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Conclusão

 

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O contexto sociocultural no transtorno mental desempenha um papel importante para se compreender a forma com que os indivíduos envolvidos no processo de adoecimento vivenciam, formulam e dão sentido a suas experiências.

Este trabalho mostrou que a experiência da esquizofrenia pode ser agravada, se considerada no contexto cultural em que se desenvolve, por exemplo, se estiver inserida num contexto em que a pobreza e a violência possam alimentar ainda mais o sofrimento de pacientes e familiares.

Os pacientes tentam dar coerência a seu sofrimento, buscando ajuda terapêutica e dando sentido à experiência desorganizada que é viver quase que permanentemente dentro de um padrão psicótico. Os pacientes usam o aparato cultural disponível, mesmo com as dificuldades e limites cognitivos impostos pela doença. As categorias culturais usadas para formular a doença encontram ressonância nos símbolos dados pela religião e pela magia. A religião e a magia fornecem o padrão cultural mais significativo para entender e explicar o processo do adoecimento. A desagregação do pensamento, o isolamento, os delírios e alucinações são interpretados pelos pacientes como uma expressão de forças externas de conteúdos mágico-religiosos. Esse processo é fortemente influenciado pela cultura e não necessariamente ocorre de maneira consciente. O pensamento mágico-religioso é, para o indivíduo psicótico, uma fonte rica de significado, uma forma de contextualizar experiências idiossincráticas, permitindo um quadro mais amplo para explicar experiências que não podem ser compartilhadas.

A doença é reconhecida, tanto para familiares quanto para pacientes, não como doença biomédica, mas como um transtorno que somente permite a ordenação a partir de um modelo cultural.

A Esquizofrenia é vista como uma doença espiritual com implicações na transmissão de informações entre as gerações. A concepção da loucura segue modelos fornecidos pela cultura local: resguardo quebrado, encostos, feitiços e espíritos.

A identificação dos familiares sobre os delírios dos pacientes nas distinções entre “vozes positivas e vozes negativas” mostra como a cultura molda a experiência

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da doença. Pensar em “vozes boas” mostra a possibilidade de que nem tudo é totalmente ruim e isso abre a possibilidade de ver um aspecto positivo na relação entre familiares e pacientes, o que provavelmente traz um pouco de aceitação do comportamento do paciente pelos familiares. Essa informação é inédita e permite a abertura de novas questões sobre a possibilidade de exploração desse aspecto positivo no tratamento e prognóstico do paciente.

Entrevistar pacientes esquizofrênicos proporcionou observar o intenso sofrimento vivenciado por eles na tentativa de se inserir socialmente no mundo. O paciente não participa simbolicamente do mundo social e isso causa sofrimento. Ele é diferente e essa diferença, marcada pela doença, o confunde e confunde também os familiares, pois ele está no mundo, mas não pode pertencer a ele de maneira mais completa. É sempre uma participação limitada. Não poder participar socialmente do mundo é uma fonte de maior sofrimento para os pacientes.

Embora este trabalho não tenha como foco as relações entre profissionais e familiares no Centro de Atendimento Psicossocial, vale observar a angústia apresentada nas narrativas de algumas famílias. A sobrecarga resulta da responsabilidade de assumir grande parte do cuidado do paciente psiquiátrico, sem um aparato social que dê suporte a esse complexo cuidado. Há ainda uma grande lacuna entre as necessidades dos familiares e pacientes, quanto ao tratamento e a oferta de serviços psiquiátricos disponíveis ao paciente psiquiátrico no Centro de Atendimento Psicossocial na cidade de Montes Claros.

Neste trabalho, as famílias aparecem sobrecarregadas, reflexo ainda de condições sociais e financeiras extremamente desfavoráveis. O medo de “perder” o espaço destinado ao paciente para o tratamento no CAPS ou que esse espaço e tempo sejam restringidos por questões de ordem técnica: grande demanda, poucos profissionais, escassos recursos financeiros para gerir o sistema, passa a ser motivo de preocupação para algumas famílias, pois significa, de forma geral, perder a possibilidade de dividir a carga do cuidado com profissionais habilitados para esse fim.

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O diálogo entre profissionais e familiares, de maneira geral, ainda não reflete uma troca de informações de mão dupla, visando facilitar o tratamento e atendimento ao paciente portador de sofrimento mental. As concepções da doença e práticas utilizadas por familiares são importantes informações para se planejar e adequar o tratamento para propiciar uma melhor qualidade de vida aos pacientes.

A política pública de saúde mental tem ainda que lidar com os inúmeros desafios das realidades locais, da dinâmica familiar, da violência, da pobreza, que estão inseridos no contexto em torno do cuidado terapêutico. O desafio consiste em operacionalizar redes de suporte às famílias e aos pacientes, considerando suas realidades e estruturas de vida. O contexto sociocultural deve ser considerado, ao se pensar políticas de atendimento que priorizem a melhoria de condições de vida para pacientes e familiares.

Nesta pesquisa, a violência aparece de forma muito contundente na vida de pacientes e familiares. A violência expõe os efeitos que os fatores sociais têm em relação às doenças, como a esquizofrenia. É através de abordagens desse tipo, da investigação da “vida real” das pessoas afetadas, que poderemos direcionar futuros estudos sobre a experiência da violência no contexto da esquizofrenia. Futuras pesquisas poderão contribuir para o desenvolvimento de uma compreensão mais refinada acerca da influência da violência nessa doença.

A violência estrutural (Kelly, 2005), contudo, representa um conceito mais amplo da exclusão social, sendo um conceito também relevante no contexto da esquizofrenia. O desafio também é reconhecer que estruturas sociais, econômicas e políticas têm um impacto significativo sobre a evolução de doenças mentais; esses fenômenos contribuem para o sofrimento dos pacientes esquizofrênicos e seus familiares.

A violência e agressões no ambiente familiar devem ser consideradas ao se avaliar e planejar políticas de saúde mental para o país, considerando que a sociedade brasileira, respeitando-se as particularidades regionais, ainda é uma sociedade estruturalmente violenta.

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O papel do hospital no cuidado do paciente esquizofrênico “desaparece” do tratamento psiquiátrico no atual modelo de assistência psiquiátrica do país. Por um outro lado, alguns pacientes estão sendo “lacrados”, amarrados e trancados, entre outros tipos de muros: os da própria moradia. A contradição do sistema que tenta humanizar o atendimento psiquiátrico trazendo o foco para o modelo comunitário, agora precisa focar nos acontecimentos e na maneira usada pelas famílias para lidar com o paciente esquizofrênico. Preparar as famílias e fornecer estrutura suficiente para cuidar de seus pacientes parece ser mais um desafio para as políticas de cuidado em saúde mental no país.

A etnografia realizada com pacientes, familiares e vizinhos mostrou a complexidade do cuidado com o paciente esquizofrênico e necessária articulação de várias áreas do conhecimento para ter uma aproximação mais realista da vida cotidiana dos participantes.

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