No que respeita à categoria ‘Vivência da hierarquia’, independentemente do número de alunos das escolas, a maioria dos 21 coordenadores (C) considera que há hierarquia entre os órgãos de coordenação intermédia e a liderança de topo. Nesta categoria
contabilizámos 48 unidades de registo (Anexo IX) enquadradas na subcategoria ‘Respeito pela hierarquia’, a mais representativa das opiniões emitidas por coordenadores (C), diretores (D) e coordenados (P), da qual destacamos os seguintes excertos das entrevistas aos coordenadores (C):
"Hierarquia existe. A forma como a escola está organizada, o Diretor decide" (Esc A.C5) "A maior parte das decisões são tomadas pelo diretor" "O diretor apesar de consultar, pedir opinião, faz sempre valer a sua opinião." (Esc A.C6)
"há realmente diretrizes mais específicas que vêm do topo e que nós temos de cumprir."
(Esc A.C3)
"Há sempre uma hierarquia à partida, porque as pessoas têm que respeitar as orientações." (Esc. B.C2)
"Sente-se o peso da hierarquia na escola. Acho que sim, que se sente." (Esc B.C4)
"Nós temos que ter consciência que há níveis: o diretor e nós coordenadores. Há assuntos que nós de vez em quando tentamos meter-nos, e o diretor lembra-nos: ‘Calma, vocês, abordam as questões pedagógicas, mas isso (…) sou eu que decido’." (Esc B.C6)
"As poucas das vezes que me impus foram no sentido de que eram coisas que já vinham de cima e tinham que ser assim." (Esc C.C2)
"A direção é muito hierárquica." (Esc C.C5)
"Há uma hierarquia demarcada. As pessoas reconhecem que os seus coordenadores estão hierarquicamente numa posição superior." (Esc D.C2)
Apenas 1 coordenador (C), além de referir a existência da hierarquia, reforça-a na sua pessoa, como podemos observar no seguinte excerto:
"Há uma hierarquia e tem de ser respeitada, se não for respeitada as coisas não funcionam. (…) quando aceitei, pedi para tudo passar por mim porque o hábito nesta escola era qualquer professor ir à Direção." (Esc C.C1)
Os diretores (D) também assumem uma posição hierárquica e consideram que os diferentes atores a reconhecem:
“eu não centralizo o poder em mim, mas tenho a última palavra.” (Esc A.D)
“Eu penso que as pessoas reconhecem a hierarquia, (…) a gestão tem de ser muito rigorosa, sim senhor, tenho de ser muito controlador porque nós recebemos sempre muitas informações por parte do Ministério da Educação, nós temos de (…) fazer os colegas seguir as normas do Ministério.” (Esc B.D)
“É claro que cada um tem de saber o seu lugar. (…) acho que não me veem como 'o diretor', embora reconheçam que eu sou diretor. E penso que isso é formidável.” (Esc
D.D)
A maioria dos 23 professores coordenados (P) entrevistados também revelou a mesma opinião, como a seguir se exemplifica:
“Sim. Há um peso maior da hierarquia. A hierarquia é reconhecida dentro do seu contexto institucional, mas não é isso que gera uma dinâmica de trabalho.” (Esc A.P1)
“Eu acho que há hierarquia. E que nós devemos cumprir, mais formalmente ou menos formalmente.” (Esc A.P2)
"Eu acho que é necessário haver sempre uma hierarquia na escola e nós vamos ter que ir cumprindo aquilo que é exigido. Mesmo que não se concorde." (Esc A.P4)
"Eu julgo que, desde que saiu esta nova legislação que dá plenos poderes ao diretor, que se intensificou a relação hierárquica, e que ela está assumida." (Esc. B.P1)
"(…) sabe-se quem manda." (Esc B.P3)
"Determinadas decisões são tomadas verticalmente, o diretor decide, noutro tipo de assunto há mais participação, como por exemplo os assuntos pedagógicos, tomam-se decisões horizontalmente." (Esc B.P4)
"Sente-se o peso da hierarquia." "Há determinados assuntos que nós questionamos no nosso departamento, 'mas isto não veio a departamento e já é uma decisão'!” (Esc C.P1) "sentir a hierarquia, sentimos. E eu, pessoalmente, respeito, sim senhor, são meus colegas, mas, quando estou a trabalhar, respeito." (Esc C.P3)
"eu sempre respeitei a hierarquia. Não tomo uma decisão sem informar ou, às vezes, preciso ir saber a opinião, ou se esta solução é melhor para este caso… Eu respeito sempre as hierarquias (…), vou sempre primeiro à coordenadora de Departamento." (Esc
C.P4)
"Há sempre uma hierarquia, há sempre assuntos que têm de ser tratados e respondidos perante uma hierarquia." (Esc D.P4)
"existe sempre uma hierarquia, para haver uma certa ordem. É claro que é feita de uma forma, não muito formal, digamos. Mas ela existe." (Esc D.P5)
Estes dados estão em sintonia com os dados dos questionários que revelaram que 92,87% dos coordenados das escolas até 1500 alunos, e 80,55% dos coordenados das escolas com mais de 1500 alunos responderam ‘frequentemente’ e ‘sempre’ relativamente ao item ‘Respeita a hierarquia entre níveis de liderança’. (Anexo VII, Gráfico A5)
Porém, a ‘vivência da hierarquia’ não impede que os coordenadores (C) tenham fácil acesso ao diretor e à direção em geral (subcategoria ‘Facilidade de acesso à direção’), sem cerimónias e que desenvolvam o seu trabalho em interdependência (subcategoria ‘Interdependência’), é o que sugerem os seguintes excertos das entrevistas de coordenadores das várias escolas:
“não têm propriamente uma postura de, de se fecharem.” (Esc A.C2);
“A Direção tem sempre a porta aberta." "Todos os professores vão à Direção quando precisam." (Esc B.C4);”
“esta é daquelas direções que a porta está sempre aberta. Está aberta e toda a gente entra por ali adentro." (Esc C.C2);
“Muito fácil aceder à direção. A qualquer momento abrimos a porta e entramos. Atendem toda a gente, alunos e professores.” (Esc D.C1)
Os coordenados (P) também exprimem a mesma opinião:
“Eu considero que é fácil, nunca tive qualquer problema em aceder à Direção.” (Esc
B.P2);
“É fácil aceder à direção, penso que não há entraves nenhuns.” (Esc B.P3);
“Não há um horário de atendimento como em escolas em que estive antes. Geralmente a porta está sempre aberta. (…) E isso é muito bom. Muito bom.” (Esc C.P1);
“É muito fácil aceder à Direção. É uma Direção de porta aberta. Qualquer pessoa que precise de algo, estão sempre disponíveis seja a que hora for. Não há horário de atendimento, é uma Direção de porta aberta.” (Esc C.P4);
“É fácil aceder à Direção. Eu acho que o diretor é uma pessoa bastante acessível.” (Esc
D.P1)
Também os dados do inquérito por questionário aos coordenados, revelam a mesma opinião, pois verificamos que 92,87% dos coordenados das escolas de menor número de alunos (até 1500 alunos), e 88,89% dos coordenados das escolas com maior número de alunos (mais de 1500 alunos) consideraram que o coordenador ‘frequentemente’ e ‘sempre’ ‘Acede e contacta diretamente com a direção’. (Gráfico A6)
Relativamente a esta categoria, os diretores (D) também sublinham a sua disponibilidade, porém, referem alguns pontos críticos, como a pertinência das críticas que recebem:
“É fácil aceder à direção, eles batem, entram.” (Esc A.D)
“Estamos todos no mesmo barco e, portanto, as pessoas têm o à-vontade para entrar, seja no meu gabinete, seja no gabinete da direção. (…) estamos sempre abertos a críticas. Desde que essas críticas sejam construtivas.” (Esc D.D)
No que respeita à ‘Interdependência’ no âmbito da vivência da hierarquia, item importante para caracterizar a interação que se estabelece entre os coordenadores intermédios e a liderança de topo, os coordenadores (C) proferem a seguinte opinião:
“Há um clima de perfeito à vontade, a pessoa diz o que tem que dizer, claro que tem que se escolher bem as palavras. (…) Há pelo menos uma tentativa no sentido de interdependência entre os vários níveis de liderança.” (Esc A.C1)
“A Direção vai dando determinadas diretrizes. Nós temos que cumprir com algumas situações, mas eu acho que acaba por haver liberdade de atuação. Pronto, claro que há alguma dependência mas eu acho que há alguma interdependência por outro lado.” (Esc
A.C3)
“Existe uma hierarquia.” “Mas também alguma autonomia. Não há uma dependência total.” (Esc B.C3)
“Há interdependência, as pessoas relacionam-se. Como é que hei de dizer? Quando se fala em hierarquia pensa-se muito na situação militar. Pronto, aqui não. Não falamos nesses termos de ‘mandar’, não é nisso, mas num respeito mútuo pelo trabalho que cada um desenvolve.” (Esc C.C1)
No que concerne à opinião dos coordenados (P) sobre este item, os mesmos também apontam para alguma interdependência no sentido de articulação, mas sublinham que ‘tudo é muito mais controlado’, como se exemplifica nos seguintes excertos:
“Há interdependência, mas também há uma hierarquia. Isso sem dúvida, e é cada vez mais, ainda por cima, agora, com este novo modelo, em que é tudo muito controlado, é tudo enviado para o Ministério.” (Esc A.P3)
“Há sim senhor, há articulação entre os diversos níveis de liderança, ou seja entre o diretor em interrelação com os coordenadores de departamento, entre estes e os subcoordenadores e entre estes e os docentes. Aliás, tenho uma coordenadora de departamento com quem de facto trabalho muito bem, por sua vez a coordenadora de departamento trabalha bem com o diretor e a direção.” (Esc B.P2)
“A coordenação entre a Direção e o Departamento em que eu estou inserida, acho que é muito boa.” (Esc C.P5)
Os dados dos questionários revelam que 80,96% dos coordenados das escolas de menor número de alunos (até 1500 alunos) e 69,44% dos coordenados das escolas de maior número de alunos (com mais de 1500 alunos) consideraram que o coordenador ‘frequentemente’ e ‘sempre’ ‘Trabalha com independência face à direção’. (Gráfico A7) Esta independência sugere que não há submissão face ao diretor, mas sim colaboração, como sublinhou o coordenado Esc A.P2:
“submissão, não. Não, isso não. Vai havendo uma colaboração” (Esc A.P2)
Do mesmo modo a dependência referida pelo diretor da escola A parece sugerir mais a interligação, interdependência, articulação entre os órgãos do que uma submissão:
“Todos eles estão dependentes do Diretor, toda a estrutura está dependente do Diretor, a Direção, as Diretoras adjuntas e a Subdiretora, têm funções e competências delegadas mas elas reportam-se sempre ao Diretor, que é um órgão unipessoal.” (Esc A.D)
Assim como a ‘abertura’ referida pelo diretor da escola D, aponta para a interligação, interdependência, articulação entre todos os atores da escola:
“quando eu digo que alguma coisa está mal, tenho sempre qualquer coisa em mente, o que é que eu, pessoa singular, posso fazer para melhorar, para contribuir para que a coisa fique melhor.” (Esc D.D)
A propósito da hierarquia em meio escolar, Sergiovanni (2004) recorda-nos que as escolas necessitam de uma “liderança especial, pois os profissionais escolares nem sempre reagem calorosamente a um tipo de liderança de comando baseada em hierarquias” (Sergiovanni, 2004: 173), pelo que os diferentes atores entrevistados parecem entender essa hierarquia, que reconhecem e respeitam, com ‘nuances’ diferentes: os diretores referem que toda a estrutura está dependente deles, e que dirigem a escola como um todo, os coordenadores acentuam a articulação entre os órgãos, e os professores coordenados, que dizem reconhecer e respeitar a hierarquia, referem que existe alguma autonomia e independência para trabalhar, sem submissão, mas com colaboração. Esta interpretação parece ir ao encontro da posição de Fischer (1992, citado por Barracho, 2008: 187) que considera que a vivência da hierarquia, a sua estrutura de autoridade e os comportamentos de quem tem a função de organizar e pugnar por alcançar os objetivos comuns enformam o termo ‘liderança’.
A expressão algo paradoxal do diretor da escola D ao referir “acho que não me veem
como 'o diretor', embora reconheçam que eu sou diretor”, aponta para essa característica
especial de vivência da hierarquia em meio escolar, marcada por uma certa informalidade, o que caracteriza mais horizontalmente do que verticalmente a comunicação e interação nas relações interpessoais que se estabelecem entre os atores. Não será abusivo considerar que tal interpretação aponta para que a liderança em meio escolar seja cada vez mais uma liderança construída com as pessoas, através da distribuição de responsabilidades e da mobilização em torno de ideias partilhadas, como refere Sergiovanni (1996).