–Eu estava com bolero azul anil com aquele bico inglês que estava na moda, a saia volante. O pai (do pretendente) manda o dinheiro, ele compra aqueles óculos de Polaroid aqui, um guarda-chuva, e um livro de inglês na mão
(Afrodite).
Comer farofa e beber água da bica. Para tornar a estudar de tarde para voltar. Minha roupa era toda preta com 16 anos, chapeuzinho preto, eu andava todo de preto (Eros).
Era o grupo mais heterogêneo, entre a heterogeneidade da velhice dos grupos entrevistados. Foi muito rica a diversidade entre os membros. Relatos impressionantes. Não se autodenominam nem ricos, nem pobres, como veremos nos discursos que se seguem:
E/eu meu/ meus avós eram considerado ricos meu/ meu pai/ meu avô fez as casas de P. S. A casa, hoje Hospital, era a melhor casa na época, a primeira casa de dois andares e tal.
Cedo com 18 anos eu tive, trabalhei menos de 18, 17 anos, eu trabalhei em foi B.H. Depois eu fui ser Secretário de Prefeito, Secretário de Vice- Prefeito, em diversos anos. Fui secretário da associação comercial, fui diretor de vários orgãos, agora eu trabalhei por isso aí, por isso eu com... Ainda com 18 anos já me levaram pra minha mulher que pariu e sem condição nenhuma, nem casa, num tinha casa pra morar não, meus pais alugou uma casinha e botou lá (Hermes).
Apesar de relatar que trabalhava aos 17 anos, se observarmos a fala do entrevistado, trabalhava para o poder local, a família para quem ele trabalhou dominava a política na cidade, aliás seus descendentes se encontram no poder até os dias atuais.
Afrodite vem de família rica como veremos no discurso:
Mas tinha condições boas, para aquela época, e nós fomos para o colégio. Eu fui fazer admissão no Ginásio do Padre (assim chamado porque o
proprietário era um padre. Colégio particular que a elite frequentava). A
gente estava no colégio, tinha dois turnos, pela manhã e à tarde, a gente estudava, à tarde tinha matemática, tinha inglês.
A nossa farda era um bombacho, aqui no joelho, com borracha tipo bomboia, e um vestido aberto, volante, com um laço de bola azul e branco, era para ginástica. A gente ia para lá com tênis e tudo chamava galopim. Nem era tênis. Era feito, era tropical inglês azul marinho, só aceitavam assim, aberta do lado, tinha um escudo. Dezessete anos eu terminei o ginásio (Afrodite).
Termina o colegial ainda jovem, descreve com detalhes as roupas da escola. Continua seu relato:
A gente ia na Sloper (Loja da Rua Chile), com mamãe grudada, eu olhava as coisas, na Rua Chile! (fala admirada com o próprio relato). Ah! Menina, quem conheceu naquela época, naquela época [...] o Coronel, que ficava na esquina da Rua Chile, todo deslumbrante, engomado, que chegava a ser azul a roupa de tão branca e engomada! (fala entusiasmada).
Ficava conversando naquelas esquinas aqui na Rua Chile, Ave Maria! Eu fui à Rua Chile de luva de crochê, dona. J. aquela parteira, ela fazia crochê, fazia as luvas da gente, a gente ia para a Rua Chile a gente ia de luva, com uma bolsa de crochê, a mamãe fazia aquelas bolsas lindas para passear na Rua Chile. Tem que ir arrumadíiiissima. E não foi no fim do mundo não, não tem tantos anos assim, aí à gente tudo arrumado.
–Eu estava com bolero azul anil com aquele bico inglês que estava na moda, à saia volante. Lá em casa todo mundo é formado em professor. Aí fez
(o pretendente) ―ginásio‖ aqui no ginásio do Padre, formar e fazer a
faculdade. (se expressa com os braços e mãos, mostrando o modelo da
roupa). Às empregadas eu dava relógio e dava de tudo bom para ficar (‗subornava‘ as empregadas para poder sair na porta da casa para olhar o movimento da rua) para a gente poder ficar na porta do passeio. O pai (do pretendente) manda o dinheiro, ele compra aqueles óculos de Polaroid aqui,
um guarda-chuva, e um livro de inglês na mão (Afrodite).
Precisa-se de maiores detalhes para se conhecer a elite local da época? As roupas engomadas, os óculos Polaroid, um ―livro de inglês na mão‖, as luvas de crochê feitas especialmente para passear na Avenida Sete de Setembro em Salvador em companhia da mãe! Afrodite fala com orgulho, estufando o peito, ficou enorme, relatando. Todos os homens da sala a olham, olhos fixos no rosto de Afrodite, uns com admiração, com o olhar de quem a estava achando-a bela ainda hoje na velhice.
Já Apolo inicia seu relato, reconstruindo a memória de sua infância:
Meu pai era funcionário público do Estado, ele era chefe da estatal... Eu tive uma vida tranqüila assim a nível de família feliz. Casal bem unido. Funcionário público estadual.
- Não era federal? Alguém pergunta.
- Não, estadual, o Estado atrasava meses sem pagar, era uma questão, embora eles tivessem um cargo de destaque porque era aqui a estatal. Era o grande mote da coisa, era um espaço privilegiado, aonde as pessoas, toda a mercadoria chegava e saía (Apolo).
Preocupa-se em relatar a alimentação que consumia na época:
Eu me alimentava basicamente de carne do sol. Eu vim ver geladeira, foi uma coisa! Já na adolescência. Então era carne do sol, feijão, arroz. Fruta era uma coisa que nas famílias dessa minha condição não era muito, até porque era difícil. Maçã a gente só comia quando ficava doente, e maçã
tinha que ficar doente para comer maçã, era uma coisa assim do outro mundo. (este relato quanto à maçã é uma realidade no grupo da Cidade Nova
também) Apolo.
Relata sobre os equipamentos eletrodomésticos que tinham na época:
Ele tinha uma radiola (o vizinho), gravando também super especial, se ele tem uma radiola eu me lembro que ele ouvia Augusto Calheiros de noite, ele ouvia Augusto Calheiros, coisa que eu ficava no quarto ouvindo Augusto Calheiros que tocava na casa do vizinho.
Depois veio a escola eu estudei com professora em escola particular que era muito complicado manter isso. Minha mãe fazia para sobreviver uns bonequinhos... Tem outra coisa também, que às vezes eu fico pensando, como é que a gente não adoecia? Porque o bonequinho era feito com açúcar branco, que ia para o fogo o açúcar com água, aquilo ia virando, só que esse bonequinho ele era colocado em forma de chumbo! (Apolo).
Nas férias viajava, mais pela oportunidade de andar, pois o pai tinha influência e a estação de trem passava por Jequié. Ao viajar para a casa do tio:
Meu tio fazia aquelas moquecas de camarão e falava assim: é para Apolo, é para Apolo, e meus primos ficavam assim com ―aquele‖ olho na minha moqueca para mim e eu ficava, é, quer dizer, eu tinha essa mordomia. A infância teve esse lado legal. Essa coisa da alimentação eu citei aqui, porque já que se está fazendo a pesquisa com essa coisa da longevidade e teve esse lado, essa coisa da alimentação. Dessa falta de fruta, na minha geração tem muito isso, e muita carne de sol, feijoada aos domingos, cozido com verduras, e era uma coisa assim, rotina. Segunda-feira a comida tal, terça-feira assim, dia de domingo era, invariavelmente, feijoada, não tinha, a gente comia feijoada meio dia, e comia feijoada à tarde, fria, ficava no fogo de lenha aquilo (Apolo).
Baco nos relata uma infância difícil, principalmente pela perda da mãe muito cedo. Teve pouco estudo, mas conseguiu trabalhar na estatal, o que fez com que tivesse uma vida mais folgada. Hoje é aposentado.
Só que minha mãe... Eu perdi minha mãe novo, com uns 12, 13 anos de idade. E aí nessa... Eu saí para morar com uma pessoa, [...]. Passou uns tempos, estudo pouco, a cartilha, né. Uns dois ou três anos porque não tinha oportunidade. Aí... 17, de18 anos... 19 anos entrei no Derba, me chamaram para ir pra caatinga aí, aí fiquei por aí. Porque eu não tinha mais pai, perdi logo [...]. Do lado de pai não conheci ninguém, só ele mesmo. E mãe eu conheci... Da parte materna eu conhecia só os avós. Passei muita dificuldade. Dificuldade... (Baco).
Eros opta por ficar na zona rural com o pai e um dos irmãos; a mãe e os outros irmãos vão para a cidade. Mesmo assim teve oportunidade de estudar e só andava/anda arrumado, já tinha seu estilo: roupa toda preta, o ―chapeuzinho preto‖ como ele mesmo retrata.
Aí, nasci ali, quando eu nasci meu pai tinha uma situação mais ou menos. Foi um dos primeiros donos da loja Três Irmãos, tinha alambique, tinha essas coisas, tudo bem. Mas no decorrer do tempo foi... Os irmãos que eram empregados dele foram crescendo e ele foi sumindo.
Quando é um certo dia, fogão a lenha, pegava aquela panela de barro, botava feijão, um pedaço de jabá, toucinho. Ele ia pra roça e eu com ele. ―Vamo borá!‖. Eu ia com ele. Chegava meio-dia, comia muito e eu também. Meu pai era camisa de manga comprida e relógio de bolso. Eu e meu irmão todo dia saíamos com uma latinha de farofa, um pedacinho de carne, a sandalhinha campanha, como você falou, na mão (para não sujar com a
poeira ou lama da estrada). Meio-dia todo mundo ia para a sua casa
almoçar e eu e ele íamos para a bica.
Comer farofa e beber água da bica. Para tornar a estudar de tarde para voltar. Minha roupa era toda preta com 16 anos, chapeuzinho preto, eu andava todo de preto. De dia você me pegava dormindo, agora de noite eu campeava por aí (Eros).
A infância pobre não impediu Teseu de trabalhar. Mesmo começando a trabalhar cedo. A relação com a mãe era de cumplicidade, o que não ocorria com o pai, pois relata manifestação de violência física.
A minha infância foi o seguinte: era eu, minha mãe, meu irmão trabalhando de manhã e estudando de tarde. Ou trabalhando de tarde e estudando de manhã. O abc...
Começou a trabalhar com uns 7 anos mais ou menos. ... Meu pai também trabalhava na roça, era um pouco bravo com a gente, entendeu? Meu pai batia muito na gente (Teseu).
Um dos mais vaidosos do grupo e adora dançar. Cabelos oxigenados escuros, olhos verdes, o idoso se acha naturalmente bonito, sedutor e falante, conta a sua infância em que não faltava comida, nem vestimentas, mas diz-se pobre:
Nasci [...], rapaz, num lugar que chama Barra do Cedro. No sobocó (lugar
bem longe, que ninguém conhece) mesmo. Eu vim conhecer um carro eu
tinha 10 anos. Tive uma bicicleta também com 10 anos. Aonde ali era a Casas Pernambucanas eu conheci um carro vindo de Ipiaú. Saí de Ipiaú sete da manhã, chegou aqui (em Jequié, 50 minutos hoje) uma da tarde, seis horas de viagem. Então, nós saíamos da roça, chegava em Ipiaú meio-dia. Pegava um ônibus uma hora e chegava aqui...
Estudava com... Era longe. Chovia demais. Laaama que chovia e aquela lama. Botava um tamanquinho, caixinha de madeira, botava o dedinho dentro, tinha farofa e... Tinha que carregar um pau para a gente ir batendo nas folhas para a gente não se molhar quando chovia. Longe... Quatro quilômetros... Subia uma ladeira, assim, subia, descia outra. Nessa vida, né.
Aos 6 anos quem morava na roça já começa a trabalhar logo cedo. Plantar um cacau, pegar um pau de lenha, plantar feijão, qualquer coisa, a gente faz na roça. Não brinca. Dá milho para porco.
- Estudava e trabalhava. Não tinha esse negócio de não trabalhar não. Eu quando eu ia para aquelas fazendas comprava peru, matava, vendia metade para uma pessoa e metade para outra. Para não ficar sem dinheiro, eu não podia ficar sem dinheiro.
[...] Aquilo ali é um clube aí de rico, só vai ali rico (Jequié Tênis Clube -
JTC). Você quer ser sócio de clube, é lá embaixo, nos Cadetes (Clube de um bairro populoso, segundo Clube da cidade). Eu digo, eu vou! Mas aquilo não
me saiu da mente. Eu digo, eu vou ser sócio deste clube JTC. Para o ano, carnaval eu já estou aí. Eu nunca brinquei carnaval na minha vida, gosto de dançar, mas carnaval, fora! É sócio de Tênis Clube? Não é possível! Que tabaréu ousado é esse? (Jequié Tênis Clube era o clube da elite, muito difícil
de tirar a carteira na época, tinha que ser por indicação) Dionísio.
O grupo focal de convidados na sua diversidade cultural e múltiplas velhices nos traz visões completamente adversas sobre a vida cotidiana dos idosos e idosas integrantes do referido grupo.
4.7 O POTENCIAL DA PROMOÇÃO DA SAÚDE – GRUPO DA CIDADE NOVA –