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Após as considerações feitas sobre os dois autores presentes neste trabalho, faz-se possível identificar as diferenças entre os dois. O presente trabalho trata o erotismo, em suas formas e essência, porém cada autor o apresenta de determinada forma, tendo abordagens completamente distintas um do outro.

Bataille ambienta História do Olho naquele momento em que intelectuais e artistas franceses estavam saturados dos efeitos político-econômicos da filosofia iluminista em alguns países europeus. As consequências da revolução industrial tais como a mecanização do homem e a exploração do trabalho dos operários traziam preocupação com a qualidade de vida do indivíduo e com as relações humanas. Por isso o filósofo francês se voltou para a Espanha porque esta não havia aderido aos ideais iluministas e, portanto, apresentava um

ethos mais passional. Já Bellatin está na pós-modernidade politicamente correta quando há

uma série de micropolíticas ativistas que no fundo demonizam práticas mais instintivas e

10 Não, realmente, não se necessita feitiço nem magia, não se necessita uma alma nem uma morte para que seja opaco e transparente, visível e invisível, vida e coisa; para que seja utopia basta que seja um corpo. Todas essas utopias das quais meu corpo esquivava, simplesmente tinham seu modelo e seu primeiro ponto de aplicação, tinham seu lugar de origem em meu próprio corpo e talvez logo se voltariam contra ele.

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eróticas. Bellatin contesta isso e reafirma os instintos assim como Bataille, mas de forma diferente por motivos distintos.

Encontramos em História do olho uma violência maior, um erotismo mais explícito, não somente para com terceiros presentes na obra, como também entre os próprios personagens principais, Narrador e Simone. Esses personagens não apresentam interditos, assim não se abalam com os acontecimentos ao seu redor, um bom exemplo dessa violência apresentada por esses personagens são as mortes que ocorrem ao longo da narrativa. Primeiro a morte de Marcela, que está ali com eles no mesmo espaço, deitada no chão, morta com os olhos abertos. Essa imagem não causa impacto nos dois, eles não se inibem, ou se amedrontam diante da morte, afinal nesse momento Marcela se converte em representação da morte, ali ela nada mais é que um corpo já sem vida ainda de olhos abertos. Não que a morte da garota não os sensibilize, porém o sentimento que a situação causa neles é muito distinto, tanto o é que os dois estabelecem o ato sexual pela primeira vez e o Narrador afirma que foi um momento de dor para os dois, principalmente porque Simone ainda era virgem. Foi essa a forma de expressão dos personagens de Bataille, enquanto estavam mantendo relação o Narrador fixa nos olhos abertos de Marcela, essa é uma imagem que ele deixa ao leitor Os

olhos da morta, enquanto que Simone se comporta de maneira fria, estranha, parecendo não

se importar com o ocorrido. Há ainda uma segunda morte na narrativa, que é a do padre que encontram ao visitar a igreja de Don Juan. Essa morte é provocada por eles, o padre aparece nitidamente como representação da falta de interdito dos dois. Um padre trata-se, sem dúvida alguma, de uma figura de autoridade, uma figura paterna sagrada sendo ele uma espécie de ferramenta de Deus na terra. Os personagens levam o padre ao pecado extremado, finalizando com sua morte e mesmo depois do padre já morto Simone ainda se diverte com esse corpo, agora imóvel. Ao final de tudo eles simplesmente se vão, sem nenhum peso, Simone ainda pede ao seu admirador o olho do padre como uma espécie de suvenir e Sir Edmond prontamente a atende, evidenciando nenhum tipo de respeito ou receio pelo ocorrido com o padre dentro da igreja.

Em Flores, diferentemente, somos confrontados com as atrocidades da vida como, uma família levada a “procriar” entre si para não assolar a sociedade com a sua genética ruim, gêmeos que nascem debilitados fisicamente e são abandonados em uma caverna onde não sobreviveriam se não tivessem sido encontrados, um homem que não quer ser pai e deseja somente crescimento profissional e dinheiro, que ao se deparar com a paternidade não a aceita

em nenhuma instância chegando ao ponto de atentar contra a vida do próprio filho, um homem esfaqueado por estar vestido de mulher idosa e ainda, a história do escritor, personagem vítima de um medicamento ministrado à sua mãe durante a gestação para alívio de enjoos.

Os personagens de Bellatin apresentam desde o início da vida uma história conturbada, uma luta e também uma debilidade, trazendo por meio dessas atrocidades da vida a beleza de sua essência. Os gêmeos kunh não tinham nenhuma chance de sobreviver ao serem abandonados em uma caverna entre terra e água, mas não só sobreviveram como seguiram o caminho da poesia. Marjorie mesmo depois do que passou no casamento e agora com um filho permanentemente doente, conseguiu seguir em frente e casou outra vez. O Amante Outonal após perceber a intolerância social e o risco que corria enquanto tentava satisfazer seus desejos não desistiu da busca por seus desejos, encontrou um lugar para praticá-los em segurança. São personagens que apresentam não só erotismo como também uma beleza extrema em sua essência.

Diferentemente dos personagens de Bataille, os personagens presentes em Flores estão marcados pelo interdito. Em História do Olho Simone não apresenta nenhum limite, nem mesmo diante da mãe, que aparece em determinadas passagens, mas nunca repreende a filha, ao contrário Simone se mostra sempre no domínio dessa mãe. O Narrador segue Simone durante a narrativa em todas as aventuras por ela propostas e na única ocasião que menciona seus pais é quando vai até em casa, rouba a arma do pai e deixa um bilhete para que não o procurem e em nenhum momento essa família o procura. Simone e o Narrador sentem-se livres para tudo, assim as aventuras acabam desembocando em tragédias. Já na obra de Bellatin os personagens já tem o interdito determinado desde o início da vida, seja através da figura paterna ou de representantes da medicina, são personagens que chegam na vida marcados por uma autoridade. E esse interdito, por eles reconhecido desde o início não os impedem de “escrever” sua própria história e principalmente de se aceitarem como são trazendo sentido a sua existência em uma vida completamente sem sentido.