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6   CONSEQUENCES DES SURDITES NEUROSENSORIELLES SUR LA SENSIBILITE A

6.4   Discussion 97

Cada milha de terreno ganha pelo ciber-Lebenswelt representa uma milha a mais de deserto no real. Efeitos físicos (anulação da paisagem, desertificação do território, abolição das distinções reais) alcançam seu ápice na esfera virtual (abolição das distâncias mentais, compressão absoluta do tempo) e retroagem sobre o físico, causando um curto- circuito entre o geográfico e o noológico15. Cada novo agenciamento entre o orgânico e o inorgânico complexifica essa cartografia, materializando um espaço elástico no qual as extensões se recobrem, se deformam e se conectam.

Sobre esse aspecto, Lévy afirma que

a velocidade (e o virtual é no fundo um modo de velocidade) não faz com que o espaço desapareça, ela metamorfoseia o sistema instável e complicado dos espaços humanos. Cada novo veículo, cada nova qualidade de aceleração inventam uma topologia e uma qualidade de espaço que se acrescentam às precedentes, articulam- se com elas e reorganizam a economia global dos espaços (LÉVY, 1999, p. 216).

McLuhan (1996) localiza como primeiro grande impacto dessa natureza o domínio da eletricidade, que liquidou a seqüência e instaurou a simultaneidade. Com a instantaneidade, as causas dos fenômenos emergiriam na consciência, o que não acontecia com as coisas em seqüência e em conseqüente concatenação. Para esse autor,

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we have multiplied the mechanical demands without multiplying in any degree our human capacities for

registering and reacting intelligently to them. With the successive demands of the outside world so frequent and so imperative, without any respect to their real importance, the inner world becomes progressively meager and formless, tradução do autor.

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a ‘mensagem’ de qualquer meio ou tecnologia é a mudança de escala, cadência ou padrão que esse meio ou tecnologia introduz nas coisas humanas. A estrada de ferro não introduziu movimento, transporte, roda ou caminhos na sociedade humana, mas acelerou e ampliou a escala das funções humanas anteriores, criando tipos de cidades, de trabalho e de lazer totalmente novos16 (McLUHAN, 1996, p. 22).

Qualquer nova tecnologia, seja de comunicação ou não, afeta inevitavelmente o meio ambiente humano e social. No complexo perceptual do ciber-Lebenswelt, o indivíduo deixado aos seus próprios meios é incapaz de atribuir significado a um espaço que se tornou tão carregado de indícios que só a velocidade instantânea das máquinas é capaz de interpretar. O ciber-Lebenswelt causou uma erosão do próprio princípio de realidade, apresentando como real o resultado do cruzamento de representações e interpretações, em um processo de múltiplas reconstruções.

Virilio17 se preocupa com as repercussões dessa realidade acelerada:

cada vez que inauguramos uma aceleração, não apenas reduzimos a extensão do mundo, mas esterilizamos também os deslocamentos e a grandeza dos movimentos, tornando inútil o gesto do corpo locomotor. Da mesma forma, perdemos o valor mediador da ‘ação’ em proveito da imediatez da ‘interação’ (VIRILIO, 1999, p. 119).

O que provoca a preocupação de Virilio é o desencadeamento de um processo de privação sensorial, devido à dissipação tecnológica da nossa capacidade de percepção, causando uma alienação da capacidade de agir em proveito da de reagir18. O ciber-Lebenswelt é um espaço sem distância, o que implica um eu sem espaço19:

não habitamos mais a geometria nem a Terra, nem a medida, mas uma topologia sem métrica, sem distância, um espaço qualitativo (...) o fato de habitarmos um espaço topológico doravante sem distância muda nosso destino e nossas filosofias e, antes, nossa antropologia: não somos mais os mesmos homens (SERRES, 2003, p. 230).

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Novamente aparece com força a correspondência tecnologia/ambiente, que já estava presente no grande inspirador de McLuhan, Innis: We can perhaps assume that the use of a medium of communication over a long

period will to some extent determine the character of knowledge to be communicated and suggest that its pervasive influence will eventually create a civilization in which life and flexibility will become exceedingly difficult to maintain and that the advantages of a new medium will become such as to lead to the emergence of a new civilization - “talvez nós possamos assumir que o uso de um meio de comunicação por um longo

período vai, de alguma forma, determinar o caráter do conhecimento a ser comunicado e sugerir que a sua influência pervasiva vai eventualmente criar uma civilização na qual a vida e a flexibilidade vão se tornar excessivamente difíceis de se manter e que as vantagens do novo meio vaio se tornar tais que vão levar à emergência de uma nova civilização” (INNIS, 1991, p. 34), tradução do autor.

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Virilio (1999) chega a afirmar que, na sociedade pós-industrial o parâmetro para se determinar o que é útil e valorizado culturalmente é a dromologia.

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Para aquele autor, reação é uma denominação menos otimista daquilo que atualmente se convencionou chamar de interação.

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Está acontecendo a colisão entre o real (freqüência nula) e o virtual (altíssima freqüência)20. Para sobreviver ao choque e superar esse sentimento de deslocamento e ansiedade, o homem precisa assumir as rédeas de sua evolução, criando formas de imersão na pluralidade sensorial das urbanidades, da convivência com multidões, da comunicação instantânea e da telepresença. Serres argumenta que precisamos passar “de naturados, quero dizer, mergulhados de modo passivo numa natureza que significa o conjunto do que nasce ou do que vai nascer sem nós, a naturantes, arquitetos e construtores ativos dessa natureza” (SERRES, 2003, p. 49) .

Segundo Serres, o processo de hominização é semelhante a uma pro-dução – uma auto-construção, na qual as técnicas têm o papel fundamental de defender nosso corpo, protegendo-o, cada vez mais poderosamente, da seleção natural, acabando, como resultante, por dela nos afastar. Conforme Morin, veremos a possibilidade crescente de “introdução dos atributos do ser vivo nas máquinas (ou seja, a auto-organização e a autoprodução), de introdução dos atributos da inteligência humana na inteligência artificial e dos atributos artificiais no organismo humano (próteses, órgãos de síntese)” (MORIN, 2005).

Um processo no qual a técnica, ao invés de se beneficiar de uma abstração da vida (objetivação), vai procurar cada vez mais sua integração com ela (subjetivação). Vemos a transcendência de duas falácias históricas: a de que o mecanismo não teria nada a aprender com a vida e a de que a vida não teria nada a aprender com o mecanismo. É o regime da parabiose, no qual

conectado a câmeras, instrumentos e aparelhos de controle, o cérebro vê, sente e responde aos estímulos. Ele está no controle de seu próprio destino. A máquina é seu corpo; ele é a mente da máquina. A união da mente e da máquina criou uma nova forma de existência, tão bem projetada para a vida no futuro como o homem foi projetado para a vida na savana africana (MAZLISH, 1993, p. 220)21.

O grande desafio para o futuro é integrar os desenvolvimentos das novas tecnologias de informação e comunicação ao modo de vida dos usuários e, principalmente, propiciar uma interação com o agente orgânico. Tato e visão já não serão suficientes para absorver a quantidade de informações disponíveis e continuamente geradas, e os computadores pessoais deverão se tornar cada vez mais ativos na interação com o ser humano, agindo como uma

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Cf. BAUDRILLARD, 2002, p. 17. 21

Connected to cameras, instruments and engine controls, the brain sees, feels, and responds to stimuli. It is in

control of its own destiny. The machine is its body; it is the machine’s mind. The union of mind and machine has created a new form of existence, as well designed for life in the future as man is designed for life on the African savanna, tradução do autor.

extensão de suas faculdades naturais. As tecnologias de informação e comunicação serão próteses mentais, proporcionando mixagens cognitivas complexas e cooperativas e imprescindíveis para a realização do cidadão do futuro. As próteses alteram nossa corporeidade e, conseqüentemente, nossos processos dialógicos22. As novas linguagens que estão surgindo nas salas de chat e nas trocas de SMS são apenas a ponta desse iceberg.