A Aldeia Jaguapiru está situada dentro da Reserva Indígena Francisco Horto Barbosa, na região sul do Estado do Mato Grosso do Sul entre os municípios de Dourados e Itaporã. A criação da Reserva ocorreu por meio do Decreto-Lei nº 401, de 03/09/1917, e obedece a Lei Nº 6.001 - Art.26, de 19 de dezembro de 1973 do Estatuto do Índio. Estes documentos dão pleno direito a União em estabelecer, em qualquer parte do território nacional, áreas distintas à posse e ocupação pelos índios, onde eles possam viver e obter meios de subsistência, com direito ao usufruto e utilização das riquezas naturais.
A extensão territorial da Reserva no momento da criação, era de 3.600 hectares, mas em 1925, ao ser registrada, contava com espaço de 3.475 hectares. Almeida (2001, p.55) ao
comentar esta diferença, diz que “a parte excluída poderia abrigar 31 famílias com quatro hectares cada uma para o plantio e a criação de animais domésticos para alimentação”.
A Reserva é habitada pelos subgrupos da etnia Guarani – Kaiwá e Guarani – Ñandéva e pela etnia Terena. Os Nãndéva são povos do mesmo tronco e da mesma família lingüística dos Kaiwá, diferindo no dialeto, costumes e práticas rituais. Estes dois subgrupos Guaranis, apesar das diferenças, quando se trata de dificuldades, conseguem conviver em recíproca tolerância num mesmo espaço e até mesmo produzi-lo em conjunto, é o caso das lutas pela recuperação das suas aldeias tradicionais, onde participam juntos de todo o processo.
Os índios da etnia Terena, por sua vez, são do tronco lingüístico Aruak e não eram, originalmente, habitantes destas terras. Eles foram trazidos pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), com a finalidade de ensinar aos indígenas da Reserva, um novo sistema de manejo do solo e facilitar o contato e a integração com a sociedade nacional. Isso aconteceu, por terem, os Terena, uma maior habilidade no cultivo e por aceitarem mais facilmente o sistema do não- índio. “O contato destas etnias, acreditavam os colonizadores, iria facilitar a integração dos indígenas à comunhão nacional, isto é, às regras do jogo capitalista”. (ALMEIDA, 2001, p.42)
Entre os anos de 1930 e 1992, muitos índios foram despejados de suas aldeias tradicionais pelo SPI e pela FUNAI e trazidos para Dourados, isto provocou o aumento
populacional na Reserva Francisco Horta Barbosa. A alta densidade demográfica e o crescente
número de aldeados no mesmo espaço físico criado na época, em uma área sem matas nativas e rios correntes, propiciam os casos de violência, alcoolismo e falta de perspectivas econômicas.
Atualmente, a Reserva abriga aproximadamente 30% da população indígena do Estado, o que representa mais de onze mil moradores. Destes, 63,5% são índios Kaiwá. Na Aldeia Jaguapiru, os Kaiwá representam 33% do total de mais de 5.224 e, apenas 1,3%, ou seja, em
torno de 22 índios Kaiwá possuem mais de 60 anos de idade. 7 A definição de idade dos índios é baseada no documento de identidade indígena expedido pela Fundação Nacional do Índio – FUNAI.
A Aldeia é dividida pela Rodovia MS/156 que liga as cidades de Dourados a Itaporã. Possui movimento intenso e não há iluminação pública na via, tornando-se um perigo para a sobrevivência das pessoas. Acontecem muitos atropelamentos de indígenas, principalmente no período noturno.
Na Reserva existe um Posto Indígena da Fundação Nacional do Índio – Funai que é responsável pelas questões sociais; um Posto de Saúde sob responsabilidade da Fundação Nacional de Saúde – Funasa; um Núcleo de Atividades Múltiplas – NAM de responsabilidade da ONG Amigos do Índio do Centro Universitário da Grande Dourados – UNIGRAN que desenvolve ações de aprendizagem – escola bilíngüe (português – guarani), com professores indígenas da própria Aldeia, além de grupos de trabalhos manuais e artesanatos.
Missões, pertencentes à Igreja Católica e Igrejas Protestantes desempenham seus trabalhos religiosos na Aldeia. Conforme descrição de Almeida, a Igreja Católica é representada pelo Conselho Indigenista Missionário – CIMI da regional Mato Grosso do Sul desde 1978. Representam as Igrejas Protestantes, três grandes denominações evangélicas: A Missão Evangélica Caiuá (MEC) da Igreja Presbiteriana, na região desde 1928; a Deutch Indiaaner
Pioneer Mission (DIPM) formada pelos fundamentalistas conhecidos como Missão Alemã, na
região desde 1964; e o Projeto Tape Porá, da Igreja Metodista, presente desde 1971. (ALMEIDA (b), 2001)
Nos últimos anos, houve um aumento significativo de congregações e representações religiosas de diversas Igrejas Evangélicas na aldeia. Muitas delas utilizam como espaço físico para a realização dos eventos, as casas de moradia dos índios.
A base da subsistência se dá por meio da Agricultura. Mas, boa parte dos índios possui emprego fora da Aldeia, o que modificou a estrutura familiar, pois vários homens casados deixam suas famílias durante a semana para trabalhar nas fazendas da região, retornando apenas nos finais de semana para a Aldeia. Esta alteração no modo de vida dos índios da Aldeia contribui para o crescente número de índios jovens afastados do trabalho por lesões de coluna e câncer de pele devido ao trabalho pesado e contínuo no corte de cana de açúcar e nas lavouras de soja da região, além da exposição constante e sem proteção ao sol.
As mulheres indígenas permanecem, em sua maioria, em casa, na Aldeia e são responsáveis pela criação dos filhos e dos animais domésticos. Para a subsistência das famílias indígenas existe o apoio da cesta básica de alimentação fornecida pela Funasa e do Governo Federal por meio do programa Bolsa Família.
Para conhecer a história de quem acompanhou as principais mudanças sociais ocorridas nos últimos anos na aldeia Jaguapiru, buscou-se neste trabalho, valorizar a fala de índios idosos da etnia Kaiwá nos relatos de suas histórias de vida.