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Les autres différences retrouvées entre la population en situation de précarité et la

IV. DISCUSSION

2) Les autres différences retrouvées entre la population en situation de précarité et la

José Miguel Gonçalves Nascimento

Relatório de acompanhamento psicológico (Jorge - 28/04/2015)

O Jorge apresentou-se durante esta semana emocionalmente reativo no âmbito da comunidade e suas tarefas associadas. Através da troca de impressões com os respetivos terapeutas e da leitura que foi possível realizar ao longo do dia, percebeu-se o desconforto do utente relativo à situação relacional com a irmã. Deste modo, o acompanhamento incidiu um pouco sobre isto para além da continuação da releitura da história familiar.

A sessão foi iniciada por um espaço de escuta e compreensão empática proporcionado ao utente, estimulando o mesmo a expressar-se quanto ao que sentia. O Jorge começou por assumir claramente a intenção de cortar relação com a irmã uma vez que a mesma “o teria acusado sem o escutar, algo que o pai nunca faria”. Estimulei o utente a desenvolver o seu pensamento quanto à situação bem como a colocar-se no lugar da irmã. O Jorge continuou a manter a posição de intransigência e incompreensão perante a atitude percecionada da irmã. Reconhecendo alguma discrepância entre o conteúdo verbal e não-verbal do utente, nomeadamente um nível de agastamento incoerente com o seu discurso, coloquei-lhe a possibilidade de haver porventura outras razões a identificar, e pelas quais o utente sustentaria esta posição relativamente à irmã. Perante a circularidade da sua narrativa, questionei-o quanto à relação mantida entre a irmã e a mãe ao que o Jorge referiu que a C. se encontra zangada com a mãe desde há alguns anos. De acordo com este dado, estabeleci um paralelismo com o Jorge relativamente à sua própria posição manifestada até bem recentemente quanto à sua mãe, em tudo semelhante à da irmã. O Jorge refletiu um pouco declarando que, apesar de tudo, tinha conseguido ultrapassar os sentimentos negativos, o ressentimento e o bloqueio relacional que detinha com a mãe desde há alguns anos através da recente experiência da possibilidade da sua morte, julgando o utente que se ele conseguiu a irmã também deveria fazer o mesmo. Questionei ao utente o porquê desta sua convicção e pedi-lhe que, trazendo à memória os momentos passados entre ele, a irmã e a mãe, se tentasse colocar no lugar da irmã e perceber o que poderia estar a sustentar a sua posição. O utente referiu compreender em parte os motivos da irmã, revalidando a sua perspetiva de que a mesma poderia, tal como ele, perdoar a mãe. Tendo em conta esta perspetiva algo egocentrista do utente coloquei-lhe algumas considerações: “O que te faz pensar que a tua irmã tem de pensar da mesma forma? Será que a C. viveu esta notícia da vossa mãe da mesma

ͳʹͲ forma que tu (Jorge) viveste? E será que tem de a viver da mesma forma?”. Fiz também notar o utente que, no âmbito da relação terapêutica, eu não o censurei de qualquer modo quando apresentava a mesma narrativa da irmã relativa à mãe – recorde-se que o utente chegava a recusar-se abordar este assunto, rejeitando o contacto com a mãe e referindo repetidamente que este “era um assunto encerrado”. Por outro lado, refleti um pouco ainda com o utente sobre a diferença de idades entre si e a sua irmã, a forma como cada um dos irmãos poderá ter vivido o abandono da mãe – o Jorge tinha 10 anos, a C. tinha cerca de 15/16 anos – e a influência que também este dado, entre outros, poderá ter na relação de cada um com a mãe – recorde-se que a C. passou a desempenhar um papel de segunda mãe durante este período.

No tocante ao estado de relação atual do Jorge com os (poucos e restantes) familiares, em especial com a irmã nas últimas semanas, num segundo momento da sessão estimulei o utente a fazer uma releitura da sua história familiar nomeadamente a partir do genograma. A partir da mesma foi possível refletir com o utente acerca das suas relações familiares, atentando nomeadamente no padrão transgeracional de corte relacional. Deste modo tentei perceber a sua interpretação do padrão familiar. O Jorge começou por dizer que estava tudo separado e que as pessoas não falavam umas com as outras. “Mais do que isso” – fiz notar – “qual é o significado de todas estas separações sucessivas e recorrentes que presencias desde pequeno?”. Perante a dificuldade do utente, reformulei a reflexão estabelecendo um paralelismo entre o padrão relacional familiar e o seu próprio padrão relacional, recordando os vários cortes pelos quais o utente já passou. O utente denotou alguma tomada de consciência quanto a este aspeto, referindo que desde cedo passou por várias desilusões de pessoas que “encontrou” e posteriormente “perdeu”. Desenvolvendo esta ideia, e acompanhando o seu raciocínio, fui estimulando a um maior aprofundamento. “Vês alguma semelhança entre o teu comportamento, a tua forma de estar nas relações, e a forma de estar dos teus familiares, da tua mãe, dos teus irmãos… ao longo do tempo?” – perguntei a dado momento. O Jorge referiu bastante o facto de os membros estarem separados, de se terem chateado em algum momento, chegando a referir em tom jocoso que “são todos tolos”. “Então há alguma similaridade?” – coloquei. No entanto o utente manifestou significativa dificuldade em aprofundar a este ponto, pelo que o auxiliei mais um pouco a realizar uma possibilidade de leitura: fui abordando com o utente o seu e o percurso de cada membro identificado no genograma até o Jorge identificar a similaridade e a existência de um padrão de corte relacional comum aos vários membros. Posteriormente dei um espaço ao utente para se inteirar um pouco melhor desta reflexão e para comentar esta «descoberta».

ͳʹͳ Num terceiro momento da sessão e no seguimento da releitura do genograma e da história de vida associada foi abordada – agora à luz desta base de compreensão mais sólida – a importância do estabelecimento de uma base estruturante, relacional e familiar sólida, detentora de um papel fundamental enquanto matriz da identidade individual (Cigoli & Scabini, 2006), matriz de socialização (Scabini & Cigoli, 2000), e meio integrador das experiências relacionais por excelência (Andolfi, 2013; Cigoli & Scabini, 2006; Scabini & Cigoli, 2000) indispensável neste momento particular da vida do utente em que se preparam transições tão importantes e significativas.

Referências bibliográficas

Andolfi, M. (2013). Terapia familiar: Un enfoque interacional. Barcelona: Paidós.

Cigoli, V., & Scabini, E. (2006). Family identity: ties, symbols, and transitions. New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates.

Scabini, E., & Cigoli, V. (2000). Il famigliare: legami, simboli e transizioni. Milano: Raffaello Cortina Editore.

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