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Discrete intuition

1. Introduction

1.5. Discrete intuition

A descrição do sistema de manejo visa apresentar as técnicas de manejo empregadas atualmente, sem se ater a especificidades de cada tipo de área de cultivo (parreiral, roça, quintal), explorando o uso de insumos agrícolas (agroquímicos e adubos), tipos de tração, maquinários, e outras técnicas.

Em relação ao uso da terra, foram criadas duas categorias para expressar os tipos de sistema relatados: intensivo, no qual não há período de pousio da terra após período de cultivo contínuo, e rotação das áreas de cultivo, no qual as áreas cultivadas permanecem por períodos prolongados para a recuperação da fertilidade do solo (Figura 8).

Figura 8: Tipos de uso da terra citados na entrevista semiestruturada (n=64). 90,5% 8% 1,5% 0 10 20 30 40 50 60

Intensivo Intensivo e Rotação Rotação

C

it

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Houve, inclusive, relatos da prática de ambos os sistemas numa mesma propriedade. Atualmente o sistema mais usual (n=57) é o de uso intensivo. O uso intensivo de uma mesma área foi associado à proibição legal da abertura de novas áreas para plantio, que implicam na supressão de capoeiras, ou seja, vegetação em estágios medianos a avançados de regeneração natural. No mesmo sentido, houve referência ao aumento das áreas de cobertura florestal nativa como um processo relacionado ao controle da supressão da vegetação para novas áreas de plantio.

O relevo acidentado, no qual predominam áreas íngremes de encostas, também foi apontado como um fator influente pela pouca disponibilidade de áreas para revezamento.

“Sempre a mesma por que não pode mais virar capoeira... Hoje tem muito mais mato em relação ao que tinha há 60 anos atrás.” (♂ 62 anos, Cancelas)

Apenas um entrevistado relatou realizar exclusivamente o sistema de rotação de áreas, enquanto que os demais (n=5) citaram desenvolver ambos os tipos de uso da terra. Os comentários a respeito dos critérios de escolha de novas áreas se referiram a disponibilidade de áreas longe de recursos hídricos e áreas em pousio. O tempo de pousio destas variou entre 1 e 3 anos e foi associada à dificuldade do colaborador usar todas as áreas de roça já abertas, indicando que o pousio, neste caso, é consequência da limitação da força de trabalho. Também foi relatado a abertura de novas áreas em estágio médio- avançado de regeneração, capoeirão, a cada 4 ou 5 anos, fazendo uso da madeira derrubada para lenha. O tempo de uso da terra no sistema de rotação variou de 2 a 3 anos e as decisões tomadas para a abertura de novas áreas é pautada em motivos variados, havendo relatos de abertura de áreas após 8 anos de pousio e de expansão da área atual através das supressão das margens de roças.

Em algumas propriedades a rotação é feita apenas nas áreas onde são cultivadas espécies para consumo próprio, e o uso intensivo é feito onde são cultivadas espécies em maior quantidade, normalmente com finalidade de geração de renda, como o fumo e o milho. Entretanto, não se nota nenhum padrão na região em relação à rotatividade de áreas cultivadas, tratando-se de uma prática menos usual.

A rotação de culturas é uma prática associada ao uso intensivo da terra, e foi citada por 56,25% dos entrevistados. A alternância de

cultura mais citada foi do fumo para milho ou feijão (72,2%)12, mas também com espécies olerícolas, milho e batata-doce. Entre as culturas produzidas em roças para consumo relatou-se a alternância entre aipim e batata-doce, milho e olerícolas.

Todas as unidades familiares, exceto uma, possuem animais de criação (Anexo 10). As principais espécies criadas são bovinos, suínos e galinhas, respectivamente. Também são significativas as criações de abelha e peixes. A venda dos animais e seus produtos é expressiva (51,6%), destacando-se mel, queijo, ovos, suínos, bovinos e galinhas. No entanto, na maioria das vezes ressaltam que são vendas eventuais, informais ou de excedentes. O mel destaca-se como produto com maior potencial de venda formal. O uso de animais para tração também é expressivo (45,3%) e está relacionado ao relevo da região que impossibilita o uso de tratores em diversas situações, sendo a tração animal muitas vezes a única opção viável.

O preparo da terra, o plantio e a manutenção das unidades de produção

As unidades de produção foram caracterizadas quanto ao seu tipo e extensão (Anexo11) sendo reunidas em 5 classes distintas: roça, reflorestamento, quintal ou horta e cultivos perenes.

Os termos quintal e horta foram usados como sinônimos, pois não foi possível notar uma diferenciação clara e consensuada entre as designações feitas pelos colaboradores. As áreas se caracterizam pela proximidade às residências, apresentam tamanho variando desde pequenos canteiros até áreas maiores (máx. 1ha e mín. 20m²) e, em geral, grande diversidade de espécies, anuais, olerícolas e perenes, cultivadas em pequenas quantidades para o suprimento das necessidades da família.

Segundo Rutherberg (apud Netting, 1993, p.54) os quintais podem ser caracterizados por diversos aspectos, nem sempre encontrados simultaneamente, incluindo além dos pontos descritos acima, também o uso intensivo da terra, cultivo diversas vezes ao ano,

12

Programa Plante Milho & Feijão Após a Colheita do Fumo incentiva a alternância de cultura. É promovido pela parceria entre governo do estado de Santa Catarina, Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Santa Catarina (Fetaesc) e Souza Cruz. Disponível em: http://www.fetaesc.org.br/wp- content/uploads/2013/02/jornal-5-curvas.pdf

uso de ferramentas manuais e consórcio entre plantas perenes, anuais e de ciclo curto. O uso de herbicidas nas áreas de quintal foi relatado por uma minoria das unidades familiares visitadas.

Figura 9: Exemplos de diferentes tipos de quintais existentes nas unidades familiares visitadas (esq.). Propriedade de fumicultores em transição para sistema orgânico (Baixo Capivara) (dir.). Propriedade de colaboradores aposentados praticantes de agricultura para autossustento (Trombudo).

Muitas vezes essas áreas encontram-se cercadas delimitando o espaço de cultivo e é comum ocuparem os arredores da casa, ou as proximidades dos estábulos dos animais. Outros tipos de quintais comumente observados nas famílias fumicultoras são áreas relativamente maiores nas quais também se encontram os canteiros de muda fumo.

Em relação às épocas de preparo e plantio das unidades de produção (roças e parreirais), foram registradas atividades para todos os meses do ano (

Figura 10). Os principais meses citados, em que ocorrem as atividades de preparo da terra para plantio foram de abril a outubro, enquanto que os principais meses de plantio foram de agosto a janeiro. Alguns relatos destacam fatores que influenciam na escolha da época de plantio, como a espécie que será cultivada, as condições climáticas de temperatura e o desenvolvimento das mudas das espécies germinadas em viveiro, como o fumo. O manejo empregado no preparo de áreas de roça também apresenta variações conforme o tipo de espécie que será cultivada como, por exemplo, o fumo, milho, ou espécies para consumo próprio e também conforme as características do ambiente, como encosta ou baixadas.

Figura 10: Meses de plantio e preparo da terra segundos as entrevistas semiestruturadas (n=64). 0 10 20 30 40 50 60 C it a çõ es Preparo Plantio

Da mesma forma, houve variação no manejo das plantações conforme as espécies cultivadas na área, por exemplo, milho, fumo e olerícolas, o relevo (brejo, encosta íngreme, baixadas) e o sistema de produção, tendo em vista que parte dos entrevistados encontra-se em transição ou desenvolvendo o manejo de base ecológica. A realização de manejo diferenciado em quintais e roças para consumo próprio foi citada por 43% dos colaboradores, destacando-se o uso de enxada, esterco produzido na propriedade e, na sua maioria, a não utilização de herbicida para preparo e capina.

O uso de adubação verde é bastante difundido na região (Anexo 12) e é feito tanto em parreirais quanto em roças. Colaboradores de 73,4% (n=47) unidades familiares relataram fazer o uso dessa técnica, sendo que 17,2% (n=11) citaram também como técnica de manejo o plantio direto. As espécies utilizadas na adubação verde são a aveia (Avena sp.), o nabo forrageiro (Raphanus sativus), a ervilhaca (Vicia sativa), o azevem (Lolium multiflorum) e o feijão-mucuna (Mucuna sp.), sendo estes dois últimos os menos frequentes e a primeira a mais usada. Outra técnica de adubação verde utilizada é a incorporação da palha do milho no solo.

A técnica de plantio direto, seja usando adubação verde seja o restante do pé de milho, é uma prática valiosa por melhorar a biodiversidade do solo, agindo na proteção contra erosão, perda de umidade e insolação (Shiki, 2013). Também, aumenta a quantidade de matéria orgânica que propicia o aumento da diversidade de seres vivos que desempenham serviços ambientais no solo e, por consequência, melhoram as condições de desenvolvimento das plantas. É uma técnica que melhora, mesmo que parcialmente, as condições de desequilíbrio causadas por monoculturas ou simplificação dos sistemas agrícolas (op. cit.).

Um estudo realizado em unidades produtivas de municípios próximos a região do Alto Vale do Rio Tijucas, testou diversas combinações de espécies para adubação verde e verificou que o consórcio de centeio, nabo forrageiro e ervilhaca apresentou efeitos positivos na produtividade, pois melhoraram a supressão de ervas daninhas, possivelmente por alelopatia, e melhora na fertilidade e qualidade do solo (Altieri et al., 2011b). Estudos como este ressaltam a importância da promoção de técnicas alternativas ao uso de insumos para o aumento da sustentabilidade dos agroecossistemas.

Apesar de ser notável o uso de técnicas que ajudam na restauração do solo, os colaboradores citaram uma grande quantidade de

agroquímicos usados durante o ciclo de cultivo anual. Foram ao todo 21 tipos especificados (Anexo13), dos quais são 12 herbicidas, 3 inseticidas e 6 fungicidas. O mais citado foi o herbicida Roundup (80,9%, n=51), somando ao todo 824 litros usados num ciclo anual de cultivo.

Também predominam o uso de adubação química, destacando- se a ureia e o adubo químico de macro elementos (Figura 11). O uso de esterco é comum pelo próprio aproveitamento dos resíduos gerados pelos animais criados nas propriedades, apesar de alguns comprarem para uso em maior quantidade. Os produtores de uva fazem uso de adubo foliar. Das unidades familiares do grupo orgânico 75% utilizam composto orgânico e muitas delas produzem seu próprio adubo através do método de compostagem, que constitui uma das ações de base das técnicas de produção de base ecológica, integrando a produção animal e vegetal, como foi apresentado na introdução do capítulo.

Figura 11: Proporção de relatos referentes aos diferentes tipos de fertilizantes citados nas entrevistas semi estruturadas (n=64) comparando os grupos orgânico e convencional. Legenda: O: grupo orgânico; C: grupo convencional.

Na agricultura biodinâmica e agroecológica a compostagem de resíduos vegetais e animais é uma etapa fundamental do ciclo de nutrientes, e a capacitação dos agricultores é feita através de trocas de experiências entre os agricultores e agricultoras, como ocorreu em diversas reuniões do grupo Associada.

0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% adubo químico

salitre salitrão adubo orgânico adubo foliar uréia O C

Nota-se que o uso de insumos químicos foi mais citado pelo grupo das unidades familiares convencionais em relação as do grupo orgânico que, por sua vez, apresentaram maior citação relativa de uso de adubo orgânico, indicando diminuição do uso de insumos químicos, como esperado no processo de transição para o sistema de manejo orgânico.

Figura 12: Composteira (sup.), preparado biodinâmico (esq.) e colaborador usando adubo orgânico na roça (esq.). (Fotos: autora)

1.5.4. Riqueza das espécies cultivadas e outras espécies presentes na