Cysteine:UBI (molar ratio)
5. DISCUSSION AND CONCLUSION
Em uma pesquisa de Tese é imprescindível que o pesquisador elucide a postura ontológica adotada, ou seja, defina as pressuposições feitas sobre a natureza da realidade, bem como explicite a epistemologia que orientou o seu estudo (pressupostos sobre a natureza do conhecimento). Ademais, concorda-se com Closs (2009) que a escolha da abordagem metodológica de uma pesquisa deve estar em consonância com os pressupostos ontológicos e epistemológicos da posição paradigmática adotada no estudo. Diante destas colocações evidencia-se a importância de descrever acerca destes aspectos.
No que concerne à ontologia, Burrell e Morgan (1979) destacam que esta diz respeito às suposições que se referem à essência dos fenômenos sobre a investigação. Os autores complementam afirmando que os cientistas sociais deparam-se com uma questão ontológica básica: se a realidade investigada é externa ao indivíduo ou se é produto de sua consciência.
Burrell e Morgan (1979) sugerem que o pesquisador, de acordo como irá se posicionar, pode interpretar a realidade pautado em uma abordagem subjetivista ou em uma abordagem objetivista. Sendo assim, para os autores, imperam os seguintes questionamentos: “Whether reality is of an objective nature, or the product of individual cognition; whether reality is a given out there in the world or the product of one’s mind”38 (BURRELL; MORGAN, 1979, p. 1).
Associado com a questão ontológica, tem-se uma segunda maneira de realizar as análises, baseando-se em uma natureza epistemológica. Há, portanto, suposições sobre
38 Tradução própria: Se a realidade é oriunda de uma natureza objetiva, ou é produto da cognição individual; se a
diferentes níveis de conhecimento. Ou seja, sobre como uma pessoa pode começar a compreender o mundo e a comunicar isto como conhecimento para outros indivíduos. Assim, Burrell e Morgan (1979, p. 1) destacam que “these assumptions entail ideas, for example, about what forms of knowledge can be obtained, and how one can sort out what is to be regarded as true from what is to be regarded as false”39. Tem-se, portanto, um continuum epistemológico que vai desde um positivismo, pautado em uma postura objetiva da ciência social até um anti-positivismo sustentado por uma posição subjetiva de fazer ciência. A figura abaixo sintetiza estas e outras colocações de Burrell e Morgan (1979), as quais serão tratadas em seguida.
Figura 13 – As Dimensões Subjetivas e Objetivas de Pesquisa. Fonte: adaptado de Burrell e Morgan (1979, p. 3)
Vergara e Caldas (2005), ao explicarem estas posições extremas discutidas por Burrell e Morgan (1979) assinalam que a abordagem objetivista percebe o mundo sob uma perspectiva realista, tendo uma visão determinística da natureza humana e buscam identificar relações entre variáveis, estabelecer e testar hipóteses, utilizar critérios probabilísticos para a definição de amostras, usar instrumentos estruturados para a coleta de dados e técnicas estatísticas para generalizações. Já a abordagem subjetivista parte da “premissa de que a realidade última do universo repousa no espírito, na idéia, mais do que na percepção sensorial” (VERGARA; CALDAS, 2005, p. 68). Para tanto, contemplam a visão de mundo dos sujeitos, definem os investigados intencionalmente, selecionados por tipicidade ou por acessibilidade, obtêm os dados por meio de técnicas pouco estruturadas e os tratam por meio
39 Tradução própria: estas suposições envolvem idéias, por exemplo, sobre que formas de conhecimento podem
ser obtidas, e como um pode externalizar o que deve ser considerado como verdadeiro e o que pode ser considerado como falso.
de análise de cunho interpretativo, sendo que os resultados obtidos não são generalizáveis. Diante das explanações supracitadas, destaca-se que esta Tese tem um cunho subjetivista por enquadrar-se dentro dos postulados apregoados por esta abordagem.
Referente às questões Ontológicas, para Burrell e Morgan (1979) a abordagem objetivista considera que o mundo social externo às cognições do indivíduo é um mundo real, feito de duras, tangíveis e imutáveis estruturas. É pautado, portanto, em um realismo, para o qual o mundo social existe independentemente de apreciações individuais sobre ele.
Porém, na abordagem subjetivista o nominalismo não acredita que exista alguma estrutura real a respeito do mundo. Ou seja, as realidades não são externas e são construídas em planos e locais e específicos. Assim, há uma crença na existência não de apenas de uma, mas de múltiplas realidades construídas e modificadas socialmente. Aqui se enfatiza que autores como Closs (2009) utilizam, ao invés da terminologia nominalismo, o termo relativismo para explicar a mesma postura ontológica. Por fim, é importante destacar a visão de Burrell e Morgan (1979, p. 4) acerca do nominalismo “The nominalist position revolves around the assumption that the social world external to individual cognition is made up of nothing more than names, concepts and labels which are used to structure reality”40.
No que se concerne à Epistemologia, Burrell e Morgan (1979) assinalam que é possível adotar uma postura positivista a qual busca, para explicar e prever o que acontece no mundo social, regularidades e relacionamentos causais entre seus elementos constitutivos. A postura positivista é mais tradicional e corriqueira nas ciências naturais. Em outro extremo é plausível encontrar a epistemologia do anti-positivismo, para a qual o mundo é essencialmente relativístico e somente pode ser compreendido a partir do ponto de vista dos indivíduos diretamente envolvidos nas atividades que estão sendo estudadas.
A respeito da Natureza Humana, Burrell e Morgan (1979) esclarecem que este debate
gira em torno da questão sobre qual modelo de homem é refletido em teorias sociais-científicas. Além disto, ao entender a natureza humana, é possível verificar qual a
relação das pessoas com a sociedade na qual elas vivem. Assim, em um extremo, identifica-se a visão determinista que visualiza o homem e suas atividades como sendo completamente determinadas pela situação ou pelo ambiente em que está inserido. Já no voluntarismo, o ser humano é considerado autônomo e livre.
40 Tradução própria: a posição do nominalista gira em torno da suposição de que o mundo social é externo à
cognição individual está composto de nada mais do que os nomes, os conceitos e as regras que são usados para estruturar a realidade.
Por último, ao debater sobre a Metodologia, Burrell e Morgan (1979) explicam que a visão ideográfica para a ciência social é baseada no pensamento de que somente é possível compreender o mundo social a partir da obtenção em primeira mão do conhecimento do(s) sujeito(s) que está(ão) sendo investigado(s). De acordo com os autores, “it thus places considerable stress upon getting close to one's subject and exploring its details background and life history”41 (BURRELL; MORGAN, 1979, p. 6). O entendimento, portanto, se refere à vivência dos atores pesquisados. E a visão nomotética enfatiza a importância de basear a pesquisa em protocolos e técnicas sistemáticos.
Respaldando-se em todas as definições descritas, baseadas na importante obra de Burrell e Morgan (1979), indica-se as seguintes posturas assumidas nesta Tese de Doutorado:
Abordagem Subjetivista
Ontologia Nominalismo
Epistemologia Anti-positivismo
Natureza Humana Voluntarismo
Metodologia Ideográfica
É mister mencionar que o objetivo geral desta Tese, ou seja, identificar e analisar como profissionais que realizaram a intramobilidade em função de suas carreiras percebem e vivenciam a interculturalidade intranacional, também direcionou estas escolhas, condizentes, portanto, ao propósito deste estudo.
Burrell e Morgan (1979) ainda elencam quatro paradigmas sociológicos, os quais estão baseados tanto no subjetivismo quanto no objetivismo. Os paradigmas relacionados ao objetivismo são o funcionalista e o estruturalista radical. Já os paradigmas sociológicos apontados pelos autores como pertencentes à abordagem subjetivista são interpretacionista e o humanista radical.
A presente Tese esta pautada no interpretacionismo, por entender que este paradigma sociológico apresenta uma visão subjetiva. Além disso, a perspectiva interpretacionista, de acordo com Vergara e Caldas (2005), requer que o pesquisador descreva o fenômeno de forma interpretativa. Deste modo, Burrel e Morgan (1979, p. 28) complementam:
41 Tradução própria: Coloca esforço considerável em cima aproximação acerca de determinado assunto,
The interpretive paradigm is informed by a concern to understand the world at the level of subjective experience. It seeks explanation within the realm of individual consciousness and subjectivity, within the frame of reference of the participant as opposed to the observer of action42.
Findas as considerações sobre as questões ontológicas e epistemológicas da presente Tese, bem como do paradigma que orientou a análise dos achados em campo, cabe salientar que, uma vez assumidas estas escolhas, foi necessário a realização de uma pesquisa de caráter qualitativo. Logo, a seguir serão apresentados alguns aspectos inerentes ao desenvolvimento da pesquisa qualitativa.
3.2 DELINEAMENTO DA PESQUISA
Esta Tese classifica-se como um estudo qualitativo. Segundo Minayo (1999), a pesquisa qualitativa visa a responder a questões muito particulares, preocupando-se, nas Ciências Sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Trabalha-se, assim, com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes. Isso, portanto, corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos.
Durante muito tempo, estudiosos quantitativos renegaram as pesquisas qualitativas (DENZIN; LINCOLN, 2005). Porém, as pesquisas qualitativas ganharam espaço no campo das ciências sociais nos últimos anos e, a hegemonia atribuída às pesquisas quantitativas, paulatinamente cederam espaço a outras formas de interpretar a realidade investigada.
Contudo, isto não significa dizer que estas duas formas de realizar pesquisa científica sejam antagônicas. Ao contrário. Em muitos estudos, devem ser entendidas como formas complementares, visto que a partir de posicionamentos qualitativos e quantitativos a “comparação de resultados oriundos de investigações que utilizam métodos diferentes sobre o mesmo problema pode contribuir para enriquecer sobremaneira o conhecimento sobre a administração e organizações” (VIEIRA, 2006, p. 16). Diante destas colocações, ressalta-se que esta Tese suportou-se apenas na abordagem qualitativa, pois utilizou técnicas qualitativas de coleta e análise de dados, uma vez que pretendeu compreender a vivência e percepção de profissionais no que diz respeito à interculturalidade intranacional.
42 Tradução própria: O paradigma interpretativo é informado por uma dificuldade de compreender o mundo em
nível de experiência subjetiva. Procura a explanação dentro da consciência e das subjetividades individuais, dentro do esquema de referência do participante, ao contrário do observador da ação.