Chapitre 2 : Le problème du legs de l’inscription
2. Digression : mise en scène de Lucy, celle qui n’inscrivait pas
geográfica é diversificada: são oriundos de Fortaleza, de outras capitais do Norte e do Nordeste ou de cidades do interior. Migraram para a cidade grande para estudar ou arranjar um emprego; aqui chegando, sem maiores perspectivas e condições para desenvolver algum projeto de vida, vão parar nas esquinas, nos cinemas pornôs, nas saunas ou em outros locais de comércio sexual: “caem na vida” e se tornam “profissionais do sexo”, “garotos de programa”, “prostitutos”, “boys” ou “michês”, como se autodenominam Marcelo, Rafael, Pedro, Gabriel, Felipe, Pablo, Marley e David26, sujeitos da presente pesquisa.
A julgar pelo número de michês que circulam nas ruas centrais da cidade27, pode-se pensar que eles não são muitos. Na verdade, não se conhecem registros que possam identificá-los, nem dados que sugiram a quantidade de jovens envolvidos na prática da prostituição masculina em Fortaleza28. Pelo mesmo motivo, não se pode afirmar que o perfil dos sujeitos desta pesquisa29 corresponda ao do universo dos garotos de programa. A literatura e as observações feitas, no entanto, não deixam dúvidas de que se trata de uma população jovem. Ainda que a média de idade dos entrevistados seja de 27 anos – sendo a menor idade de 23 anos e a maior, de 35 anos – é frequente, nos espaços observados, a presença de garotos que aparentam menos de 18 anos. No entanto, o fato de ser ilegal a prática de prostituição com menores de idade provavelmente contribui para a superestimação da faixa etária dos michês.
A iniciação na atividade se dá, via de regra, na adolescência. Este fato, juntamente com a pobreza das famílias, está relacionado com a baixa escolaridade dos garotos de programa. Segundo eles, empurrados pela necessidade e até mesmo influenciados por algum membro da família, foram “para rua” muito cedo, o que os levou a se distanciar da sala de aula. Assim, apenas um dos oito pesquisados afirmou ter concluído o ensino médio; nenhum dos demais chegou a
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Nomes fictícios.
27 No Capítulo 5 serão analisados os espaços onde os michês exercem sua atividade.
28 Os dados sistemáticos disponíveis referem-se apenas à população homoerótica (“homossexuais” e “bissexuais”) jovem (na faixa etária de 15 a 29 anos) de Fortaleza, estimada em 11% (70.006 pessoas) do universo pesquisado em 2006 pela Assessoria de Juventude do Gabinete da Prefeita de Fortaleza (PEDROSA; ROCHA, 2008, p. 15). Outra pesquisa, realizada pelo Grupo de Resistência Asa Branca (GRAB) em 2007 contemplou uma amostra não probabilística de 103 indivíduos pertencentes àquele segmento, dos quais 34 (33%) declararam fazer sexo em troca de dinheiro (PEDROSA; ROCHA, 2008). Não há, portanto, informações sistemáticas e abrangentes com relação àqueles que praticam a prostituição.
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Dados mais detalhados sobre as características dos sujeitos da pesquisa são apresentados no Apêndice A.
terminar o ensino fundamental. Daí ser difícil o ingresso no mercado de trabalho formal, apresentando-se a prostituição como uma alternativa de sobrevivência. O depoimento citado abaixo ilustra com clareza essa situação:
[...] a minha educação foi muito pouca; eu não tive incentivo para ir para uma escola estudar, terminar os estudos, me profissionalizar para o mercado de trabalho, para assumir um emprego e no meio de tudo isso, eu cresci e tive que sobreviver sozinho, me manter sozinho, por não ter apoio. [...] na hora H, quando a pessoa pergunta qual é a sua capacitação de trabalho, qual a sua profissão, eu não tenho nenhuma e por conta disso eu perco muito, inclusive, de ter uma vida digna, porque não é uma coisa legal. (Marley).
A entrada na prostituição, quase sempre, foi condicionada por fatores econômicos:
[...] Cair na vida foi a pior coisa que já fiz [...], mas, eu sabia que ia precisar. [...] eu estava precisando naquela época de roupa, calçado, [e] o meu pai me dava conselho, mas não me ajudava tanto, tá entendendo? Aí o que fiz? Conheci no centro a [boate] Divine e a partir da Divine conheci o mundo gay, o mundo GLS e caí nesse mundo e aí fui conhecendo pessoas que olhavam pra mim e diziam assim, “olha, eu vou pagar pelo que você vai fazer comigo”. Eu estava necessitado e daí eu me acostumei desde os 18 anos de idade a fazer programas, vender meu corpo e até hoje, aos 24 anos, eu venho fazendo isso. (Felipe).
A centralidade dos fatores econômicos na trajetória dos garotos de programa que trabalham em áreas centrais da cidade também foi constatada na pesquisa que Perlongher realizou em São Paulo:
No ingresso ao mercado da prostituição intervém uma multiplicidade de fatores. O econômico costuma aparecer manifestamente como determinante: a miséria e o desemprego crônico de vastas massas, particularmente grave entre os jovens, criam ‘condições objetivas’ para que a prostituição seja encarada como uma ‘estratégia de sobrevivência’ e legitimada por seus praticantes enquanto tal (PERLONGHER, 2008, p. 205).
Pinel destaca os aspectos negativos da atividade, na qual se mesclam “desejos e negócios”:
O trabalho em geral, e quando da sua vivência dolorosa, pode levar o sujeito a alienar-se. Tornar-se estranho. Se o desemprego ameaça e obriga a muitos fazerem o que não gostam, podemos imaginar o que a michetagem pode trazer de impacto maléfico no jeito de ser, de pensar e de agir do michê (PINEL, 2003; p. 82).
Contudo, Perlongher assinala que a relação pobreza-prostituição masculina não é um processo unívoco, uma vez que depende de uma variedade de
dispositivos sociais. O encontro entre “massas de adolescentes desterritorializados pela miséria, minoritarizados [sic] pela idade” e “massas de homossexuais pescando no esgoto das margens a água-viva do gozo” é intermediado pelo desejo, o qual, mesclado ao dinheiro, acentua oposições binárias da sociedade: “de classe (rico/pobre), de idade (jovem/velho), de gênero (macho/bicha)”. (PERLONGHER, 1987a, p. 58). Os jovens vivem em permanente movimentação, insegurança e incerteza. São muitas idas, vindas, encontros. A busca pelo desejo pulsante não permite que parem.
Em Fortaleza, não existe um lugar específico de residência dos michês. Diferentemente do que ocorre em outras grandes cidades do mundo, na capital cearense não há bairros gays, como Castro em São Francisco, Greenwich Village em Nova York, Covent Garden em Londres ou Oxford Street em Sydney (PARKER, 2002, p. 175). Nesses locais, o “gueto homossexual” se constitui em um território delimitado por uma forma específica de ocupação e utilização, sendo inclusive local de moradia desse público. (FRANÇA; SIMÕES, 2005). No caso dos sujeitos da presente pesquisa, uns residem em bairros da periferia da cidade; outros fazem um percurso maior, vindos de municípios da Região Metropolitana de Fortaleza ou de outros municípios próximos. Por vezes, vivem em minúsculas quitinetes ou quartos alugados, nas imediações do centro30. É improvável que possuam veículo motorizado; no caso dos sujeitos da presente pesquisa, os que residem na periferia ou em outras cidades fazem o percurso para o centro por meio de transporte coletivo; os que moram nas imediações fazem seu trajeto a pé.
Na aparente homogeneidade das condições econômicas precárias, entretanto, há lugar para variações nas estratégias de sobrevivência. Alguns vivem com suas famílias, têm outras ocupações e prostituem-se ocasionalmente. Diferem dos "michês profissionais", aqueles que têm “expedientes intensivos de trottoir” e trabalham durante horas, adentrando a madrugada (PERLONGHER, 2008, p. 142). São eles que têm a situação econômica mais precária, sobretudo os que trabalham no centro da cidade:
30 Foram mencionados casos de garotos que alugam um quarto, em casa mantida por um cafetão. Geralmente, esses garotos residem em municípios próximos e veem, frequentemente, “batalhar programa” em Fortaleza. De um modo geral, não se constatou, na presente pesquisa, uma atuação significativa de cafetões, provavelmente porque o michê que trabalha na rua não necessita de intermediação para conseguir programas.
Olha a gente ganha muito pouco, porque tem a concorrência, e o preço é avaliado de acordo com o local: na Beira-Mar, o programa custa R$ 50,00; mas no centro, o programa custa apenas R$ 30,00. Então, no máximo, em um dia bom, dá pra se ganhar R$ 100,00. [...].
O valor de R$ 30,00 reais, na verdade, corresponde ao máximo cobrado por programa contratado na área central. Os preços são combinados com o cliente e variam de acordo com o tipo de serviços sexuais e do local onde estes acontecem:
[...] transa rápida, R$10,00 por 10 minutos; sexo oral, R$ 10,00 – para ejacular na boca, se cobra mais caro; quando há penetração, o valor é dobrado. O menor valor pago por um programa de michê de rua é de R$ 5,00 na rua e de R$ 7,00, nos cines; o melhor é de R$ 20,00 na rua e R$ 30,00 nos cines. (Pablo)
Existe, ainda, um tipo de transação – o “programa completo” – cujo preço varia entre R$ 30,00 e R$ 50,00, conforme o local e o tempo de duração. Nele, são liberadas todas as práticas sexuais entre michês e clientes:
O programa completo é aquele onde rola tudo, acontece tudo: é frente, é verso, beijo, abraço, passivo, ativo; o tempo é mais longo, duas horas, três horas; o gozo também faz parte, você goza uma, duas vezes, isso é um programa completo. (Marley)
No outro extremo da escala de remuneração, os garotos em situação mais precária chegam a aceitar “cliente vale tudo” – aquele que “não tem dinheiro e paga a gente com vale: vale transporte (R$ 2,00 ou R$ 3,00, depende da linha de ônibus) ou vale refeição (R$ 6,00, R$ 7,00, depende da empresa)...” (Pablo). Quem aceita esse tipo de pagamento é chamado de “michê varejão”, porque “faz por qualquer preço, não se valoriza, é pobre total, sofre e sofre muito”, no dizer do mesmo entrevistado.
Em contrapartida, os garotos que têm “jogo de cintura” sabem tirar dinheiro da clientela que utiliza seus serviços. Em alguns casos, eles se tornam “exclusivos” de algum cliente, para garantir uma “pensão” ou “ajuda de custo”, situação que coincide com os achados de outra pesquisa:
Alguns clientes chegavam a manter relações de “exclusividade” com um garoto (o que aumentava sua disponibilidade para gastos com o mesmo), outros mantinham relações de “ajuda” e amizade fora da sauna. Essa questão da “ajuda” é muito presente na fala dos garotos, para solicitar dinheiro. Nunca explicitam que querem o dinheiro do cliente, quando este se torna seu cliente habitual [...]. Além desse dinheiro, pedem pequenas “ajudas”, e sempre há inúmeras narrativas de necessidades domésticas,
com a casa ou com os filhos, para o que contam com a generosidade de seu amigo mais velho. (PAIVA, 2009, p. 11-12).
Quando da saída de suas localidades de origem, os sonhos eram muitos, como ajudar a família e ter uma vida mais confortável:
o meu grande sonho é eu poder mostrar e dar à minha família uma vida que ela não conhece, que é uma vida com conforto, saber o que é comer uma comida boa, saber o que é usar uma roupa boa, um perfume bom, ir a um ambiente legal (Marley).
Há os que almejam sair do país, usar roupas e calçados da moda, frequentar ambientes que lhes são negados. Suas aspirações não se reduzem à aquisição de bens para uso próprio, mas incluem também ter meios para usufruir do lazer e da sociabilidade, como ir à praia com a namorada e dar um presentinho para a mãe. Outros têm sonhos mais intangíveis, como encontrar um companheiro: “Meu sonho é encontrar alguém com quem eu possa dividir os meus dias, a minha vida, para que possamos construir algo junto” (Marley)
No que tange à organização dos garotos de programa como categoria profissional, verifica-se que é tímida a sua participação em espaços institucionais. Em que pese o crescente reconhecimento de direitos aos homoeróticos (união civil estável, adoção, etc.) e a existência de organizações ativas das profissionais do sexo, como a Associação das Prostitutas do Ceará (APROCE), não se verificam movimentos ou organizações similares no caso dos michês.
Em Fortaleza, segundo informação de um membro do Grupo de Resistência Asa Branca (GRAB), por ocasião da execução do Projeto Entre Bi31, no período de 2005 a 2007, a entidade constituiu uma Organização Não Governamental (ONG) denominada Associação dos Profissionais do Sexo (APELE), juntamente com os rapazes que trabalhavam no projeto e o público contemplado pelos seus serviços. Contudo, a organização funcionou somente no período de execução do projeto, apesar de ter sido legalmente registrada.
É interessante notar que, embora vivendo na prostituição há algum tempo, os garotos analisados neste estudo insistem em dizer que se trata de uma atividade provisória. Eles procuram disfarçar sua condição de prostituto por entenderem que
31 Projeto financiado com recursos do Ministério da Saúde do Brasil, no período de 2005 a 2007, com o objetivo de divulgar informações sobre saúde, direitos humanos, cidadania e sobre instituições que trabalham com prevenção e tratamento em DST’s/AIDS, para um público-alvo denominado no projeto de “homens bissexuais, garotos de programa e parceiros de travestis”.
se trata de uma atividade desprestigiada, com a qual se envolveram por necessidade, e da qual esperam sair tão logo seja possível.