Como área de atividade coletiva de todos os grupos de crianças, professoras e auxiliares do NEI, a organização prévia do parque –pelos adultos do passado ou do presente, em presença – tem como base um sistema de regras que diferem entre si de área para área, e essa diferença se encontra no tipo de objeto/brinquedo, evidenciado na sua forma, funcionalidade e mobilidade.
A brincadeira livre se dá em um contexto definido por uma estrutura adulta, que indica uma situação de brincadeira, ainda que esse contexto não seja planejado diariamente
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pela professora e auxiliar. A definição da situação é que permite às crianças saberem que no parque podem brincar de maneira diferente daquelas brincadeiras que fazem dentro da sala.
A estrutura do parque, como área de atividade social criada pelos adultos, apenas fornece indicações e orientações do que ali se pode realizar;
[...] [é] onde os aspectos factuais presentes não lhes impõe, desde o inicio e com precisão os comportamentos a desempenhar; espera-se mesmo que as crianças as “preencham” desenvolvendo os seus próprios conteúdos, as suas próprias regras e procedimentos. Em suma, que aí criem a sua própria ordem social infantil (FERREIRA, 2002, p.141)
As crianças brincam mais no parque que em qualquer outro espaço/tempo da instituição. A brincadeira no parque é identificada de maneira diferenciada da que ocorre na sala, na medida em que não se origina de nenhuma obrigação, exceto na hora das arrumações que ocorrem sempre antes das crianças retornarem a sala para o almoço. As ações das crianças são reguladas por regras e estratégias que emergem muito mais da relação/interação das crianças entre elas e das crianças com os adultos, sendo menos determinadas por regras explícitas de comportamento sofrendo desta forma, menos influência e controle por parte dos adultos. Dessa forma, revela-se por excelência como um tempo/espaço das crianças, e permite identificar, por outro lado, que lugar o adulto aí ocupa. De acordo com a supervisora do NEI, a organização atual não manteve o plano anterior de organização.
Pesquisadora: – No inicio do ano de 2004 havia um cronograma de horário para uso do parque pelos diferentes grupos. Como foi organizado? Quem organizou? Com que critérios?
Supervisora: – O parque sempre foi um grande problema em nossa instituição; assim, em umas das reuniões pedagógicas tentamos redimensionar este espaço. Resolvemos fazer um cronograma para que as crianças pudessem brincar com mais tranqüilidade e para que as professoras pudessem também planejar este horário. Pois, até então, todas as 60 crianças iam para o parque no mesmo horário e acabavam se concentrando as crianças de um lado e as professoras de outro. Os princípios do nosso PPP não estavam sendo contemplados. Este horário foi organizado por todos os profissionais, pensamos que seria adequado um rodízio para que todas as crianças pudessem se encontrar neste momento. Portanto, o horário foi organizado para que houvesse um rodízio entre os grupos.
Pesquisadora: - Hoje, como é definido o horário do parque?
Supervisora: - Hoje não estamos mais respeitando este horário e não voltamos a discuti-lo numa reunião pedagógica (DIÁRIO DE CAMPO)116
Quando a supervisora coloca que as crianças se concentravam de um lado e as professoras de outro, temos a confirmação de que esse espaço é de fato considerado pelos
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adultos da instituição como o lugar de as crianças brincarem livres e de os adultos descansarem, como reafirma a auxiliar em entrevista:
Pesquisadora: - No início da pesquisa, percebi que as crianças tinham um horário mais fixo para ir para o parque, talvez pelo calendário; agora percebi uma maior flexibilidade nestes horários.
Auxiliar: – Ultimamente acho que não tá nem havendo horário, eles vêem pro parque, vão ficando, vão ficando, até às 11 horas.
Pesquisadora: – Tu atribui isso a quê? Auxiliar: – Não sei.
Pesquisadora: – O que é que está acontecendo?
Auxiliar: – Eu não sei... o pessoal tá cansado e acha que o parque é hora de lazer... não sei... de respirar... (risos)
Pesquisadora: – O pessoal que tu fala são os adultos? auxiliar: – É... (silêncio)
Podemos inferir que os adultos, pelos limites e imposições que o espaço restrito da sala confere, sentem-se pressionados e sufocados – acredito que as crianças muito mais – num tempo/espaço que também os constrange fisicamente e os cansa. Para a professora no parque está a possibilidade de respirar, de salvação da instituição, já que dentro das salas as acomodações são pequenas demais (DIÁRIO DE CAMPO)117.
Escolano (1998, p. 26), analisando o espaço escolar, nos fala que este “tem de ser analisado como um constructo cultural que expressa e reflete, para alem de sua materialidade, determinados discursos”. Neste sentido a restrição do espaço pode representar pela dinâmica de confinamento um discurso de disciplinação dos corpos, tanto para as crianças como para os adultos, que contraditoriamente é potencializador de conflitos. Por outro lado, as dimensões de infra-estrutura relacionadas ao acesso e disponiblização de espaços e materiais dão conformidade as relações aí estabelecidas.
No caso em estudo, se os conflitos são percebidos no Grupo IV, dentro da sala, muito mais o são nesse espaço aberto (o parque), que é de todos, com recursos limitados que são disputados e geram concorrência para ver quem chega primeiro, no qual as regras são mais difusas e onde as crianças se multiplicam.
Conforme Corsaro (2002), as brincadeiras das crianças são muito conflituosas, as disputas são muitas, e somente ao longo do tempo e ao longo do desenvolvimento das relações sociais é que elas vão ficando mais permeáveis e com mais segurança também para ousar experimentar coisas novas. Percebe-se que num primeiro momento a criança procura a segurança no adulto. Se na sala já é difícil poder contar com o adulto quando ela sente
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necessidade, no parque essa situação complica ainda mais, pois os adultos tendem a manter um certo distanciamento do que se passa entre elas. Assim, as crianças mantêm uma dinâmica orientada para dentro do seu próprio grupo, descortinando nessas relações diferentes formas de interação, que permitem
[…] admitir a possibilidade das crianças se constituírem como grupo social, comungando de interesses, modos de pensar e fazer colectivos, capazes de construir modos de governo próprio e de desencadearem estratégias colectivas de afirmação/oposição como formas de resistência e de transformação da ordem institucional adulta (FERREIRA, 2002, p.141).
Assim como na sala a brincadeira no parque está, em grande medida, ligada aos objetos lúdicos de que a criança dispõe e às relações/interações que estabelece.
Procuro, com a análise de algumas relações que ocorreram entre as crianças no espaço do parque – seguindo o caminho que põe face a face ordens sociais de gênero, idade, etnia e classe social –, tornar visível em que medida se revela aí uma ordem social infantil dominante.