A escolha do material didático digital se realizou segundo alguns critérios. O primeiro deles foi a sua disponibilidade do OA através da internet. Esse critério considerou que o conteúdo assim ofertado é acessível ao aluno em diversos ambientes e sem custos outros além da conexão de internet. Também a ausência de informações sonoras e presença de informações visuais se constituíram em critérios de seleção do material didático, conforme recomendações de acessibilidade de conteúdo digital para pessoas surdas.
O material digital escolhido foi um OA denominado “Resolvendo equações através da balança”54, assunto do conteúdo de álgebra55. Esse conteúdo, segundo o texto preliminar do caderno de proposições curriculares do ensino Fundamental da Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte (2008), está relacionado ao desenvolvimento
54 Disponível em:< www.rived.mec.gov.br>.
55
Havia a pretensão inicial para o desenvolvimento desse conteúdo também através do link Equações55 disponível no site www.somatematica.com.br. Porém, em virtude dos ajustes realizados no desenvolvimento da pesquisa tal pretensão ficou comprometida.
das capacidades e habilidades do bloco números e operações, álgebra e funções. O caderno recomenda que o conteúdo seja introduzido e trabalhado nos anos iniciais e consolidado e retomado nos anos finais do Ensino Fundamental.
No OA, o conteúdo equações está relacionado ao que Ribeiro (2007) chamou de significado intuitivo-pragmático, cujas características são uma equação concebida como noção intuitiva, ligada à idéia de igualdade entre duas quantidades. O conteúdo está relacionado à resolução de problemas de ordem prática e apresentado através de um elemento gráfico que é a balança de dois pratos.
O OA apresenta o conteúdo de forma predominantemente visual. (Figura 6). Na tela podemos perceber o uso de cores, a presença de um pequeno texto com uma situação problema também representada através de a balança (em uma condição de equilíbrio) e da equação. Nesta tela aparecem ainda, um repositório de tomates e pacotes que podem ser deslocados entre a prateleira e a balança com o uso do mouse. Também são visíveis setas, para a direita e para a esquerda, que possibilitam ao usuário avançar ou voltar, dentro de um mesmo nível de dificuldade, em diferentes situações problema.
Figura 6:Tela do OA resolvendo equações através da balança Fonte: RIVED, 2009.
As aulas com o OA foram realizadas na última etapa da coleta de dados e contavam com o estabelecimento de uma fluência digital mínima nos alunos que lhes permitisse a navegação na internet e o acesso ao OA.
A estratégia de adotada na investigação das potencialidades desse recurso digital foi realizar as aulas de maneira coletiva com a projeção do OA em uma tela com os alunos distribuídos em um semicírculo. Essa opção considerou os apontamentos obtidos nas etapas anteriores, a oportunidade de diálogo entre alunos e professor e a possibilidade de acompanhamento mais efetivo do desempenho dos alunos pelo professor.
As aulas com o OA foram realizadas conforme recomendado no seu manual. Inicialmente, foram promovidas aulas para a descrição dos elementos da interface, do uso do mouse e atalhos e dos objetivos a serem alcançados com aquele recurso digital. Após esta apresentação, as aulas foram desenvolvidas segundo os objetivos presentes no OA, assim definidos: conhecer o significado e encontrar o valor de uma incógnita; desenvolver os conceitos básicos para o estudo de equações do 1º grau e planejar estratégias de solução de problemas.
Todas as aulas realizadas com a projeção do OA foram gravadas em áudio e os momentos de aprendizagem obtidos transcritos. Encerrado o período de utilização do OA, na conclusão da coleta de dados realizou-se um grupo focal que buscou caracterizar suas possibilidades e limites do uso deste recurso digital na aprendizagem matemática de alunos não fluentes em LP. Esses dados, associados aos coletados nas outras etapas da pesquisa, nos permitiram resultados interessantes que serão discutidos no capítulo seguinte.
6 Resultados / Discussão
A apresentação dos resultados será iniciada com algumas observações obtidas a partir da prática em aulas com alunos surdos.
Como já apontado, os processos comunicativos dos alunos surdos são, de modo geral, muito variados. Para alguns alunos, a comunicação é desenvolvida através leitura labial, de forma pausada e voltada diretamente ao surdo; para outros, ela é realizada através da LIBRAS. Outros, ainda, em modalidades intermediárias a essas. Todas são, porém, marcadas pelo contato visual entre os falantes. Essa variedade comunicativa pede a presença do profissional de interpretação nas aulas que, por um lado, acrescenta possibilidades comunicativas e aproxima professores e alunos; e, por outro, exige de professores e intérpretes, trabalho em equipe, compartilhamento de experiências, respeito mútuo e atenção às atribuições, responsabilidades e competências de cada profissional.
Nesse sentido, o contato entre profissionais, professores e intérpretes e alunos possibilita aos primeiros um melhor entendimento da cultura e identidade surda, aspectos que, conjuntamente com a língua, não devem ser negligenciados quando da elaboração de propostas educativas para esses alunos.
Nessas propostas a variedade comunicativa é um elemento presente sendo importante que, na prática educativa com alunos surdos, estratégias que facilitem processos comunicativos diversificados, apoiados, sobretudo, em aspectos visuais, sejam utilizadas. Nas aulas é recomendável que não existam obstáculos visuais entre profissionais e alunos e, também, que o posicionamento do professor e do intérprete permita que ambos sejam vistos e vejam a todos os alunos. No ambiente da aula, não é aconselhável o deslocamento de pessoas que se interponham na conversação e interrompam o diálogo entre os que se comunicam. Os ambientes escolares devem ter iluminação bem distribuída sendo importante que os falantes permaneçam posicionados sempre diante dela.
Nas aulas na sala de computadores essas considerações se ampliam pela presença de um novo elemento de comunicação visual que, por um lado, tende a afetar o desenvolvimento das aulas e pede adaptações metodológicas e no ambiente da sala e, por outro, pode, potencialmente, trazer contribuições para a aprendizagem.
A descrição dos resultados da pesquisa tem organização cronologica, partindo das aulas para a ambientação com os computadores e a internet às aulas com o objeto de aprendizagem. Ao longo dessa descrição, apontamos os elementos da dinâmica da aula e da estrutura da sala de computadores que se mostraram relevantes no processo de pesquisa. Também abordamos as ações e estratégias implementadas pelos sujeitos envolvidos e as possibilidades oferecidas pelo OA e, dentre elas, especialmente, os facilitadores e dificultadores ao processo comunicativo,.