldado do corpo de bombeiros, você não entrou pra ser o engenheiro, certo? Seu nível superior, a gente respeita, o seu nível superior você tem, mas aqui você é subordinado ao sargento, nem que ele tenha só o segundo grau, mas ele é subordinado ao sargento. (...) Menino, você é formado lá fora, mas aqui, militarmente, você é um soldado. Você pode ter doutorado, certo? (OFICIAL EGRESSO – ULISSES).
Aquiles, complementando a visão de Ulisses, sobre a cultura da experiência e da antiguidade no exercício da profissão, aponta que há uma cultura de atribuir aos bombeiros mais experimentados o papel de bússola, espelho que reflete o modelo a ser seguido, independentemente da patente ou da formação educacional, o que confere esse status é a experiência e a postura profissional, o fato de ser um representante da imagem que se busca manter ou construir.
quando eu, a gente começou a conviver com pessoal mais antigo aqui eu falei com uma pessoa, a gente cria a gente os nossos amigos, a gente tenta fazer deles uma bússola, eles te dão o norte para tu seguir e tem pessoas aqui que você se espelha (...) principalmente as pessoas mais antigas assim que eu via ... por ser antigos tem uma idade mais elevada que eu, mas não deixa a desejar em nada em ser bombeiro, (...) então, são pessoas que você tira como parâmetro, como referencia ...eu chegando na idade desses caras, entendeu ? E fazendo o que eles fazem, então para mim tá de bom tamanho. Então aqui é uma escola esse quartel é uma escola se aprende muito com esses caras. (PRAÇA EGRESSO AQUILES).
Eu acho que se a gente tiver recrutamento e de repente fizesse… a gente faz como o pessoal da polícia, o pessoal do Honda, colocar só pessoal novo pra trabalhar, jamais vai sair a contento, não tem nem perigo, isso eu falo por experiência própria… se botasse quatro camaradas novos numa viatura não saía nada, não saía nada, podia até sair acidente, saía muito acidente. O pessoal antigo aí é que ensina realmente a gente, e a gente vai pros cursos de formação pra se qualificar, pra tentar trazer pra cá as novidades, que a gente sabe que tá carente. (PRAÇA EGRESSO AQUILES).
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Esta concepção sobre o nível educacional que um bombeiro tenha obtido fora da instituição parece surgir como uma ameaça à ordem hierárquica e disciplinar, bem como à sua práxis30, trazendo um mal estar aos bombeiros com mais tempo de instituição, como aponta Ulisses:
Então, como eu falei, às vezes, muito no começo, o que atrapalhou muitos a entenderem que ele era formado, ele tem o seu nível superior; sim, mas ele precisa saber respeitar, seu mestrado, seu doutorado, é respeitado isso aí, mas se você diz, um quartel, dentro da ocorrência, ele tem que respeitar a hierarquia e disciplina. Ele tem que ser profissional como bombeiro você tem que ser profissional. “Ah que o... o fulano não sabe de nada!”. Eu acho que quinze, vinte anos de serviço na minha frente, ele sabe alguma coisa, com certeza sabe. (OFICIAL EGRESSO – ULISSES).
Hércules lança luzes sobre uma questão cultural que parece bastante relevante, a questão da experiência e da antiguidade no exercício da profissão, já mencionadas por Perseu, Ulisses e Aquiles. O cotidiano das ocorrências ou mesmo os cursos complementares que são oferecidos, em que não há uma segmentação entre praças e oficiais, explicitam a ideia da experiência se sobrepondo à patente; seja pelo benefício de uma vítima a ser regatada, seja na busca de um conhecimento específico, o saber técnico se sobrepõe.
porque pra nós não interessa se o camarada é um oficial ou é uma praça, o que interessa pra nós é a especialidade que ele tem. Então se eu tenho um camarada aqui que ele é candidato ao curso, ele vai ser aluno, então parte do princípio que ele não sabe de nada e se ele sabe, ele sabe muito pouco, por isso que ele entrou no curso pra aprender. Ele vai aprender com quem? Com quem tem experiência, com quem já sabe né? (OFICIAL EGRESSO –
HÉRCULES).
Observo ainda que, embora o conhecimento adquirido em processos formativos fora da instituição fique sobrepujado à patente e à hierarquia, como foi discutido anteriormente, há uma cultura que valoriza conhecimento técnico adquirido nos cursos oferecidos pela instituição ou na experiência profissional. Entretanto, alerto que, segundo os achados empíricos, esta concepção não rompe com o funcionamento ideológico da patente ou hierarquia, conforme apresento e discuto na categoria de análise chamada de IDEOLOGIA31.
5.3 Subjetividade
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Palavra com origem no termo grego praxis e significa conduta ou ação
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A categoria subjetividade contempla a análise dos discursos que sugerem todo o movimento dialético, exteriorização – interiorização, de receber, (re)produzir ou mesmo criar sentidos e significados sobre a profissão.