As práticas culturais vivenciadas pelos estudantes ribeirinhos mobiliza uma rede de significações que constituem os valores associados à floresta, elementos considerados importantes nas relações estabelecidas na família e no social, assim como a percepção do espaço pela estética.
A dinâmica da vida ribeirinha estreita os laços na comunidade, e a aproximação se constrói no trabalho conjunto na produção de espeto, na pesca, no roçado, no preparo da farinha, ações de lazer, na caça, dentre outras atividades. Essas relações constroem e compartilham sentidos por meio da representação sobre a floresta. Como afirma Hall (2016, p. 20): “[...] a cultura depende de que seus participantes interpretem o que acontece ao seu redor e ‘deem sentido’ às coisas de forma semelhante”. O reconhecimento no outro partindo do sentimento de igualdade entre seus pares, aos modos de identificação, contribui para harmonização dos vínculos, sentimento de pertencimento ao grupo quando se trata das práticas para o trabalho, pois famílias se juntam em um local, conhecido como casinha para a produção do espeto.
O trabalho coletivo é descrito por P29; ela nos fala sobre o processo de produção do espeto, no qual seu tio extrai a madeira, corta em toras para que ela e sua mãe possam desfiar: “Tipo a gente vai dia de domingo, meu tio pelo menos né, ele vai dia de domingo pro mato, serrar e trazer. Aí quando é segunda, aí ele parte, a gente desfia....ele parte, aí minha mãe desfia”.
O sentido de cooperação dentro de suas casas transparece nos relatos dos estudantes entrevistados, como nos descreve P6: “Em casa eu costumo fazer as coisa: lavar louça... fazer espeto, arrumar a casa [...] Ajudo minha vó”. As atividades domésticas refletem o cuidado diário com o lar e as suas responsabilidades, como exemplifica P21: “Eu vou ajudar minha mãe a lavar a louça, eu varro a casa”. O mesmo vivenciado pela estudante, identificada como P18 “Ajudar minha mãe, arrumar a casa, lavar vasilha, limpar o terreiro”.
A visibilidade do convívio entre as famílias é perceptiva a partir da forma como as casas estão organizadas. Como não há muros que separem as casas uma das outras, acaba estreitando mais ainda os vínculos na comunidade. Essa proximidade se estende também à escola e à unidade básica de saúde.
A ausência de obstáculos proporciona um sentimento de tranquilidade e segurança. Em vista disso, outro diferencial presente na comunidade se trata pelo livre acesso a determinadas áreas em qualquer hora do dia. Como nos fala P20 sobre o que ele acha da sua comunidade: “É bacana, por causa quando cara quer sair, não tem perigo de ser assaltado né, ser roubado”. A apreciação pela região vem expressa nos dizeres de P18 ao afirmar que morar na comunidade apresenta boas qualidades que a difere do centro urbano: “Porque aqui é mais calmo. [...] Menos barulho, nós sai pra todos os cantos. Nós conhece todo mundo não é como Manaus”.
Além dos vínculos estabelecidos com o espaço ao se sentir parte integrante da comunidade, a organização do espaço requer um estilo de casa almejado por muitos moradores, assim como definem o local bonito/feio pela forma em que se apresenta a parte da frente e arredores das casas. Morar às margens do rio Negro requer uma arquitetura que se adapte aos movimentos das águas. A aproximação do rio facilita a locomoção pela canoa e acesso aos barcos de passeio que passam em dias específicos rumo ao centro urbano de Manaus. Abaixo, temos uma ilustração de casa típica da população ribeirinha, a palafita (figura 29).
Figura 29-Casa ribeirinha pertencente à comunidade Nova Jerusalém às margens do rio, a palafita.
Esse tipo de construção tem sido mais propagado em alguns artefatos culturais; por exemplos, as mídias como sendo a casa típica do povo ribeirinho, cultivando uma representação única de moradia. Conforme Hall afirma (2016, p. 193), a representação exerce “o poder de representar alguém ou alguma coisa de certa maneira”. O autor ainda destaca que a estereotipagem é uma forma de marcar determinado povo. O convívio na comunidade desnaturaliza as imagens fortificadas sobre modos de vida ribeirinha idênticos, incluindo o tipo de moradia. Elas têm aspectos semelhantes, mas não idênticos, pois cada moradia carrega consigo sua peculiaridade.
A construção das casas traz influências indígenas e nordestinas, pelo uso dos recursos naturais vindo da floresta e técnicas para construção, assim como apresenta o estilo europeu representado pela varanda ao redor da casa (FRAXE, 2004). É importante ressaltar que nem todas seguem mesmo estilo como ilustrado na figura 29, mas é o modelo mais desejado pelas famílias. Em terra firme, algumas casas seguem o estilo com varanda; entretanto, esee tipo arquitetônico demanda matéria-prima para construção. Em vista disso, nem todas possuem a mesma configuração (figura 30).
A percepção do que seja um terreno considerado bonito para comunidade exige que o espaço seja roçado, sem vegetação, nas palavras dos estudantes ribeirinhos. A área precisa
Figura 30-Casa ribeirinha em terra firme, comunidade Nova Jerusalém.
estar limpa. No trecho abaixo, P29 nos explica o sentido empregado à palavra “limpo” no contexto da região:
Eu digo, nesse sentido figurado de limpo quer dizer que, tipo lá é mais que falei naquela hora, mas desmatado, limpo no sentido de árvores ao redor das casas, entendeu?! Porque se observar aqui, pode ver, oh tem várias árvores distantes para poder chegar na tua casa, tem várias árvores ao redor, digo limpo de árvores. [...] Digo limpo de árvores! De mata!
Esse excerto expõe o estilo do paisagismo desejado de terreno para se morar que corresponde a um padrão dentro da comunidade. Mas a forma arquitetônica da moradia e espaço ao seu arredor “capinado” transpassa o sentido de ser aceitável/bonito/agradável, dentre tantos outros adjetivos. Essa forma de se pensar a moradia está conectada com as relações que estabelecem com o espaço.
A presença de estrutura de alvenaria está presente na comunidade Nova Jerusalém, fruto das intervenções urbanas; representa uma alternativa econômica, já que evita substituir a madeira, principalmente do assoalho, que, com o tempo, pode entortar, permitindo a entrada de animais. Como exemplo, temos um dos quartos do alojamento dos professores; o assoalho apresenta um espaço largo entre uma e outra madeira, como também estão se deteriorando. A madeira como material orgânico tem um tempo de uso, com ação das chuvas e sol o processo de deterioração se acelera. De acordo com Seu Nicolau, morador da região, a pessoa que fez essa construção usou madeiras verdes deveria ter deixado no sol.
Além dos aspectos arquitetônicos, o sentimento esperado na comunidade que ela seja bonita se refere a não ter lixos jogados pela comunidade, como exemplifica P21, moradora da
Figura 31-Área interna do quarto do alojamento dos professores.
comunidade Lindo Amanhecer: “Acho bonita. [...] Porque apesar da natureza é... as pessoas cuidam de lar e não deixam assim... tipo assim jogar lixo... essas coisas”. O fato de evitarem o acúmulo do lixo nos terrenos demonstra manutenção da qualidade de vida para todos que convivem naquele espaço.
O espaço limpo (sem vegetação/lixo) enaltece o modelo de moradia com grama e as relações consideradas aceitáveis para o bem-estar na comunidade, promove o sentido estético de beleza que acompanha os elementos que a compõe a natureza. Como nos descreve P23, os componentes responsáveis que confirmam o estado de a sua comunidade ser bonita, o Lindo Amanhecer, “porque tem várias pessoas, têm árvores, tem os passarinhos cantando”. Partindo disso, cada morador produz os sentidos em relação com a comunidade, o espaço, com o outro e consigo mesmo. Esses sentidos são construídos pelo sistema representativo. Assim, os valores perpassam por práticas significativas que constituem as suas representações, que, por sua vez, são fundamentalmente sociais (HALL, 2016). É no convívio com o outro que minhas ações vão sendo constituídas e transcende os modos de ver a floresta não somente como território habitável, mas como um espaço de múltiplas vivências.