Tudo parecia correr bem naquela manhã de outono. O MUCANE 249 mais parecia um Terreiro de Candomblé em dia de festa, pois tamanha era a euforia e a movimentação de pessoas paramentadas com roupa-de-santo250. Gente dos mais diferentes status sociais reunidos com o propósito de reafirmar seu prestígio perante do grupo. Entre os presentes encontravam-se os membros do FOMAC, do Conselho Municipal do Negro de Cariacica (CONEGRO), integrantes da UNEGRO-ES, funcionários públicos de varias instâncias (PMV251, PMC, NEAB-UFES, SEPPIR), agentes do Sistema Único de Saúde (SUS) e macumbeiros em geral instalados na região. Antes mesmo de chegar ao museu, de longe era possível perceber o entra e sai de pessoas na portaria. Todos bem trajados pareciam aguardar ansiosos pelo início dos trabalhos. Os umbandistas, mais tímidos e retraídos, em sua maioria, aguardavam pelo início do Colóquio acomodados no auditório, enquanto que os membros do Candomblé, mais acostumados com a “festa”, exibiam com requinte suas indumentárias luxuosas com delicados arranjos e tecidos bordados em Richelieu. As numerosas e coloridas contas a adornar o pescoço davam-lhes o toque final. De maneira geral, todos se cumprimentavam, arquitetavam estratégias em falas articuladas e posavam para fotos como a um espetáculo. O evento todo se assemelhava a uma grande festa de Terreiro no qual os sacerdotes de maior status social eram sempre os mais visados em suas performances (Anotações do
caderno de campo sobre o Colóquio das Matrizes Africanas realizado no MUCANE em 23 de maio de 2015).
No sábado, dia 23 de maio de 2015, os membros do FOMAC juntamente aos integrantes da UNEGRO, funcionários das prefeituras municipais de Cariacica e Vitória, do Sindicato dos trabalhadores de saúde ES, membros dos Terreiros e convidados se reuniram no MUCANE para promover o I Colóquio dos Povos e Comunidades de Matrizes Africanas com o tema “Arte de curar e a
arte de cuidar nas Religiões de Matrizes Africanas: o que nos faz o que somos ao nascer é o que herdamos de nossos antepassados”. Cerca de 50 pessoas
compareceram ao evento, sendo o público em sua grande maioria formada por membros dos Terreiros de Candomblé e Umbanda do município de Cariacica.
Para promover o debate sobre o tema, o evento teve como palestrante Andrey Roosewelt Lemos (Departamento de Apoio à Gestão Participativa do
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O Museu Capixaba do Negro fica localizado na Avenida República, na capital Vitória/ES. Parte central da RMGV.
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Roupas típicas utilizadas nas dependências do Terreiro. De modo geral, as Iyabás (mulheres, mães do Asè) são trajadas de baiana (longos vestidos rodados), camisu (camisa com renda e manga), pano da Costa (espécie de echarpe) e Ojá (Torso). Os Omo (filhos-do-
Asè, homens) calça amarrada com cordão e camisa de mangas. 251
195 Ministério da Saúde); Ubiraci Matilde (Conselheira Nacional de Saúde e Coordenadora do Comitê de Saúde da população negra da BA); Maria Diana Cerqueira Sales (prof.ª e pesquisadora do curso de Farmácia Generalista e orientadora no Curso de Mestrado em Políticas Públicas e Desenvolvimento Local da Escola Superior de Ciências da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (EMESCAM); e Henriqueta Sacramento (médica especialista em homeopatia e mestranda em Políticas Públicas e Desenvolvimento Sustentável). A coordenação da mesa foi feita pela Prof.ª Heloisa Ivone da Silva Carvalho, diretora de Cultura e Educação da UNEGRO/ES.
Os objetivos principais do Colóquio, segundo pôde ser percebido ao longo de sua programação, estavam relacionados à promoção das CTTs, sendo utilizada para essa finalidade as temáticas do saber medicinal fitoterápico geracional praticado, ainda hoje, pelos afro-religiosos. Além disso, o fortalecimento do debate sobre as políticas públicas voltadas para os membros dos Terreiros existentes na RMGV, em destaque para aquelas que priorizam a questão da saúde dos afro-religiosos.
O Colóquio teve seu início com a execução do hino nacional brasileiro composto de ritmos regionais variados, que foi exibido no auditório com a ajuda de um projetor, seguido da formação de uma mesa de abertura.
Além dos palestrantes convidados para discursar na ocasião do evento, também se apresentaram junto à composição da mesa de abertura Pai Sandro de Jagun (Presidente do FOMAC), Adriana da Silva (Gerente da GEPPIR da prefeitura de Cariacica, Diretora Estadual do Partido PCdoB e Presidente da UNEGRO), Welington Barros do Nascimento (Coordenador do MUCANE e também integrante do UNEGRO) e Ilma Viana (Conselheira do museu e Gerente do Instituto Elimu Professor Cleber Maciel).
Durante sua fala inicial, Pai Sandro de Jagun destacou que não apenas a questão da saúde relativa ao “saber de cura”, proporcionado pelo manuseio do conjunto de ervas empregadas nos Terreiros, deva ser objeto de interesse, pois conforme ele afirmou “os próprios membros das Religiões Afro-brasileiras
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não encontram seguridade social para exercer sua prática religiosa na região onde moram, trabalham, votam, estudam, rezam e criam suas famílias”252
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O Coordenador do MUCANE, Wellington Barros do Nascimento, centralizou sua fala nos proventos advindos através da troca de saberes com a população negra em geral que não se limita à questão da saúde preventiva e ressaltou a importância da aquisição de políticas públicas que visam à valorização e a reprodução sadia das práticas e saberes dos Povos de Matrizes Africanas.
A gerente da GEPPIR, Adriana da Silva, por sua vez concebeu a importância do Colóquio como meio de resgatar e valorizar o conhecimento tradicional a partir da promoção de trocas de informações e experiências entre os sacerdotes, responsáveis pelo conhecimento tradicional, e os pesquisadores, técnicos, e trabalhadores da saúde. Segundo a mesma destacou:
“Nós precisamos nos unir contra todo tipo de discriminação, seja ela de raça, sexo, gênero ou religião. E podemos fazer isso valorizando o conhecimento do nosso povo negro, promovendo eventos como esse que está acontecendo aqui no MUCANE e lutando por políticas públicas...”. (Trecho retirado do discurso de Adriana da Silva,
MUCANE, 23 de maio de 2015).
Após as falas de todos dos componentes da mesa de abertura, deu-se início a exposição dos palestrantes convidados. Nessa ocasião cada um deles, devidamente fundamentados em seus respectivos históricos de afetamento com as CTTs, puderam conduzir seus discursos.
O conceito de afetamento adotado busca a noção empreendida por Marcio Goldmam (2003) que ressalta a necessidade do pesquisador de sair de sua condição própria por meio de uma relação de afeto com o nativo a ponto de promover uma condição outra. Em outras palavras, se metamorfosear com a ajuda do outro.
O primeiro a discursar foi Andrey Roosewelt Lemos, representante do Ministério da Saúde. Em sua fala destacou a carência de políticas públicas e de programas sociais que visam à área da saúde da população negra e dos afro-
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Momento final do discurso de Pai Sandro na mesa de abertura do Colóquio que causou grande euforia entre os participantes do evento.
197 religiosos nos Terreiros. Salientou ainda sua preocupação, enquanto gestor da saúde e integrante de movimentos sociais (Negro e LGBT), a grande incidência de AIDS253 e HIV254 entre a população negra e as dificuldades encontradas entre os agentes do SUS em efetuar o acompanhamento devido aos pacientes nas áreas periféricas. Também ressaltou o despreparo dos agentes das unidades de saúde nessas áreas em alcançar os membros dos Terreiros devido, sobre tudo, ao forte preconceito e à discriminação aos praticantes das Religiões Afro-brasileiras.
A Conselheira Nacional de Saúde e Coordenadora do Comitê de Saúde da população negra da Bahia, Ubiraci Matilde, por sua vez reforçou o discurso de Andrey R. Lemos destacando a necessidade de mobilização da população negra na tentativa de pressionar o Estado com o propósito de garantir a seguridade social dos cidadãos. Destacou, também, a relação íntima entre a saúde da população negra e o Estado de bem-estar social ao declarar em plenária, embasado na constituição brasileira, que “é dever do Estado propiciar
a garantia de direitos e a equidade social a todos os brasileiros, independente de raça, cor, sexo, idade ou religião que possam apresentar”.
A Professora e pesquisadora da EMESCAM, Maria Diana Cerqueira Sales, pautou-se em sua experiência obtida junto às CTTs durante a construção de sua tese de doutoramento255 e no seu trabalho junto aos discentes na unidade de ensino onde atua. Em sua declaração, trouxe à tona ao público a importância das ervas256 e suas múltiplas aplicações nos casos observadas em sua pesquisa. Além da sua manipulação, destacou ainda o saber medicinal fitoterápico que é transmitido entre as gerações nessas comunidades e que, ainda hoje, é recorrência primária em casos de patologias.
Concluiu sua participação apontando possibilidades vislumbres de compartilhamento dessa tradição com a população em geral através de
253
Síndrome da Imunodeficiência Adquirida.
254
Vírus da imunodeficiência humana.
255 Intitulada “Avaliação e caracterização de insumos bioativos da aroeira (schinus terebinthifolius raddi) com potencial econômico para o desenvolvimento tecnológico de
bioprodutos” e apresentada em 2013 ao Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da Rede Nordeste de Biotecnologia (RENORBIO) do Ponto focal Espírito Santo da UFES.
256
198 parcerias a serem construídas entre os membros dos Terreiros e os agentes das Unidades de Saúde (US) em áreas periféricas sob a supervisão do Estado.
Um episódio relevante ocorrido durante o Colóquio que coloca em xeque o estereótipo formado a partir de senso comum sobre os membros das RMAs, diz respeito ao histórico de envolvimento dos palestrantes com o meio. Dos cinco convidados a discursar no Colóquio - todos intelectuais ilustres e ocupantes de elevados cargos públicos - um deles (Andrey Roosewelt Lemos) explicitamente se declarou candomblecista desde vários anos sem ao certo especificar o tempo de sua filiação. Outros dois (Ubiraci Matilde e Maria Diana Cerqueira Sales) mesmo não declarando publicamente suas respectivas filiações religiosas, por inúmeras vezes deixaram transparecer em suas falas a grande empatia para com os Terreiros e seus membros. Ocasiões essas que sempre vinham precedidos por curtos relatos de memória sobre a ligação com os mais sábios do Terreiro.
Após o término das declarações emocionadas dos palestrantes, o otimismo tomou conta do auditório abrindo espaço para a participação do público presente. O primeiro a se antecipar à frente de todos foi Pai Geraldinho Ty Oxum257 que, apoderando-se do microfone, trouxe aos presentes algumas de suas experiências de cura obtidas através de ervas por intermédio de entidades da Umbanda. Reforçando a importância do emprego das ervas nos Terreiros, concluiu sua fala apontado para a necessidade de preservação e mapeamento dos lugares de extração das ervas, bem como a produção de estudos voltados para os benefícios da medicina fitoterápica utilizada pelos afro-religiosos.
Mãe Vera de Oyá258 e Pai Ari de Oxum259 foram os próximos a se manifestarem no auditório do MUCANE. A primeira, além de explicitar sua
257
José Geraldo das Mercês Junior, natural de Vila Velha/ES, é sacerdote do Ylè Àse Ìyà
Omim Osum Ìjimum (Nação Ketu) fundado em 2008. Terreiro de culto misto (Umbanda e
Candomblé) localizado no Bairro Nova Valverde no município de Cariacica. Apesar de ter participado do seminário de fundação do FOMAC realizado na PMC (2014) apenas em 2015 passou a participar das atividades da instituição. Além de Babalorixá também possui formação superior em Biologia.
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Vera Maria Das Dores Calazans, natural de Nazaré das Farinhas (BA), Iyalorixá responsável pelo Ilê Àse Oloroque Omo Oju Oyá (Nação Efon) fundado em 1970. Terreiro de culto misto (Umbanda e Candomblé) localizado no Bairro Vista Linda, município de Cariacica. No histórico de participação política do sacerdote na RMGV se destacam os cargos de delegada da UNESCAP (década de 1980); Membro da UNEGRO (2004), conselheira do Fórum Capixaba
199 vivência no Terreiro a partir do manuseio de ervas, lembrou a todos o saber ancestral de cura praticado nos Terreiros por Caboclo e Preto-Velho. Pai Ari de Oxum, por sua vez, endossou a fala da Iyalorixá passando a entonar cantigas de Terreiro que retratavam a importância das ervas, e, dançando acompanhado de Mãe Vera, embalou todo o auditório com a sua performance.
Findado as contribuições dos sacerdotes deu-se início ao almoço que foi servido numa outra ala do museu.