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A vida das mulheres negras é permeada de histórias que envolvem os contextos sociais, políticos, econômicos, religiosos e todas as formas de culturas, que brotaram das emergências das lutas dos movimentos sociais em diferentes décadas, com o intuito da inclusão da população negra no usufruto de direitos político-sociais. A palavra, “negro/a” traz, em si, muitas implicações sociais que levam à

exclusão de africanos e afrodescendentes no Brasil sendo um termo que, em vários momentos da história, foi e é utilizado de forma pejorativa. Segundo a mesma autora, o cerne da questão está nas definições encontradas para negro e branco que, etimologicamente, supervaloriza a pele clara e define uma superposição racial e social de brancos sobre pretos (GOMES, 1995).

Ser negra no Brasil é possuir várias experiências de enfrentamentos. É não conformar-se com o que está posto social e politicamente e permanecer nas metas e nas contradições, entre negar-se e afirmar-se nas suas origens etnicorraciais (GOMES, 1995).

Para Silva (1998), o que se quer com esta questão é que as mulheres negras, como conhecedoras de suas realidades, possam dar voz às vozes caladas das mulheres negras invisíveis nos diversos contextos sociais.

Desse modo, buscam-se críticas mais intensas sobre as realidades em que estão inseridas e o empreendimento de ações de ajuda mútua no sentido do resgate da dignidade. Muitas dessas mulheres não conhecem seus direitos e nem mesmo desconfiam, que vivem sendo estereotipadas, discriminadas e tratadas preconceituosamente.

Silva (1998), fala em superar a invisibilidade imposta aos descendentes de africanos nas diversas esferas da vida no Estado Nacional.

Já Silva (2009), ao tratar da história de algumas brasileiras negras na diáspora (dispersão dos africanos e seus descendentes pelo mundo), refere-se sobre quais lembranças estas mulheres podem trazer em suas memórias. Analisando o contexto histórico-social retratado acima, a autora, ressalta a fortaleza do afrodescendente:

Um breve olhar na história das mulheres negras revela diferentes marcos e fontes a considerar, ainda mais quando se pretende abordar a organização social de mulheres e homens negros no Brasil. [...] Deixados à margem das benesses advindas destes dois fatos históricos e, por muitos anos, do processo decisório nacional, mulheres e homens negros organizaram-se e reagiram apesar das diferentes discriminações. (SILVA, 2009, p.10).

Neste ativismo negro, as mulheres negras, tem se destacado com especificidades e dinamismos na participação e organização de grupos, atos políticos e na diversidade da gestão pública. O movimento de mulheres negras se revigorou nos embates contra a desigualdade racial e sexual ocupando pautas político-sociais.

Estas resistências têm seu ponto de partida nas ações realizadas pelo movimento negro e, em especial, pelo movimento de mulheres negras. No artigo “Mulher Negra e o direito à cidadania: Relações Raciais e de Gênero” (GARCIA, 2012), ao relatar que os estudos empreendidos sobre, com e para a população negra e, em particular atenção para a mulher negra, têm esclarecido sobre as reais necessidades de elaboração de políticas públicas direcionadas a este público reafirmando, assim, que várias mulheres negras estão inseridas em “movimentos feministas e antirracistas”, tanto nos movimentos de mulheres nas cidades quanto no campo (“Mulheres negras e movimentos negros”) gerando com isto, participação efetiva com o olhar das Ciências Sociais e provocando a sociedade civil e governantes, no reforço das “políticas públicas” e ações que se voltem para as condições das mulheres e, em especial, para as mulheres negras por estas estarem em condição de subalternidade em relação aos homens e por serem vitimizadas, mais que qualquer outro grupo, pelo “racismo e classismo” que atinge a base piramidal da sociedade.

Segundo Garcia (2012, p.144) no contexto nordestino como em outras regiões no Brasil, há “um silêncio sobre as mulheres em geral e as mulheres negras em particular.” Com isto, torna-se a mulher negra socialmente invisível e marginalizada em uma diversidade de contextos urbanos. No entanto, esta marginalização da população negra feminina não pode ser tomada como regra geral, visto que, há os destaques de mulheres negras na política partidária, nas políticas de organizações sociais, nos movimentos culturais.

Nesse sentido, Silva (2009) apresenta alguns nomes de mulheres negras que compuseram e são referências para os movimentos sociais do contexto nacional: Lélia Gonzáles, Pedrina de Deus, Maria Nascimento, Dona Eunice Cunha, Nair Araújo, Antonieta de Barros e afirma ter sido o Movimento de Mulheres Negras, crucial para a orientação da vida dessas mulheres e de seus descendentes, frente aos desafios apresentados nas diversas circunstâncias da história social.

Nessa perspectiva, Sueli Carneiro (2003, p.52), enfatiza que:

Em geral, a unidade na luta das mulheres em nossas sociedades não depende apenas da nossa capacidade de superar as desigualdades geradas pela histórica da hegemonia masculina, mas exige, também, a superação de ideologias complementares desse sistema de opressão, como é o caso do racismo.

O racismo torna-se meio social e institucional com marca indelével que inferioriza o povo negro e, em relação às mulheres negras, assume particularidades que dividem as mulheres em mais e menos privilegiadas, como é o caso de mulheres brancas em detrimento das mulheres negras. Nesse entendimento, há o embate para superar a violência de “gênero e de raça” na diversidade social em território brasileiro.

Sobre uma ótica feminista em que o novo se apresenta para integralizar as pendências sociopolíticas devidas aos afrodescendentes, à junção das correntes tradicionais dos movimentos negros, dentre estas, as conjunturas dos “movimentos de mulheres”, confirma o surgimento de uma política identitária própria do ser mulher.

A concepção de Carneiro (2003) se volta para o movimento de mulheres negras contemporâneo, que apresenta em um panorama político os contrassensos decorrentes da associação de “raça, classe e gênero”, que fomenta o compêndio de suas reivindicações históricas, proclamadas nos e pelos “movimentos negros e de mulheres brasileiras”, “enegrecendo” a ala das exigências femininas, colocando-as de pronto, como representação legítima na composição total das mulheres no Brasil, e por outro lado, suscitando a “feminização” dos argumentos e pleitos do movimento negro.

4.3 Gênese e desempenho do movimento negro no Ceará: um olhar sobre a

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