Aí domingo sim, a tal da sopa é sagrada. Domingo sem sopa e sem salada de batata não é domingo. É, de galinha (sopa), mas aí a gente bota osso e já mistura. É! Isso daí, sei lá, parece que daí é domingo. (Amanda, 28a)
Entre as famílias estudadas, a comida que não pode faltar na refeição de domingo é a sopa, mesmo quando recebem visitas, pois em algumas delas os familiares que residem na cidade ou em outras localidades se reúnem em busca desse prato, revelando a identidade do grupo com a comida. A sopa é preparada com carne de rês ou de galinha, além de legumes e massa. Em algumas famílias, esse hábito não se mantém no verão, devido ao calor.
Aí o fim de semana, quase sempre aqui em casa, aí aos domingos, o que tem que ter, para meu filho é assim, Deus o livre que ele venha em casa e não tem sopa. A sopa de galinha tem que ter, ou pode ser de pato ou de ganso, mas de ganso não é muito boa, a de pato, de galinha. Às vezes, eu faço purê de batata, salada de batata ou a batata só amassar ela, né, eles gostam muito de comer com sopa. Massa, não são muito de comer massa, é arroz, e batata, e verdura. Minha nora então já disse, nem faz muita coisa, porque mais eles
gostam assim, sopa, uma salada de batata, um arroz e uma carne frita, ou uma carne assada, quase sempre uma carne assim, no forno elétrico. (Olívia, 57a)
No inverno, eu costumo fazer sopão, a gente coloca geralmente carne de rês, alguma que tem osso, não só a carne, né, mais sempre diz que o osso é que dá o sabor. Aí tu escolhe uma carne assim, que tenha mais osso e coloca depois milho verde, eu uso muito, abóbora. Em dias especiais, geralmente aí tu vai no super (mercado), aí tu compra, assim, é um bife enrolado. (Lídia, 70a)
As relações sociais envoltas pela comida se manifestam desde a plantação, produção de alimentos, até a organização de festas envolvendo comensalidade (SCHMIDT; FARIAS, 2015). Entre as interlocutoras, ao receber as visitas aos domingos, a sopa é uma comida indispensável. Para DaMatta (1987), o ato de comer tem enorme importância social, como o cuidado na escolha da comida que será servida ao receber familiares e/ou amigos em sua casa.
A comida que ingerimos carrega consigo uma espécie de carga moral, resultando em nosso caráter, o qual é revelado pelo modo que comemos (MINTZ, 2001). A salada de batata e a carne assada no forno também são indispensáveis aos domingos, o que pode ser observado nos relatos de três integrantes de uma mesma família, ao serem questionados sobre a refeição nesse dia. As famílias, habitualmente, não fazem churrasco, costume frequente entre os gaúchos de outras regiões aos domingos, o qual fica reservado às datas especiais como aniversários, natal e ano novo.
Fim de semana a gente faz quase sempre sopa. (Inês, 47a)
Fim de semana, no inverno, é sopa. Essas galinhas caipiras, assim pra sopa, são melhores. (Dilma, 71a)
No verão é muito quente, aí a gente come salada de batata. Fim de semana a gente assa uma carne ali no forno, carne de porco. (Inês, 47a)
A gente compra carne de porco em Canguçu. (Neldo, 73a)
Churrasco só quando é Natal, né, assim fim de ano, lá de vez em quando, num aniversário. A gente nem sempre tem a carne aqui fora, né, quando a gente vai na cidade, aí tu compra um coxa (de frango), que é bom pra assar, ou tem que ter carne de porco, uma coisa que a gente também corta em pedaço, né, então pra assar já é melhor quando ela tá em costelinha. (Olívia, 57a)
No estudo realizado por Froehlich (2011, p. 76), com colonos-camponeses teuto-brasileiros, residentes em município gaúcho de São Paulo das Missões, o churrasco não é considerado comida de dia de semana, mas está reservado às ocasiões especiais e festivas. “Mais do que apenas comer o churrasco, o fazer um
churrasco – que envolve um grupo social – é caracterizado enquanto um ritual de
Uma pesquisa realizada em 1998, em Santo Cristo, RS, com colonos alemães, católicos, também identificou diferentes entre os alimentos consumidos cotidianamente, em datas especiais e domingos. Nos dias de festas e domingos consumiam churrasco, maionese e galinhada. No dia a dia, alimentam-se com feijão, arroz, batata, massa, mandioca, carnes (suína, bovina e aves) (HECK; LANGDON, 2002).
Usualmente, as carnes assadas no forno aos domingos são de galinha ou de porco.
É carne assada, né, ou carne frita assim, carne de galinha. Geralmente no meio da semana a gente não faz carne de galinha, então carne de galinha aos domingos. (Ilma, 70a)
As famílias preparam uma comida diferenciada para degustar no domingo, incluindo as sobremesas.
[...] Ah, final de semana tem que ter doce, porque eu sou do docinho, sempre tem que ter doce, aí eu faço doce. Às vezes, eu faço doce de batata-doce, doce de abóbora, doce de melancia, doce de gila, quando tem, e também faço pudim. No dia a dia, agora no inverno, aí então, às vezes, eu cozinho canjica, pra gente comer com leite quentinho, aí também é bom. No final de semana, a gente faz uma carne assada no forninho ou, às vezes, a gente faz um churrasquinho, mas assim no fim de semana é mais especial assim, diferenciado. (Lia, 39a)
Segundo Mintz (2001), os costumes relacionados à comida estão ligados à identidade social, revelando a cultura em que cada um está inserido. Para Amon e Menasche (2008), a comida é um modo de comunicação e pode representar as características de uma sociedade.
Entre as famílias rurais, os cuidados com a alimentação integram as práticas de cuidado à saúde realizadas. Para as interlocutoras há particularidades nos alimentos ingeridos nas diferentes fases do ciclo de vida, como infância e idade adulta (período gestacional e puerperal), as quais serão discutidas no capítulo 4.
Para as famílias investigadas, o alimento está diretamente relacionado com a terra na qual é produzido, garantindo sua procedência, e com o conhecimento de como foi cultivado, através do trabalho desempenhado pela família para sua produção, resultando em saúde, por meio de uma alimentação saudável (Figura 20).
Figura 27 – Imagem representativa da relação da alimentação com as demais categorias.
Fonte: figura elaborada pela autora.
De acordo com Woortmann (2006) e Woortmann (2013), a comida constitui uma categoria cultural nucleante. Quando se fala sobre comida, se fala sobre trabalho, sobre terra e sobre família. Outro aspecto relevante é o de que a comida, além de ser necessária para restaurar as energias gastas no trabalho, possui um significado simbólico (WOORTMANN, 2006).
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A comida delimita o território das famílias rurais e os hábitos alimentares reproduzidos. Para esse grupo, há diferenças entre os alimentos consumidos durante a semana e aos domingos, sendo a sopa uma comida que representa a identidade alimentar. Além disso, alimentos industrializados ou que desconhecem a procedência, são percebidos como potenciais fontes de malefícios à saúde.
Os momentos das refeições, são partilhados pelos integrantes da família, os quais reúnem-se ao redor da mesa para degustarem a comida preparada, conversar sobre os assuntos familiares e da comunidade, além de atualizarem-se sobre as notícias do município, geralmente ouvindo o rádio, durante o café da manhã. A alimentação foi a prática de cuidado à saúde mais significativa nesse grupo, sendo uma ação cotidiana, a qual permeia o cuidado com a produção dos alimentos produzidos para o autoconsumo entre as famílias, tanto de origem vegetal como animal, até o preparo da comida.
Capítulo 4 – Práticas de cuidado à saúde e suas repercussões entre as famílias