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Discussion: Toward a Case Based Reasoning System implemented in a multiagent context

As transformações decorrentes do processo da reforma psiquiátrica foram e são, de certa forma, responsáveis por diversas experiências, vividas pelas pessoas que direta ou indiretamente se relacionam com o campo da saúde mental bem como pela sociedade como um todo. Tendo como proposta a transformação cultural no que diz respeito à relação da sociedade com a “loucura”, tal processo motivou, incitou e desencadeou reflexões (contrárias ou favoráveis ao mesmo) por parte das pessoas. Mesmo aquelas pessoas que não se veem envolvidas diretamente neste processo tem algum comentário a fazer sobre tais transformações.

Para a construção deste trabalho tomei como referência a experiência dos sujeitos que participaram do processo da reforma psiquiátrica na condição de “usuárias” e “usuários”, entendendo como sugerido por Joan Scott (1999) que

Não são os indivíduos que têm experiência, mas os sujeitos é que são constituídos através da experiência. A experiência, de acordo com essa definição, torna-se, não a origem de nossa explicação, não a evidência autorizada (porque vista ou sentida) que fundamenta o conhecimento, mas sim aquilo que buscamos explicar, aquilo sobre o qual se produz conhecimento. (idem, p.27)

Foram inúmeras as experiências que pude compartilhar com meus interlocutores nesta pesquisa, através de suas narrativas como também nas observações que fiz durante as atividades que participei. Elas dizem respeito a experiências e trajetórias marcadas por algum tipo de “crise” que variaram em seus contextos, mas que se aproximaram nas suas resoluções. O que as aproximava era o fato de terem como “resolução” a procura ou encaminhamento para algum tipo de serviço de saúde, em geral, saúde mental.

Dizer que suas trajetórias e experiências são marcadas por algum tipo de “crise” não significa dizer que estas necessariamente são centrais ou definidoras das mesmas, mas sim que desencadearam acontecimentos relacionados ao campo da saúde mental como a procura por algum tipo de resolução das mesmas. A “crise” de que falo aqui se trata de um momento em que algum tipo de sofrimento, da ordem da angústia, tornou-se intolerável. Como disse S. Adão, enquanto me contava sobre sua vida: “Estudava assim, naquele tempo era assim né, segundo grau, quinto grau, segundo grau, primeiro grau agora já é série né, do ginásio foi escrito. Tava estudando a sétima série do ginásio né, mas aí aconteceu assim né, fiquei assim, ruim né, em casa.”

No trabalho em que discute a doença mental como um momento de ruptura, laceração e geradora de uma transição biográfica, Cardano (2008) argumenta que ela é capaz de provocar transformações, destruição e reconstrução das pessoas que experimentam a passagem de um estado de bem estar para um estado de mal estar. Em seu estudo, desenvolvido na Itália, baseado na história de vida de quatro pessoas que passaram por esse momento, o autor mostra como a experiência do sofrimento psíquico provoca uma ruptura biográfica e, logo, a recomposição dos fragmentos que ocorre de diversas maneiras, conforme o contexto em que tais pessoas estão inseridas.

Para Cardano (2008), o contexto bem como as trajetórias de vida de tais pessoas, o modo como experimentam estes momentos de ruptura interferem no processo de reconstrução das mesmas e também na forma de confrontar tais experiências. A partir da amostra dos sujeitos da pesquisa o autor afirma que aquelas pessoas que escolheram ou a quem foi imposto o tratamento em um serviço público de saúde mental mostram uma maior adesão ao “papel” de paciente psiquiátrico e diz:

(...) a maior parte deles aceitou delegar ao psiquiatra o controle dos seus distúrbios, mostrando uma boa adesão farmacológica junto

com um comportamento substancialmente

positivo nos confrontos com as instituições psiquiátricas. Isto se relaciona com uma representação da própria diversidade geralmente relacionada com desabilidades, com danos; uma disposição que se entende só pela diferença, relacionando os relatos recolhidos neste estudo com aqueles que provem de contextos sociais e culturais de outros gêneros.73 (idem, p.127) A narração destes sujeitos confrontados com aquelas pessoas que não escolheram, buscaram ou lhes foi imposto o tratamento em um serviço psiquiátrico, ou seja, que participavam de contextos culturais e sociais diferentes do psiquiátrico - e nesse ponto o autor faz referência aos movimentos dos Survivors of mental health [Sobreviventes da saúde mental], desenvolvido especialmente nos países de língua inglesa, bem como ao Movimento de Ouvidores de Vozes, nascido na Holanda e desenvolvido no Reino Unido, na Itália e outros países - pareciam desenvolver um senso crítico com relação às instituições psiquiátricas e uma leitura de suas experiências não como desvio, mas como uma forma diferente de habilidade.

No contexto brasileiro, tanto conforme os dados desta pesquisa como de outros estudos como o da pesquisa Gênero, subjetividade e saúde mental: políticas públicas, ativismo e experiências sociais, a “adesão ao papel” ou o investimento da roupa de louco como aqui seria mais apropriado denominar, é precária e ocorre concomitantemente a “adesão” a outros modelos interpretativos. Ao mesmo tempo em que a pessoa se investe da roupa de “paciente” ou “louco” nos serviços de

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(...) la più parte di loro ha accettato di afidare allo pischiatra il controllo dei propri disturbi, mostrando una buona compliance farmacologica unita a un atteggiamento sostanzialmente positivo nei confronti delle istituzione psichiatriche. Ciò si lega a una rappresentazione della propria diversità per lo più in chiave di disabilità, di menomazione; una disposizione che si coglie solo per differenza, accostando le testimonianze raccolte con questo studio a quelle che provengono da contesti sociali e culturali di tutt’altro genere. (idem, p.127)

saúde mental, onde muitas vezes tal investimento é necessário para as negociações e reivindicações próprias destes espaços, fora dali ela também se investe de outras roupagens necessárias aos demais espaços nos quais circula e, em muitos dos quais, também busca alívio em seus momentos de ruptura.

O que se poderia afirmar aqui é que no contexto da reforma psiquiátrica brasileira, dentre todas as possibilidades que os sujeitos têm de investir-se desta ou daquela forma, o que se percebe é a preponderância do modelo biomédico sobre os demais, talvez pelas próprias características deste e da cultura da qual faz parte. Não apenas pelo fato das pessoas “aderirem” (ainda que precariamente e/ ou parcialmente) a este sistema de crenças e valores, mas porque faz parte de um regime de subjetivação que impera no contemporâneo.

Para Lobosque (2011), o conjunto das transformações geradas pela reforma psiquiátrica brasileira deve ser pensado a partir das experiências com a loucura e as questões geradas por ela, sendo esta a principal motivação de todo o processo. Para a autora

Tal experiência [com a loucura], não

consideramos apenas, ou essencialmente, como perturbações cerebrais ou psicológicas daqueles que a vivenciam, mas como um risco da condição humana: um certo impasse da dimensão ficcional que necessariamente constitui nossa forma de pensar e de conhecer. Inventamos o pensamento, a linguagem... e eis que, de repente, essa invenção deixa de ser socialmente partilhada para assumir o caráter solitário e intransmissível daquilo que a psicopatologia denomina como neologismo, delírio, estereotipia.” (idem, p.4590)

Tais experiências poderiam ser analisadas aqui a partir de perspectivas variadas, no entanto a proposta neste trabalho foi compreendê-las de um ângulo que privilegiasse os sujeitos que por algum motivo utilizaram os serviços de saúde mental por entender que esse lugar ocupado por eles pode favorecer uma análise crítica muito enriquecedora do que temos chamado e reconhecido como o processo da reforma psiquiátrica.

Digo o processo de reforma psiquiátrica tal como o chamamos e o reconhecemos pois ao considerar a perspectiva ou ponto de vista dos que

aqui chamei de experientes sobre suas experiências de modo simétrico ao nosso, temos a possibilidade de vislumbrar não apenas uma outra perspectiva sobre um mesmo processo mas, sobretudo, outros processos.

Não se trata de reificar um lugar comum e estático reservado a estas pessoas, pois como foi percebido no desenvolvimento da pesquisa, os lugares são relacionais, contingenciais e se constroem e se ocupam das mais diferentes maneiras, compondo um certo movimento “caleidoscópico” decorrentes das relações e negociações dos sujeitos.

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