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CHAPITRE 7 – Les réformes vues par la presse

4. Dimension historique de la réforme vaudoise

O pajé é uma categoria que apresenta dois sentidos distintos na comunidade Atikum. Primeiro é considerado como líder dos ritos religiosos, em especial os torés realizados nos cruzeiros espalhados pela comunidade ou na Mata do Tambor, gentio de responsabilidade de Seu Augusto, atual pajé. Seu Augusto explica o que é ser e quais as atribuições do pajé:

É fazer remédio, é dançar toré, é conselheiro. Pajé é conselheiro mesmo. Pajé como se diz, é um conselheiro de tribo, da comunidade sempre é o pajé... É que pode ensinar remédio, é quem pode dar conselho, graças a Deus eu sou uma pessoa que não tenho inimizade com ninguém, eu não tenho um intrigado aqui, e graças a Deus sempre tenho o respeito que o pessoal sempre me respeita.

Além das características apontadas por Seu Augusto para se tornar um pajé, entre os Atikum, a principal é conhecer um repertório diversificado de linhas de toré, entre elas as

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Para o catimbó, ver Cascudo (1978). Souza (2004) relata rapidamente as acusações de catimbozeiro entre os Xucuru.

linhas de antigos pajés ou de sabedores. Também é necessário que o futuro pajé tenha uma relação intrínseca com os encantados para poder receber oniricamente novas linhas.

Muito preocupa Seu Augusto a inviabilidade de um sucessor, pois não há muitos que saibam uma quantidade de linhas que suporte um toré de muitas horas. Outro fator que o deixa intrigado é quanto à responsabilidade para com os encantados, no sentido de manter ativos os torés na área e de cumprir as obrigações para a realização de um trabalho fechado, como o corte da jurema.

Tem deles aí que sabe cantar, sabe dançar, agora que não sei se faz como eu faço. Porque aí quando o pajé mais velho, compadre Alcindo, só entregava só se fosse a eu, que eu mantinha a responsabilidade, porque todo mundo já vê meu movimento como é, meu serviço como é toda vida nunca desprezei,

mas eles não sabe ir num pé de jurema, arrancar uma jurema, pedir, fazer o peditório pra aquela jurema, pisar ela, preparar, encruzar, dá pra beber, aí a gente tem que ensinar (SEU AUGUSTO, pajé).

O outro sentido atribuído à categoria pajé é a sua característica eminentemente política dentro da comunidade. Para Seu Augusto, ser pajé é exercer um cargo, no sentido burocrático do termo. Tanto o pajé quanto o cacique são eleitos em pleito realizado pelos Conselhos Locais de Saúde. É a segunda vez que Seu Augusto é pajé; a primeira foi em 1992, mas entregou cargo (sic) por motivos de desconfiança de outras lideranças.

Quando perguntado sobre como se tornou pajé, Seu Augusto responde:

Aí... foi no tempo que Abdon entrou como cacique e disse que queria que eu entrasse como pajé. Aí Alcindo disse que só entregava o cargo se fosse a eu. Por causa da responsabilidade que eu dava, tomava de conta e dava. Aí como de fato eu entrei... aí fiquemo fiquemo... fui pra Brasília mais Ézio, quando cheguei fiquei desgostoso, porque nos sofremos... de Brasília pra cá nós comemos uma vez. Foi. O negócio era fraco mesmo, não tinha condição. Aí quando eu cheguei, aí nós fizemos a reunião e soube deles que ouviram dizer que nós andava era passeando. Aí me desgostei e caí fora do cargo de pajé, na reunião entreguei e aí Zé de Branquinho entrou. Ficou... ficou... quando agora esse ano, tá dentro de dois anos, tá entrando pra três anos agora como pajé de novo.

Em 2003 foi novamente empossado, requerido pela comunidade como homem de respeito e de responsabilidade para ser pajé.

Quando Seu Augusto fala que uma das características de ser pajé é ser conselheiro, percebo duas conotações. Ser conselheiro corresponde a prestar auxílio para resolução de questões individuais, desafetos, por exemplo, entre outros eventos que aflijam alguém. Numa outra perspectiva, ser conselheiro é ocupar um lugar cativo no Conselho Local de Saúde. Em todas as reuniões estaduais de saúde mais importantes, Seu Augusto esteve presente, às vezes

a contragosto. Quanto a ser um conselheiro do ponto de vista individual, creio que a busca pela ajuda de Seu Augusto pertence a uma ordem personalista, não por ser um pajé, mas por responder coerentemente à etiqueta das relações de compadrio65 que o indivíduo Augusto representa.

Vale ressaltar que a categoria pajé, assim como cacique, responde ao que Oliveira (1998) destaca como construção de uma “indianidade” pelos órgãos oficiais, a saber, no caso de Atikum, em 1949 com a atuação do SPI.

Em função do reconhecimento de sua condição de índios por parte do organismo competente, um grupo indígena específico recebe do Estado proteção oficial. A forma típica dessa atuação/presença acarreta o surgimento de determinadas relações econômicas e políticas, que se repetem junto a muitos grupos [...] Desse conjunto de regularidades decorre um modo de ser característico de grupos indígenas assistidos pelo órgão tutor, modo de ser que eu poderia chamar de indianidade para distinguir do modo de vida resultante do arbitrário cultural de cada um (ID., IBID., p. 14).

O Estado, algumas vezes, criou recursos legais ou os famosos critérios de indianidade para definir quem é ou não índio, numa elaboração de cunho homogenizador e pautado sobre concepções evolucionistas. Carneiro da Cunha (1985) analisa os Artigos 3o e 4o da Lei 6.001/73 que atribuem critérios de indianidade e afirma que as definições são equivocadas e pecam do ponto de vista antropológico, pois utiliza de critérios como raça- origem e ascendência pré-colombiana - e traços culturais - membro do grupo étnico de características culturais que se distinguem da sociedade nacional. Do prisma da cultura é um critério que não admite a dinâmica das sociedades, impondo que se disponha das mesmas técnicas, valores e língua que não são de mesmo uso dos antepassados. Para a autora a única forma de identidade é a auto-identificação e a identificação dos “outros” pares.

Mesmo que pajé corresponda a uma categoria de cunho político, cujos pressupostos como líder de ritos foram adequados como prática do grupo em resposta às concepções do Estado sobre uma sociedade indígena, ela reserva certos atributos que devem ser respeitados e ordenadamente cumpridos, como o conhecimento das linhas e da ordem cosmológica da comunidade.

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Forma de organização social da comunidade Atikum, que será descrita com maior proficuidade no próximo capítulo.