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Para as trabalhadoras sócias-fundadoras, o CMTR(PI) foi praticamente o primeiro grupo específico de mulheres do qual elas participaram. Por meio dele, começaram a se integrar em outros grupos sociais, como sindicato, partido político e outras associações. No momento da pesquisa, 22 delas faziam parte do sindicato dos trabalhadores e trabalhadoras rurais; 19 estavam filiadas ao Partido dos Trabalhadores; 21 declararam participar ativamente das CEB; 20 participavam de diferentes associações; seis participam de outros movimentos sociais, como MST, MMQCB, Movimento da Consciência Negra etc.

Em relação aos conselhos, destaco sua participação no CEDH, nos conselhos municipal e escolar. Uma delas chegou a fundar e coordenar uma ONG no seu município.

Tabela 12: Participação das entrevistadas em outras organizações, segundo participação no movimento

Organização Mulheres ligadas à

coordenação

Mulheres ligadas aos grupos de base

Total

Sindicato dos trabalhadores e trabalhadoras 12 10 22 ONG 02 - 02 Partido político 12 07 19 Conselhos 04 - 4 CEB 12 09 21 Associações diversas 10 10 20

Outros movimentos sociais 04 02 06

TOTAL 56 38 9442

Convém ressaltar que elas exerciam participação ativa, ou seja, muitas vezes até liderando tais organizações, segundo apontam os dados da tabela a seguir. Apesar de todas já haverem exercido algum tipo de liderança nos espaços de participação (como se observa na

42 A quantidade de mulheres consideradas neste estudo, conforme mencionado anteriormente, é de 23; entretanto,

tabela 13), as que estavam na coordenação do CMTR (PI) pareciam manifestar nível maior de engajamento, conforme sugerem os dados abaixo, inclusive na política partidária, embora só uma tenha conseguido eleger-se em 2008.

Tabela 13: Funções desenvolvidas pelas entrevistadas nas diferentes organizações, segundo participação no movimento

Liderança Mulheres ligadas à

coordenação

Mulheres ligadas aos grupos de base

Total

Diretoria sindical 05 02 07

Presidente de associação 05 05 10

Candidata a cargo político-

partidário 05 1 05

Coordenação do grupo de

produção 03 05 08

CEB 08 06 14

Secretaria Especial de Gênero

no Estado 01 01

Diretora de ONG 01 01

TOTAL 28 19 46

43

Se compararmos a realidade referente à participação das trabalhadoras atualmente com aquela narrada no capítulo 2, quando da criação do CMTR (PI), na qual elas estavam presentes apenas nas reuniões da CPT, e ainda, sem voz ativa, constata-se grande avanço no processo participativo das mulheres entrevistadas. Os dados na tabela acima dizem respeito a sua participação não apenas no momento da pesquisa; elas mencionaram as funções exercidas em outros grupos desde sua entrada no CMTR (PI). Apesar disso, a atuação delas como liderança nos espaços político-partidários e na diretoria sindical (instâncias em que há maior probabilidade de provocar mudanças), tem sido relativamente pequena – menor ainda para as mulheres engajadas nos grupos na base, como sugerem os números da tabela 13.

Os motivos que impulsionaram a participação das entrevistadas para luta coletiva se relacionavam à sua condição de mulher, ao trabalho e sobrevivência no rural, qual descrito na tabela 14.

43 Idem.

Tabela 14: Motivações para o envolvimento no processo coletivo segundo participação no movimento

Motivação Mulheres ligadas à coordenação

Mulheres ligadas aos grupos de base

Total

Luta pelo reconhecimento da

mulher 12 09 19

Conquista de direitos iguais 06 8 14

Conquista da terra 06 02 08

Desejo de se organizar e

participar 04 02 06

Melhoria de vida 02 02 04

TOTAL 30 23 51

As respostas das mulheres se relacionavam à busca pelo reconhecimento de gênero e pelo resgate dos direitos sociais, como sugere a questão central levantada no início deste trabalho. Em outras palavras, quando elas se referiram à busca pelo reconhecimento, da mulher, conquista de igualdade nos direitos, condição de organização e melhoria de vida, estavam apontando que a conquista dos direitos não seria efetivada sem que houvesse o reconhecimento, delas como sujeito de direito, sem que houvesse igualmente mudanças nas relações sociais e, consequentemente na organização das relações de poder ( SCOTT, 1995).

Finalizando a identificação das entrevistadas, perguntei sobre as principais dificuldades enfrentadas para participarem ativamente nos espaços onde, naquele momento, se encontravam. As repostas indicaram questões decorrentes do enfrentamento ou da luta pela superação das condições que as distanciavam do exercício da cidadania, ou seja, as questões relativas à condição da mulher, à pobreza e à ausência de serviços essenciais, como a educação, dentre outros.

Tabela 15: Dificuldades enfrentadas pelas mulheres, segundo participação no movimento

Dificuldades Mulheres ligadas à coordenação

Mulheres ligadas aos grupos de base

Total Pobreza 05 04 9 Machismo na família / na sociedade 06 05 11 Discriminação da trabalhadora rural 1 02 03 TOTAL 12 11 23

As respostas referentes às dificuldades enfrentadas pelas mulheres do CMTR(PI), por um lado, indicaram a pertinência da negação das mulheres como sujeito de direito quando 11 delas se referiram a certas dificuldades, como machismo na família e na sociedade. Isso implica dizer que elas continuavam, sentindo-se inferiorizadas pela condição de mulher, tanto no âmbito familiar quanto no da sociedade. Essa realidade vivenciada por elas, associada às condições de exclusão e ao empobrecimento, mencionado por nove delas, movia as mulheres a investirem sempre em ações coletivas que buscassem a superação de tais carências, conforme se pode constatar no capítulo 2.

De certo modo, o que elas colocaram como dificuldade para a sua participação, como a pobreza e o baixo índice de escolaridade, confirma o que se constatou indicadores nos sociais enunciados anteriormente, ou seja, elevado grau de exclusão social nos municípios onde moravam as mulheres entrevistadas.

Pelo exposto, não se percebe muita diferença entre as respostas das integrantes da coordenação e as dos grupos de base. Porém, na convivência com elas nas famílias, percebi que, em algumas, havia mais divisão das tarefas na casa do que em outras. Essa realidade foi mais observada entre as sócias- fundadoras, que pareciam ostentar mais autonomia em relação a sua família.

Embora as condições sociopolítica e econômica vividas pelas entrevistadas apontassem para uma realidade mesclada de discriminação e exclusão social, não significa que não tenha havido mudanças. De acordo com Melucci (2001), a simples existência dos novos movimentos sociais já afeta os códigos culturais e os sistemas simbólicos dominantes. Diante do exposto, no

próximo capítulo, analiso as conquistas que, na representação das mulheres, significaram avanço nas conquistas da cidadania, tomando como eixo a noção de reconhecimento e distribuição no processo de construção da cidadania das mulheres.

CAPÍTULO 6

AS MULHERES TRABALHADORAS RURAIS DO CMTR (PI) : ENTRE O