Tregenna (2014) também trata a questão da desindustrialização através da participação setorial da indústria de transformação no total da economia. Contudo, a autora inicia sua argumentação desconstruindo o procedimento pautado nos conceitos de setores da contabilidade nacional e reconstruindo-os sob uma perspectiva marxiana24. O resultado disto é apresentado no quadro a seguir.
Quadro 1 – Mapeamento de setores numa tipologia Marxiana
Setor Indústria Manufatureira Indústria Extrativa e Agropecuária Serviços Tipo Produtor de mais- valia Capitalista 1. Produção capitalista de mercadorias manufaturadas (indústria geral) 2. Produção capitalista de mercadorias extrativas e agrícolas (indústria geral) 3. Produção capitalista de mercadorias serviços (serviços industriais) 4. Transporte e armazenamento (serviços industriais) Não produtor de mais-valia Capitalista 5. - 6. - 7. Serviços capitalistas ligados à esfera da circulação (serviços da circulação) Não-capitalista 8. Produção não- capitalista de mercadorias manufaturadas 9. Produção não- capitalista de mercadorias extrativas e agrícolas 10. Serviços não- capitalistas –ligados ou não à circulação (serviços não capitalistas) Fonte: adaptado de Tregenna (2014, p. 1378).
As atividades produtoras de mais-valia são aquelas nas quais o capital assume a forma produtiva, sendo esta representada pelas seguintes expressões:
𝐷 − 𝑀𝐹𝑡𝑀𝑝… 𝑃 … 𝑀′− 𝐷′
24 “The economic process in capitalism with which Marx is centrally concerned is the production and appropriation of surplus value. The fundamental question from a Marxian perspective in classifying an activity is its relationship to the production, realisation, appropriation and distribution of surplus value” (TREGENNA, 2014, p. 1377).
para o capital industrial em geral, e
𝐷 − 𝑀𝐹𝑡𝑀𝑝… 𝑃(𝑀′) − 𝐷′
para o capital que assume a forma de serviço industrial.
Onde 𝐷 é a forma dinheiro do capital, 𝑀𝐹𝑡𝑀𝑝 é a forma de transição que representa a compra de meios de produção (𝑀𝑝) e força de trabalho (𝐹𝑡), 𝑃 é a forma produtiva e 𝑀’ a forma mercadoria (acrescida de mais-valia). 𝑃(𝑀′), por sua vez, representa a venda do próprio processo produtivo como mercadoria.
As atividades capitalistas que não produzem mais-valia são aquelas que estão ligadas apenas à esfera da circulação. Portanto, elas não produzem, mas se apropriam do excedente. As atividades não capitalistas são aquelas que não produzem nem se apropriam de mais-valia. A autora apresenta duas maneiras pelas quais se manifesta a desindustrialização, que são não excludentes e podem ter causas e consequências distintas: Forma I) mediante a queda (ou estagnação) na atividade industrial manufatureira e o acréscimo das atividades não produtoras de mais-valia. No Quadro 1, corresponde a uma mudança das atividades representadas pela célula 1 em direção às células 7, 8, 9 e 10; e Forma II) pela queda (ou estagnação) na indústria manufatureira e o crescimento de outras atividades produtoras de mais-valia, que, no mesmo quadro, equivale a uma mudança das atividades presentes na célula 1 em direção às células 2, 3 e 4.
Para a autora, os exemplos da Forma I seriam: a financeirização da economia, a expansão do comércio em geral, a maior oferta de bens e serviços por parte do Estado e o aumento da produção agrícola de subsistência. Contudo, Tregenna (2014, p. 1383-4) argumenta que é pouco provável que as economias que atingiram certo patamar de desenvolvimento capitalista regridam a um estágio onde predominam atividades não capitalistas. Assim, a Forma I da desindustrialização manifesta-se, majoritariamente, pela transição aos serviços capitalistas da circulação. Outro fator que é levantado está ligado ao fracionamento e à mundialização do circuito do capital industrial, onde os países avançados tendem a executar os processos de circulação (financeira e comercial) e os países emergentes passam a executar partes do processo de produção, causando nos primeiros o aparecimento da desindustrialização. Como resultado, deixa-se de ter os “benefícios” ligados à atividade manufatureira, em especial a produção de mais-valia. Contudo, segundo a autora (p. 1385), isto não é problema para as economias
“exportadoras” (que transferem para o exterior) do processo de produção, pois elas conseguem compensar a perda de excedente produzido internamente ao “importá-lo” de outros países. Ao tratar da Forma II da desindustrialização, Tregenna (2014, p. 1386-7) afirma que se deve considerar a diferença entre a desindustrialização na direção do aumento da produção primária daquela que corresponde ao aumento nos serviços industriais. Associada à elevação da produção primária (agropecuária e/ou extrativa) está a Doença Holandesa no sentido dado por Palma (2005), ou seja, além da descoberta de recursos naturais, inclui a mudança na orientação da política econômica. Segundo a autora, isto tende a trazer um efeito negativo, devido ao fato de que tais atividades, em geral, não apresentam o mesmo poder da manufatura de dinamizar a economia. Por sua vez, a elevação dos serviços industriais pode apresentar dois resultados opostos. A elevação da participação de serviços tradicionais, tais como restaurantes, salões de beleza, prestadoras de serviços de limpeza, etc., tendem a ocasionar um efeito negativo. Isto se deve ao fato de que estas atividades não seriam capazes de compensar os benefícios associados ao desenvolvimento de longo prazo da atividade manufatureira. No que lhe diz respeito, a troca de produção de baixo dinamismo por serviços industriais de alta tecnologia, como a tecnologia da informação, poderia trazer um resultado positivo para o processo geral de acumulação. A partir do que foi apresentado por Tregenna (2014), devemos destacar o importante esforço de trazer a discussão a respeito da desindustrialização para o campo teórico marxiano. A classificação feita pela autora segue no sentido de que a desindustrialização corresponde à redução do papel do capital industrial maquinofatureiro em relação às demais atividades. Além disso, utilizando-se de outra linguagem e a partir de uma perspectiva kaldoriana, a autora também identificou as dificuldades trazidas pela desindustrialização aos processos de produção e acumulação de capitais: “decline in the share of manufacturing in surplus-value-producing
activities would tend to negatively affect the overall scope for cumulative productivity increases” (TREGENNA, 2014, p. 1387)25.
No tocante às formas e às causas da desindustrialização, contudo, podemos observar a ausência de uma concepção que englobe o funcionamento do capitalismo como totalidade e busque penetrar na sua essência. Como será visto no próximo capítulo, tanto a Forma I quanto a II apresentadas manifestam as modificações ocorridas no capitalismo mundial nas últimas décadas: os processos de financeirização, reprimarização das exportações e mundialização da
25 Apesar disso, dentro da linguagem marxiana, a autora não explicita o efeito negativo que a desindustrialização traz para o processo de reprodução do capital em um país, tal como detalharemos no próximo capítulo.
produção, por exemplo, são consequências da nova configuração do capitalismo pós 1970. Todavia, a autora, consequentemente, não mencionou como estas modificações influenciariam as economias de acordo com a hierarquia da economia mundial e os efeitos que a desindustrialização apresentaria em diferentes países.