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7 Discussion and Conclusion

Dans le document Motivated memory in dictator games (Page 24-44)

A perspectiva (re)construída por Rabardel (Rabardel, 2001, 1999/2002, 1998, 1995; Rabardel & Bormaud, 2005) apresenta uma natureza antropocêntrica: as actividades psicológicas e sociais das pessoas encontram-se em primeiro plano. O autor advoga, assim, que se deva considerar os objectos técnicos e os instrumentos através, essencialmente, dos seus utilizadores e das respectivas utilizações. São as máquinas e os sistemas técnicos que devem ser pensados à luz dos homens e não o contrário (Rabardel, 1995). O lugar da tecnologia é, assim, definido em relação ao próprio lugar ocupado pelo homem (Folcher & Rabardel, 2004b; Rabardel, 2001, 1995, p. 17; Rabardel & Bormaud, 2005).53 Em oposição, encontra-se uma perspectiva

53Daí, inclusivamente, a proposta do autor para designar os objectos e os sistemas técnicas de “objectos e sistemas antropotécnicos”. Porquê ? Porque «[c]es objets et systèmes sont, dès leur origine, anthropotechniques, c’est-à -dire pensés, conçus en fonction d’un environnement humain. Les hommes sont omniprésents dans leurs cycles de vie depuis la conception jusqu’à la mise au rebut en passant par les phases essentielles du fonctionnement et de l’utilisation. Il faut donc pouvoir penser, conceptualiser l’association des hommes et des objets, à la fois pour en comprendre les caractéristiques et les propriétés et, pour les organiser au service des hommes.» (Rabardel, 1995, p. 2).

tecnocêntrica: a técnica ocupa uma posição cimeira; o homem e a actividade humana propriamente dita ocupam uma posição residual (Rabardel, 1995, p. 12). Uma presença humana o mais discreta possível seria a condição desejável para a eficácia pretendida54 (Rabardel, 1995, pp. 13-16). No entanto, Rabardel não só sublinha não serem estas perspectivas, a priori, contraditórias (Béguin & Rabardel, s/d, p. 3, 2000; 1995, p. 12) como advoga também, aliás, uma articulação entre ambas (Rabardel, 1995, pp. 12-13): i) uma abordagem exclusivamente tecnocêntrica tende a colocar o homem em posição residual e é incapaz de verdadeiramente pensar a sua actividade; ii) uma abordagem exclusivamente antropocêntrica, por seu turno, é incapaz de pensar os sistemas técnicos na sua especificidade tecnológica. Daí, portanto, a importância de uma articulação conceptual e pragmática entre as abordagens, permitindo pensar um sistema de produção do ponto de vista tecnológico e do da actividade humana.

Ao observar os termos utilizados à data, Rabardel não deixa de recordar, em primeiro lugar, a importância exercida pela posição antropocêntrica nas designações por ele adoptadas. Daí que se o objecto técnico, numa abordagem tecnocêntrica, pudesse ser considerado, essencial ou exclusivamente, sob o ponto de vista da sua construção e das concepções que o fizeram nascer, em detrimento dos utilizadores e dos usos que permite, o autor tenha preferido, num primeiro período, recorrer à designação de objecto material fabricado. Vejamos, em termos gerais, as definições apresentadas pelo autor a respeito de determinados termos: i) o termo «objecto técnico» designa um objecto material fabricado considerado numa perspectiva técnica; ii) a designação de «produto» significa este mesmo objecto enquanto coisa a conceber, a fabricar ou a vender; iii) o termo «instrumento» designa o objecto em uso (Wirthner, 2006a). Ora, é precisamente no termo «instrumento» que muito se apoia o quadro teórico desenvolvido por Rabardel para a conceptualização e a análise das actividades humanas. Daí que veremos então melhor, mais à frente, aquilo em que consiste um instrumento.

Modelo da actividade mediatizada pelos instrumentos, segundo a proposta de Rabardel (Rabardel, 1995). Rabardel distingue três principais orientações da mediação na actividade pelos instrumentos: i) uma orientação para o objecto da actividade (mediações para o objecto); ii) uma orientação para os outros (mediações

54«Dans les avions du futur il n’y aura plus que deux places dans les cockpits : une pour un homme l’autre pour un chien. Le chien sera là pour empêcher l’homme de toucher aux commandes et l’homme sera là pour nourrir le chien» (Rabardel, 1995). Posição esta na génese, precisamente, da principal crítica endossada a esta perspectiva : a desumanização a que esta última conduziria.

interpessoais); iii) uma orientação para o próprio sujeito (mediações reflexivas) (Folcher & Rabardel, 2004a; Rabardel & Bourmaud, 2003).

Em relação às mediações para o objecto, é possível distinguir duas componentes destas mediações: i) as mediações epistémicas, que são as mediações visando, fundamentalmente, o conhecimento do objecto (das suas propriedades, das suas evoluções em função das acções do sujeito, etc.); e ii) as mediações pragmáticas, que são as mediações visando a acção sobre o objecto (transformação, gestão, etc.). Quanto às mediações interpessoais, estas correspondem ao facto de que actividade do sujeito é também geralmente dirigida para os outros. E isto não só no caso das actividades colectivas; é também o que geralmente acontece na aioria das actividades de carácter individual (Clot, 1998). As duas formas de mediação referidas anteriormente – epistémicas e pragmáticas, portanto – podem também ser aplicadas às mediações interpessoais, conforme se trate de conhecer os outros ou de agir sobre eles. No que diz respeito às mediações reflexivas, a sua orientação tem que ver com a relação que o sujeito tem consigo próprio, por intermédio do instrumento. Ainda que estas três orientações das mediações possam estar simultaneamente presentes no quadro de uma dada actividade, uma ou outra afigura-se, geralmente, dominante (Folcher & Rabardel, 2004b; Rabardel & Bormaud, 2005; Rabardel & Bourmaud, 2003). Mas, afinal, o que é um instrumento, na óptica de Rabardel?

O instrumento, na definição psicológica de Rabardel, não pode ser reduzido – conforme as diversas terminologias – ao artefacto, ao objecto técnico ou à máquina. O instrumento é, como vimos, o artefacto em situação, inserto num determinado uso, assumindo o homem um papel capital na sua definição. Neste sentido, o instrumento jamais pode ser considerado como constituído a priori (Bourmaud, 2007; Rabardel, 1997a). O instrumento é concebido como uma entidade compósita, mista, constituída, mais concretamente, por duas componentes (Rabardel, 1997a, pp. 39-40): por um lado, pelo “artefacto”; e, por outro, pelo «esquema».

Um artefacto (artefacto, uma parte de um artefacto ou de um conjunto de artefactos) pode ser material, cognitivo, psicológico ou semiótico; e pode ter sido produzido pelo sujeito ou por outros (Rabardel, 1997a, p. 39, 1995).

Um esquema, por seu turno, pode ser definido como um organizador da acção dos sujeitos e corresponde aos aspectos invariantes das acções de determinados tipos de situações conhecidas (Rabardel, 1995, p. 112). Este conceito de esquema é tomado de empréstimo à teoria de Piaget e enriquecido, mormente, com os contributos de Vergnaud (Rabardel, 1995, p. 87). Para Piaget, os esquemas constituem-se como

os meios de que o sujeito pode dispor para assimilar as situações e os objectos com os quais é confrontado; por outras palavras, representam uma estrutura activa com uma importante capacidade assimiladora, incorporando as propriedades do meio exterior ao sujeito (Rabardel, 1995, p. 79). Para Vergnaud, dos esquemas fazem parte integrante, muito particularmente, uma representação – implícita ou explícita – do real, analisável em termos de objectos, de categorias em acto (propriedades e relações) e de teoremas em acto, sendo possível identificar um conjunto de invariantes operatórias. Para Vergnaud, os esquemas constituem-se, então, e também, como organizadores da actividade, ou seja, como organizações «de la conduite pour une classe de situation donnée» (1991, p. 136). O interesse da análise destas invariantes operatórias reside, segundo Rabardel, no facto de permitir identificar as características das situações efectivamente tidas em conta pelo sujeito; e isto quer em termos de situações familiares em relação às quais as invariantes operatórias estejam já constituídas quer em relação a situações em que a sua construção esteja ainda em curso. Por outras palavras, estas invariantes operatórias permitem o reconhecimento, pelo sujeito, dos elementos pertinentes da situação e a identificação de informações relativas à situação a tratar (Rabardel, 1995, p. 88), não obstante a parte significativa de implícito que existe também em cada esquema. No entanto, como igualmente sublinhado por Vergnaud, «ce qui est invariant c’est l’organisation de la conduite, non la conduite elle-même», constituindo-se o esquema como uma totalidade dinâmica

funcional, adaptando-se às características várias da situação tratada (Rabardel, 1995)

(Vergnaud, 1991). Ainda em relação aos esquemas, estes apresentam uma natureza dupla: se pertencem à esfera privada, já que o sujeito constrói os seus próprios esquemas através da sua história pessoal, pertencem também à esfera social, uma vez que os outros indivíduos participam também em tal construção, pois o sujeito não se encontra isolado.

Rabardel introduz ainda uma importante distinção: i) esquemas de utilização e ii) esquemas de actividade. Vejamos em que consistem. Os esquemas de utilização compreendem, por um lado, as actividades primeiras, principais, orientadas para o objecto da actividade, e para as quais o artefacto é um meio de realização, e, por outro, as actividades concernentes às tarefas segundas, ou seja, as relativas à gestão das características e propriedades específicas do artefacto. Estes esquemas de utilização são constituídos pelos esquemas de uso («les schèmes d’usage»), relativos às tarefas segundas, e pelos esquemas de acção instrumentada («les schèmes

d’action instrumentée»), relativos às tarefas primeiras.55 Rabardel exemplifica esta distinção com a referência a uma ultrapassagem de uma viatura por um condutor; esquema este cujos constituintes são os seguintes: i) o esquema de acção « intrumentada » integra um determinado conjunto de invariantes, tais como, designadamente, a análise da situação de molde a determinar o momento oportuno para a ultrapassagem, a indicação da intenção de ultrapassar o veículo e a mudança de trajectória do próprio veículo; ii) os constituintes dos esquemas de uso são, designadamente, a capacidade de mudar de velocidade e a de utilizar um sinal de mudança de trajectória (Rabardel, 1995, pp. 91-92). Os esquemas de actividade, atinentes à actividade colectiva instrumentada («schèmes d’activité collective instrumentée»), devem debruçar-se quer sobre a especificação dos tipos de acção, dos tipos de resultados aceitáveis, etc., quando um dado colectivo partilha um mesmo instrumento ou conujunto de instrumentos, quer sobre a própria coordenação das acções individuais e a integração dos seus resultados como contribuição à prossecução dos objectivos comuns (Rabardel, 1997a, 1995). Ainda na óptica de Rabardel, os esquemas de utilização – englobando os diferentes tipos de esquemas – encontram-se numa relação de interdependência. Esquemas de utilização estes que apresentam, de facto, e em simultâneo, e como já vimos, não só, então, uma dimensão privada, particular a cada sujeito – já que este último, ao longo da sua história particular, constrói também os seus próprios esquemas particulares – como também uma dimensão social, porque, afinal, estes mesmos esquemas são também construídos ao longo de um processo em que o sujeito não se encontra isolado e em que outros sujeitos vão também participar, através da própria partilha e da própria transmissão de esquemas (Bronckart, 1997; Bronckart, 1930/1985; Clot, 1999; Dolz, Schneuwly, & Thévenaz-Christen, ; Rabardel, 1997a, p. 40, 1995, p. 93; Santos, 2005; Schneuwly, 1987; Vygotski, 1993/1985). Em síntese, a evolução dos esquemas – a par da do próprio sujeito – ocorre através de dois distintos e complementares processos: i) um, de assimilação, podendo o sujeito aplicar os mesmos esquemas a artefactos distintos – trata-se, pois, de um processo de generalização –, e, ii) outro, de acomodação à realidade do meio exterior, aos outros esquemas (Rabardel, 1995, p. 80), podendo o sujeito operar uma transformação e uma reorganização nos esquemas que elaborou ao longo da sua história pessoal, a fim de responder às novas situações que encontra.

55Assevera Rabardel: um mesmo esquema pode assumir um estatuto de esquema de uso ou de esquema de acção instrumentada em função da situação concreta. Isto porque, precisamente, «le caractère de schème d’usage ou de schème d’action instrumenté ne réfère pas à une propriété du schème en lui-même, mais à son statut dans l’activité finalisée du sujet» (Rabardel, 1995, p. 92).

Ora, como vimos, o artefacto não é, então, e em si mesmo, um instrumento, ou, até, uma componente de um instrumento, embora possa ser instituído como tal. A instituição do artefacto como instrumento é precisamente feita pelo sujeito, que lhe arroga o estatuto de meio através do qual pode alcançar os objectivos da sua acção. Daí que um determinado artefacto possa assumir uma panóplia de estatutos instrumentais de acordo com os diferentes sujeitos, ou, inclusive, para um mesmo sujeito em função das situações particulares. Nesta óptica, afigura-se facilmente compreensível que a evolução do referido campo instrumental se repercuta nos próprios esquemas de utilização do artefacto, com o seu próprio enriquecimento e a sua própria diversificação. Esquemas de utilização estes que, de facto, então, evoluem em função da multiplicidade dos artefactos aos quais estão associados para formar um instrumento, e da diversidade dos estatutos que eles podem assumir nesta situação (1997a, p. 41). Porém, a verdade é que o sujeito encontra também, por vezes, no seu meio de acção, e em permanência, determinados artefactos dotados das propriedades imprescindíveis para serem associados a determinados esquemas de utilização, formando, desta forma, o instrumento pretendido. Um instrumento permanente é, então, precisamente, o instrumento em que há “l’association stabilisée de deux invariants […] qui, solidairement, constituent un moyen potentiel de solution, de traitement et d’action dans une situation” (Rabardel, 1997a, p. 41).

Dans le document Motivated memory in dictator games (Page 24-44)

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