II. Explanatory notes on the preferential tariff scheme of India for the least developed countries
4. Rules of origin and procedural requirements
4.5. Direct consignment requirement
Nosso objeto de pesquisa envolve os agentes de mídia e os conflitos em torno da criação de uma Lei que, dentre outras coisas, versa sobre a obrigatoriedade de veiculação do audiovisual independente na TV paga no Brasil. Fazemos também a verificação quantitativa da programação que foi exibida em 2013, para cumprimento de cota mínima de exibição do audiovisual independente brasileiro, nos termos da Lei 12.485/2011, que ficou conhecida como a Lei da TV Paga.
Utilizamos a Economia Política da Comunicação (EPC) trabalhada no Brasil e seu potencial explicativo para dar conta das necessidades analíticas desta investigação. Identificamos as diretrizes dessa corrente teórica como adequadas para a abordagem de uma série complexa de questões, dentre elas: as estratégias dos diferentes agentes de mídia em relação à veiculação do audiovisual independente, as políticas econômicas e de comunicação envolvidas em mudanças tecnológicas e a busca por participação social no contexto brasileiro e latino-americano, chave que foi proposta em Herscovici; Bolaño e Mastrini (1999), em um texto de apresentação sobre as interfaces e diretrizes da Economia Política da Comunicação e da Cultura no contexto dos países em desenvolvimento, como apreciamos no tópico anterior.
Dentre outros direcionamentos, identificamos que esta corrente de investigação volta- se para a análise das estratégias dos agentes, as modificações das modalidades de financiamento dos produtos e dos serviços e suas implicações em termos sociais e em termos de estruturação do espaço, tendo em vista a democratização dos espaços de mídia e o acesso por parte de grupos fora das estruturas hegemônicas.
Segundo os autores, a Cultura, a Informação e a Comunicação Social representam bens que pertencem, em princípio, à totalidade da coletividade e por isso são enfoques trabalhados na Economia Política da Comunicação e da Cultura.
A Lei da TV Paga de setembro de 2011 surge para modificar as modalidades de apropriação do que passou a ser chamado Serviço de Acesso Condicionado. Nem todas as modificações podem ser analisadas nesta pesquisa, mas alguns aspectos foram recortados e aqui busca direcionamento de análise. Com isso destacamos: 1) Os debates e tensões sobre a criação da Lei da TV Paga; 2) a mudança no espaço destinado ao audiovisual independente brasileiro, que passou a ter critério mínimo de cota para exibição de conteúdo.
Partimos para a coleta de dados e percebemos a necessidade de ampliação corpus, ou do objeto de análise, visto que nos interessou não somente a Lei da TV Paga, mas também os debates em torno dela. Deste modo, definimos uma abordagem metodológica quanti- qualitativa, com pesquisa exploratória, a partir das técnicas de pesquisa bibliográfica e documental nas bases de dados da legislação brasileira e relatórios das instituições do Estado e da sociedade civil articuladoras do processo, para a posterior análise de conteúdo, tendo como critérios de construção a interpretação dos dados à luz da teoria e estabelecimento de critérios para a investigação dos agentes envolvidos no contexto dessas negociações.
Trata-se de uma pesquisa analítico-descritiva, sendo os fenômenos observados, registrados, analisados e correlacionados. Diante do universo de agentes econômicos que atuam no mercado em estudo, utilizamos como documentos para a observação empírica também a programação da TV paga referente ao cumprimento de cotas nos termos da Lei 12.485/2011 e os debates em torno destas cotas estabelecidas ao longo do ano de 2013, em observação à minuta de monitoramento elaborada pela Ancine. Desta forma, possuímos aspectos legais, civis, mercadológicos e também extraímos elementos estéticos elementares para uma observação dos impactos no processo de implementação dos acordos advindos da arena pública de negociação.
Lopes (2014) aponta que a nova agenda de investigação da Economia Política da Comunicação tem dois elementos centrais: a convergência tecnológica oriunda do desenvolvimento das novas tecnologias de informação e de comunicação e a centralidade da informação e da cultu¬ra nos processos de acumulação do capital. Não há por essa perspectiva, ao contrário do que pensam alguns, restrição às dimensões meramente econômicas.
Para atualizar a busca por superação de avanço teórico-metodológico que entenda a união entre a produção de conteúdos e meios de difusão, distribuição e consumo que considere a ligação tecnológica, econômica e política Lopes (2014) diz sobre a EPC:
No tocante às indústrias midiáticas e culturais, ain¬da que os estudos anteriores, ligados às especificidades das indústrias massivas, às suas formas
de produção e distribuição de conteúdos midiáticos, seus modelos de organização e funcionamento, à mercado audiência etc. continuem valendo, a chamada convergência tecnológi¬ca e o desenvolvimento das novas plataformas digitais – colaborativas ou não – requerem um avanço teórico¬- metodológico que supere, por exemplo, as análises que pressupõem a separação entre conteúdos e meios de difusão e transmissão da informação ou que ressalte o quanto as decisões aí tomadas – por exemplo, a escolha dos padrões técnicos de determinado sistema de televi¬são digital – não são meramente tecnológicas ou econô¬micas, mas, sobretudo, políticas, uma vez que incidem diretamente nas partições do poder e nos limites entre o público e o privado que, cada vez mais, passam a ser estabelecidos a partir das modalidades de acesso a tais serviços (LOPES, 2014. p. 582).
Nosso trabalho passa, então, a ser balizado pela busca de ligações que sejam possíveis de identificar nos conflitos e debates que ocorreram, e ainda ocorrem, em torno da Lei 12.485/2011 entre os agentes identificados desde os primeiros debates para construção desta, que passou a ser considerada um marco na história da televisão segmentada, e da atuação do audiovisual independente no Brasil.
Diante disto, elegemos prioridades para a investigação em nível de mestrado, abordando os seguintes direcionamentos: 1) Estratégias dos agentes de TV e audiovisual sobre a ampliação do espaço de veiculação para o audiovisual independente; 2) Posicionamento dos agentes sobre o financiamento da produção e distribuição de conteúdos audiovisuais independentes.
A Economia Política dos Media, como também é designada Economia Política da Comunicação, é hoje uma disciplina científica solidariamente estabelecida nos Estados Unidos, na Europa, na América Latina e na Oceania (SOUSA, 2011).
Devido às especificidades geográficas, políticas e econômicas, as correntes de pesquisa tomaram direcionamentos diferentes. A pesquisadora de Portugal explica que esta disciplina estuda, fundamentalmente, as relações de poder inerentes à produção, à distribuição e ao consumo dos produtos culturais e dos outros recursos comunicacionais num contexto social mais alargado.
Entre os pesquisadores que descrevem a EPC há um consenso sobre a particularidade das questões que se prendem com a distribuição do poder na sociedade e com as consequências daí resultantes para a constituição do espaço público e para a qualidade dos sistemas democráticos. Por mais tênues que sejam as fronteiras entre esta disciplina e a Economia dos Media, as Políticas da Comunicação, a Ciência Política e os Estudos Culturais, ela transformou-se, no último meio século, num edifício teórico autônomo e com grande potencial explicativo (SOUSA, 2011).
Por estarmos pesquisando assuntos midiáticos do Brasil, nosso contexto político e geográfico não podem ser desconsiderados para a busca da forma adequada para pesquisa. A América Latina passou a ter direcionamento próprio e a busca por uma metodologia mais adequada para os objetos de pesquisa que envolvem a mídia e as implicações sociais advindos da produção, distribuição, circulação e consumo no sistema capitalista.
Sobre isso, Rebouças (2006) diz que com um tempo de amadurecimento a Economia Política da Comunicação desta região, como em outras partes do mundo, não conseguimos seguir uma metodologia tão clara. Os pesquisadores sabem fazê-la, mas não sabem necessariamente como a fazem. Seria equivocado dizer que há uma metodologia latino- americana; talvez uma perspectiva latino-americana.
Coube a Bolaño (1988), em seu livro Mercado Brasileiro de Televisão, inaugurar a vertente brasileira. Esta obra preencheu importante lacuna nos estudos econômicos da televisão brasileira, abordando o mercado televisual a partir de suas formas de concorrência, periodização e trajetórias tecnológicas. Bolaño (2000) aliou estas questões ao conceito de barreiras à entrada e de padrão tecno-estético.
Trata-se de uma importante contribuição para a compreensão do papel desempenhado pelas grandes redes corporativas na lógica de concentração do setor da radiodifusão, trazendo, com isso, importante munição à luta social pela democratização da comunicação (LOPES, 2014).
1.3 A Economia Política da Comunicação e o contexto nacional: a televisão e os campos