• Aucun résultat trouvé

Temp´ erature

Dans le document Notes du cours bas´ees sur le livre Physique (Page 191-197)

A Isabelle e a Alice têm uma longa história de amizade e alguns desentendimentos. Elas se conheceram na casa-lar Nossa Senhora do

Carmo e, mesmo depois do desacolhimento, a amizade permaneceu, tanto que a Alice, durante o tempo em que ficou desempregada, trabalhou na casa da Isabelle, como babá dos filhos da amiga, para que essa pudesse trabalhar fora. A primeira vez que visitei a Isabelle, ela estava morando em uma casa grande, uma parte em alvenaria, outra em madeira, localizada no alto de uma lomba, no bairro Coqueiros – Florianópolis. A casa pertencia ao pai do segundo companheiro que ela teve e, por isso, sua permanência nesse lugar era provisória, uma vez que ele já havia manifestado o interesse em retornar para essa moradia. Quando cheguei em frente à casa, encontrei tudo fechado e logo imaginei que ela tivesse esquecido do nosso encontro. Ao ligar para ela, descobri que estavam todos em casa e que ela já ir ia abrir a porta para mim. Ela fez questão de me contar que, na época, estava com quatro filhos e que tinha pego mais uma para criar, filha do seu atual companheiro. Estavam todos dormindo, com exceção do mais velho, que acompanhou toda a nossa conversa. Alguns dormiam na sala e outros nos dois quartos da casa. Ela me mostrou um por um e foi me dizendo seus respectivos nomes.

A Isabelle é uma jovem de estatura mediana, magra, branca e com os cabelos castanhos, mas que já foram pretos, como ela mesma diz: “eu sou como camaleão, estou sempre mudando a cor do cabelo”. No tom de voz e no jeito de falar ela se mostra decidida, parece que com ela “não há mau tempo”; desdobra-se para cuidar de todos os filhos e já pensa em ficar com a guarda da filha do seu companheiro, por medo de que – se ele “vier a faltar”, como ela mesma explica – a ex-companheira dele acabe ficando com a menina. Mas isso para ela não é problema, uma vez que ela diz gostar de criança e ter muita paciência. Tanto que, na segunda vez que nos encontramos, eu descobri que ela estava esperando seu quinto bebê e estava de mudança para a Palhoça.

Ela não conheceu seus pais biológicos, pois logo que nasceu, em Porto Alegre, foi adotada por uma mulher, que ela chama de mãe. Ela conta que a sua mãe biológica não quis ou não pôde ficar com ela, mas que até hoje respeita e entende a atitude desta. “Eu perdoo porque, se ela não ficou comigo, alguma coisa houve, entendeu? Talvez ela me deu para alguém que me criasse e me desse do bom e do melhor”. Embora tenha curiosidade de saber notícias sobre a mãe biológica, ela diz que encontraria muitas dificuldades para descobrir qualquer pista sobre seus familiares, a começar pela própria certidão de nascimento, na qual constam apenas os nomes dos pais adotivos e a data do nascimento parece estar trocada. “Eu fui registrada em 01 de abril e eu fui nascida em outubro. Então, assim, é uma coisa que deixa a gente confuso. Então,

a gente não sabe por onde ir, entendeu? E tá registrado como na Carmela Dutra [maternidade de Flor ianópolis]. Pode ter sido que ela me deu lá, entendeu?” Nesse ponto, é possível perceber que o conteúdo do documento não despertava o seu interesse e tampouco, na perspectiva dela, informava sobre quem ela é e sobre sua família. Este dizia mais sobre um outro ponto de vista acerca da sua história, o momento em que foi “dada” logo que nasceu, o qual ela já se habituou a não relatar.

Quando foi adotada, logo após seu nascimento, Isabelle se encontrava em estado de desnutrição. “Eu era um bebê, então, quando eu fui pegada eu já tava com um dia de vida, quando essa minha mãe me pegou. Tanto que me botaram em tudo quanto é plano de saúde, tudo tentaram me fazer, tudo particular para ver se eu vivia”. A mãe adotiva era sozinha e segundo a Isabelle, ela “ganhava bem” e era “tipo aeromoça”, ou melhor, era dona de uma agência de turismo. Como não podia ter filhos, na época, ela adotou a Isabelle e mais um menino, que embora ela chame de irmão, sinaliza que ele era de outra família, antes da adoção. “Nós não somos da mesma família, ele é de outra”. Aqui pode ser interessante pensar que, ao fazer essa distinção em relação ao irmão, ela pode estar justificando a natureza do laço que se estabeleceu entre os dois (marcado pelo distanciamento) e que é diferente daquele estabelecido com a mãe que a adotou. Tanto que, em relação à mãe, a não ser quando indagada por mim, a jovem não se preocupou em contar que havia sido “dada” logo após seu nascimento.

Antes de falecer, a mãe da Isabelle pediu para um amigo que frequentava a casa que cuidasse das duas crianças. “Aí ela veio a pedir por favor que adotasse a gente, não maltratasse a gente, que ela tinha medo que a gente fosse para um abrigo, para a gente não sofrer... mas foi tudo diferente, entendeu?”. A diferença é que a vida que a Isabelle passaria a viver junto com esse pai em Santa Catarina, ao contrário das expectativas da mãe e da própria jovem, foi marcada por muito sofrimento e maus-tratos. “Porque, na verdade, o meu pai não maltratava ele [o irmão], o meu pai não judiava dele, o meu pai só judiava de mim”. Nesse ponto, novamente pode ser interessante pensar na questão da natureza do vínculo que a jovem estabelece com o irmão e como este acaba por configurar a relação com o pai. A sequência de maus-tratos, por parte do pai, fez com que a Isabelle fosse encaminhada para um “acompanhamento” com a assistente social na Casa-Lar Nossa Senhora do Carmo. Nesse período, ela não estava propriamente acolhida, mas sim passava uma parte do dia com as outras crianças, sobretudo para estudar. A passagem de um serviço de acompanhamento ao acolhimento institucional propriamente dito se deu em função de uma

situação em que o pai “bateu” na Isabelle e deixou a jovem com um “sintoma”, como ela diz.

Cansada de “viver apanhando”, assim como a Alice, a Isabelle fugiu e foi procurar abrigo na casa de uma amiga que a levou para a casa-lar. “Cheguei lá, tentei esconder, mas nem consegui. Quando ela viu a minha mão, a mãe dela viu, meu deus! O que é isso, Isabelle? Eu disse: ah, o meu pai me bateu. Aí ela disse: meu deus! Que pai é esse? Onde é essa casa-lar? Vamos lá agora! Me botou dentro do carro e me levou. Tanto que eu fiz corpo de delito, tudo”. Assim que foi feito o exame de corpo de delito, em função dos hematomas, ela foi encaminhada definitivamente para a casa-lar. “Para ver como eles não deixaram para o outro dia”, lembra a jovem. Foi em outubro de 1999, quando ela foi acolhida na casa-lar, onde permaneceu até agosto de 2009, quando estava perto de completar 18 anos. Nesse meio tempo, o pai tentou, por vezes, tirar a jovem do abrigo, mas não teve sucesso. “Lá, ele ia, de vez em quando. Mas eu tinha medo dele, não por ele fazer alguma coisa comigo, mas assim, ele tentar me tirar de lá e eu sofrer de novo, como eu estava sofrendo”. O pai da Isabelle não chegou a ser punido pelos maus-tratos. Ele acabou falecendo enquanto a ação, posta pela casa-lar, ainda estava sendo julgada. O irmão da Isabelle até hoje “joga na cara” da jovem essa ação colocada contra o pai; segundo ele, por conta disso a jovem não deveria ter direito de receber a sua parte na herança. “Ah, tu não devia nem ganhar herança, porque na verdade, tu botava o pai no “pau”, na justiça”. Foi justamente devido a essa herança do pai, que, hoje, os dois irmãos não têm mais tanta proximidade. Eles estão em uma briga na justiça pela casa do pai, localizada em Barreiros - SC. Mas para a Isabelle, ela está nessa luta pensando no futuro dos filhos, nos direitos deles. “Eu quero por causa dos meus filhos; por causa de mim, não, porque eu morro e não levo nada. Posso morrer agora, dar um ataque e não levo nada. E daí como é que ficam os meus filhos?”. Nessa expectativa da herança é que ela alimenta o sonho de comprar uma casa própria na Palhoça, na vizinhança da casa da Alice no bairro Frei Damião, pois lá, segundo ela, os preços dos imóveis são mais acessíveis.

A jovem não passou por outra experiência de acolhimento, antes da casa-lar Nossa Senhora do Carmo. Na casa-lar, ela teve o seu primeiro namorado e que, depois do desacolhimento, veio a se tornar o pai do seu primeiro filho. Ela não demorou muito para se adaptar à rotina da casa, que não era muito diferente em relação àquela que ela tinha na casa do pai. Nos dois lugares, ela tinha horário para fazer suas atividades e tarefas, a diferença é que na casa do pai, o não cumprimento

dessas implicava em maus-tratos. “Ali não [na casa-lar], ali tinha um horário, mas não apanhava, entendeu? Só fic ava de castigo: as coisas que tu mais gostava, cortavam”. E durante os quatro anos de acolhimento, ela aprendeu que precisava dominar bem as regras da casa, para justamente poder driblá-las e encontrar seus momentos de liberdade. “Aí, o que que é? Que tu cai na consciência que tu: ó, vou chegar naquele horário para mim poder sair, né?”, lembra ela sorrindo.

Isabelle decidiu que só deixar ia a casa-lar quando atingisse a maior idade, pois, para ela, a exper iência de acolhimento havia feito “bastante diferença” na sua vida, uma vez que ela não tinha tido “amor do pai”. “É como eu digo, é uma experiência que eu tive, eu cresci muito lá dentro, eu cresci bastante, foi uma lição de vida para mim. Porque assim, eu tive muita coisa assim com a minha família adotada, fui maltratada, mas eu digo que lá eu ganhei do bom e do melhor”. Assim como para a Alice, para a Isabelle, as pessoas que viviam ou trabalhavam na casa-lar eram como uma família, pois a família adotiva “na verdade já não era mais”. E foi em função da convivência com essa família que ela diz ter mudado muitas coisas na sua vida, sobretudo em termos de valores, de uma moral que, hoje, ela procura seguir na criação dos seus filhos. Ao contrário de reforçar uma posição de vítima e de alguém que teve seus direitos violados, que seria produto da experiência familiar e mesmo da institucionalização, a jovem, assim como a Clarissa e a Virgínia, encontra sua “potência” no devir mãe. “Eu, como a Alice – não sei as outras pessoas –, mas a gente sempre tirou, como a diretora da casa-lar sempre falou, bons exemplos. A gente poderia estar o quê? Poderia estar por motivo, porque como a pessoa é sofrida foi para lá, poderia ter motivo para estar nessa vida. E tem gente que tem tudo do bom e do melhor e tá roubando, traficando, tá usando, tá fazendo um monte de coisa. O que tu aprendeu ali foi para tua vida toda. Coisa que tu vai levar até para os teus filhos”.

Durante o período do acolhimento, a Isabelle também teve a possibilidade de ser adotada por uma família que ela havia conhecido através do “Programa de Apadrinhamento Afetivo64”. Nesse ponto, cabe

explicar, ainda que brevemente, sobre tal experiência, uma vez que esta será também mencionada nos relatos das outras jovens. Em linhas gerais, este programa institui madrinhas/padrinhos a crianças e adolescentes que residem em serviços de acolhimento, a fim de que

64

Uma refle xão ampliada acerca da experiência do Apadrinhamento Afetivo em Porto Alegre-RS encontra-se no trabalho de Luísa Maria da Silva Dantas (2011).

estes possam fortalecer seus vínculos com a comunidade. A ideia da criação e implementação do Programa de Apadrinhamento Afetivo nas casas-lares Nossa Senhora do Carmo e São João da Cruz (esta já extinta), no fim dos anos 90, surgiu da necessidade, observada pelos profissionais destas instituições, de responder ao que seria uma das maiores faltas das crianças e adolescentes: “a construção de referenciais individuais, fortalecendo sua subjetividade e a formação de vínculos, manifestando-se através da amizade e afeto” (DE OLIVEIRA, 1999, p.1). De acordo com Marcia de Oliveira (1999), assistente social da casa-lar Nossa Senhora do Carmo e também autora de uma pesquisa sobre a implementação do programa nas duas casas-lares mencionadas, o Apadrinhamento Afetivo, ao promover o “fortalecimento dos laços de amizade”, buscaria desconstruir, em alguma medida, a concepção de que o “apego” se constitui somente em função do “amor materno” ou “familiar” e também romper com o “ciclo da institucionalização”.

O casal que apadrinhou a Isabelle tinha duas filhas e a mulher queria adotar mais duas meninas, uma maior para fazer companhia para a filha mais velha e uma menor para acompanhar a mais nova. Nos fins de semana, o casal levava a Isabelle para a casa deles ou para passear, mas ela “acabou aprontando” porque ela não queria ficar com eles; assim como a Alice, ela não queria ser adotada novamente. “Eu já fui adotada, já fui maltratada, vou ser adotada de novo? Para quê? Para me causar mais trauma. Depois, para eles não poder me criar ou ela ter um problema de saúde e devolver de novo. Como em muitos casos acontece. Entendeu? Acho que se tem o compromisso de adotar é para a vida toda, não tem essa de chegar e ficar doente e querer devolver de novo”. E, ao contrário de outras jovens que participaram da pesquisa, hoje, a Isabelle não se arrepende de ter feito a opção de não ser adotada. “Não me arrependo, não. Acho que eu não ia conseguir. Depois de velha, eu sabendo do meu caso, eu não ia conseguir chamar a minha família nova de pai e mãe”.

Nesse ponto, é importante observar que o parentesco, sobretudo as terminologias, por vezes, geraram o que, a princípio, poderia ser tomado como um mal-entendido na minha interação com as jovens. No entanto, as experiências das jovens, em especial da Isabelle, me permitem avançar na ideia de um simples mal-entendido acerca da palavra mãe e os significados que esta pode assumir. Quando a Isabelle começou a contar sua história, a palavra mãe era usada tanto para se referir a sua mãe adotiva, quanto a sua mãe biológica. Por conta disso, não era possível compreender que ela havia sido “dada” logo que nasceu e que a “mãe” que havia falecido era sua mãe adotiva. Então, eu

perguntei a ela: “e da tua família de sangue, fica alguém com quem tu tens contato?”. “Família de sangue” é uma expressão que outros jovens da pesquisa já haviam utilizado e que, naquele momento, me parecia funcionar como uma chave na compreensão dos relatos da Isabelle. E então, ela responde: “De sangue? Como assim de sangue?”. Nisso, procuro uma outra terminologia: “Tua família biológica”, que pareceu fazer menos sentido ainda. “Ã... não tenho biológica”, ela responde sorrindo. Eu insisto, nessa última vez, recorrendo equivocadamente ao termo “parente”: “Teus parentes mesmo?”. E nesse ponto a resposta dela fazia total sentido: “Quer dizer, os adotivos? Isso?”. Então, parecia que eu havia encontrado o termo: “Não, os que não são adotivos”. Nesse momento voltamos a nos entender e eu pude compreender que ela não tinha notícias sobre os pais de sangue. Mas permanecia a curiosidade sobre a terminologia, uma vez que ela desconhecia expressões como “de sangue” ou “biológico”. E, por isso, perguntei novamente: “Como é que tu chamas, por curiosidade, aqueles que não são os teus pais adotivos?” E num tom de obviedade, ela responde: “Chamava por pai, mãe... normal”. Ela tinha uma explicação para os termos, como posso observar quando fala novamente nos pais adotivos: “pai e mãe adotivo, pai e mãe de coração”, mas na prática a marcação se desfaz e o termo “mãe” é usado indiscriminadamente.

A palavra mãe, assim como a palavra pai tomada como exemplo por Wagner (2010, p.79), carrega múltiplas possibilidades de associações, entre as quais estão as de parentesco biológico e as de relações de parentesco (agir como mãe). Assim como a palavra pai, “mãe” tem um amplo leque de significados e associações convencionais, uma incalculável disseminação de associações pessoais ou idiossincráticas para diferentes indivíduos e grupos. A palavra “mãe” é usada, por exemplo, correntemente tanto para designar a mãe de sangue, como a mãe adotiva, ou mesmo alguma outra parente, ou amiga próxima. O que se pode perceber, e isso hoje não é mais nenhuma novidade, é que a palavra mãe, por exemplo, é atribuída às pessoas próximas que possuem determinados atributos ou agem de determinadas formas (em termos de cuidado, de afeto, da ajuda financeira, da ajuda na criação dos filhos, por darem conselhos) sem que haja consanguinidade. Então, a partir dessa conversa com a Isabelle, em vez de enfatizar essas múltiplas possibilidades de associações que a palavra mãe pode ac ionar, pretendo pontuar justamente o “ponto de vista cultural do definidor”, no caso da jovem, sobretudo em termos das suas prioridades, das associações possíveis que julga ter maior peso nas suas experiências. Ou seja, para ela, as relações de parentesco eram “básicas” e todas as outras

(em especial o parentesco biológico) seriam mais uma “extensão” dessas. Para a jovem, o importante, sobre sua experiência, não eram os acontecimentos pregressos ao seu nascimento, mas sim o que aconteceu na sua vida a partir do momento em que foi “dada” na maternidade. A mulher que a criou/adotou era sua mãe e isso era o mais importante a ser relatado, isso informava sobre o que ela poderia ser e também sobre a sua família. E para além disso, o aparente mal-entendido da minha comunicação com a jovem estava na verdade sinalizando também que os contextos nos quais os elementos simbólicos (tais como o termo mãe) se relacionam entre si, nunca são, como lembra Wagner (2010, p.81), “absolutamente convencionalizados no sentido de serem idênticos para todos aqueles que os compartilham; sempre têm pontas soltas, são incompletamente partilhados, estão em processo de mudança...”. E, seguindo tal perspectiva, fica mais fácil compreender que não se tratava de um “mal-entendido”, mas sim do fenômeno da “equivocação não controlada” (KELLY, 2010).

2.5 NICOLE: “A GENTE NÃO TEM COMO ESQUECER, MAS EU

Dans le document Notes du cours bas´ees sur le livre Physique (Page 191-197)