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Caractérisation électrique

4.5 Transistors mono-électroniques

4.5.3 Diamant à un électron

Os Encontros de Grupos Corais são um dos exemplos mais significativos da “sustentabilidade” do Cante, pelas características dos organizadores e pela diversidade de representações sociais que produzem. Entre os vários encon- tros que observei, destaco a 2.ª edição do Encontro de Grupos Corais de Vila Verde de Ficalho, organizado em Maio de 2015 pelo grupo coral feminino Flores do Chança. Um grupo formado em 2008 por vinte e uma mulheres, com idades compreendidas entre os 35 e os 80 anos de idade. Nas suas activi- dades quotidianas, estas mulheres desdobram-se entre as tarefas domésticas, o apoio aos filhos e netos, os trabalhos precários e a prática do Cante, com en- saios semanais e espectáculos aos fins-de-semana. Para além dos convites para actuarem noutras localidades, em função das redes sociais que construíram ao longo do tempo, participam em todas as festas da vila, cantando e angariando fundos por meio de quermesses, e decidiram nessa data organizar um Encon- tro para festejar o aniversário do grupo. Das vinte e uma cantadoras, apenas uma está empregada, treze são desempregadas de longa duração e as restantes sete estão reformadas. Margarida Castelhano é a coordenadora e assinalou que o grupo “começou por brincadeira, mas que o povo gostou tanto que passou a ser sério”66. A organização do Encontro dependeu do trabalho voluntário des- tas mulheres, que procuraram os apoios financeiros necessários à sua concre- tização junto de entidades públicas e privadas, neste caso a Junta de Freguesia de Ficalho, a Câmara Municipal de Serpa e a Caixa de Crédito Agrícola de Ficalho. Na véspera do Encontro, compraram a comida e as bebidas necessá- rias para o jantar-convívio, contrataram uma vizinha como cozinheira e con- feccionaram as sobremesas. Na manhã do Encontro, começaram a azáfama da decoração do Salão Multiusos (cedido pela Junta de Freguesia) para o jantar. Montaram mesas, arrumaram cadeiras, dispuseram pratos, copos, talheres e

flores para adornar. Algumas cantadeiras foram dispensadas no final da manhã para irem à cabeleireira, prescindindo do almoço colectivo. Durante o almoço, acertaram-se detalhes sobre a instalação do equipamento de som (cedido pela Junta de Freguesia), as ofertas aos grupos convidados, e definiram-se quais as cantadoras que os receberiam e acompanhariam no desfile pelas ruas da vila. Os grupos foram assim convidados em função das redes sociais construídas ao longo do tempo, segundo a lógica de reciprocidade que marca a cultura dos grupos corais alentejanos. Isto significa que os grupos convidados têm a obri- gação de retribuir o convite nas suas localidades, assim como as oferendas que recebem pela participação graciosa, segundo a “teoria da dádiva” de Marcel Mauss67, fundamentada na obrigação de dar, receber, e retribuir.

Grupo coral Flores do Chança. Vila Verde de Ficalho, 23/05/2015. Foto de Dulce Simões.

O trabalho e a iniciativa destas mulheres estabelecem uma relação entre cultura e economia, e representam um “espírito empreendedor” que não se inscreve na lógica empresarial. Antes pelo contrário, a festa obedece a um processo ritual e performativo que compreende a participação colectiva, e

cria espaços de sociabilidade e experiências musicais partilhadas pelos can- tadores e o público, que não dissociam as práticas musicais da dimensão da cultura. Como assinalou John Blacking, ao referir que “a música tradicional possui uma consistência performativa intuitiva, quando os seus executantes possuem uma gramática e um sistema musical interiorizados, que transmi- tem pelas suas práticas sociais”68. As festas organizadas pelos grupos corais alentejanos conferem poder e reconhecimento social a indivíduos e grupos, constituídos na sua maioria por pessoas desvinculadas, ou marginalizadas, dos centros de poder e de decisão das políticas culturais. Por outro lado, mostram-nos que junto à dinâmica da globalização, baseada na extensão da lógica mercantil às práticas da cultura, coexiste, e resiste, uma dinâmica cul- tural oposta e complementar de afirmação do Cante Alentejano baseada na reciprocidade e na solidariedade.

3.3. A “segunda vida” do Cante: objectificação e mercantilização

O conceito de “objectificação da cultura”, proposto por Richard Handler, designa o modo como determinados traços culturais são transformados em “coisas” que devem ser estudadas, catalogadas e exibidas, por meio de um processo de selecção e de reinterpretação. Segundo o autor, o “objectificador” olha para um meio que lhe é familiar e descobre que é composto de traços tradicionais, “coisas, que ele retira de um contexto adquirido e transforma em espécimes típicos”69. Ou seja, por meio de um processo de descontextualiza- ção e recontextualização, esses “espécimes”, identificados como tradicionais pelos “especialistas eruditos da cultura”, deixam de significar representações da vida social e cultural dos grupos, para serem exibidos como emblemas identitários subjectivos: como objectos patrimoniais. O conceito de “objecti- ficação da cultura” de Handler aproxima-se das ideias defendidas por Barbara Kirshenblatt-Gimblett sobre os processos de patrimonialização que injectam nos objectos patrimonializados “uma segunda vida, uma vida como exibição de si mesmos”70, como testemunhos de algo que deixaram de ser. Como muito bem observou o antropólogo João Leal:

68 Blacking 1995, 227. 69 Handler 1988, 77.

“passa-se o mesmo com a cultura quando objectificada. A sua vida antes da objectificação pode ser vista como a sua primeira vida. Quando a objectificação ocorre é uma segunda vida que se inicia. A sua primeira vida era coincidente com a própria vida social e cultural das comunidades. A sua segunda vida passa a ser vivida nos discursos patrimoniais construídos pelos eruditos e outros atores”.71

Na “segunda vida” do Cante, proliferam as iniciativas musicais pelo Alentejo e pelo país, nas mais diversas formas estéticas e artísticas, que conduziram, pela primeira vez, os grupos corais alentejanos à sala de espectáculos do Cen- tro Cultural de Belém, em Lisboa.72 Serpa comemorou o 1.º aniversário do reconhecimento do Cante Alentejano como Património Imaterial da Huma- nidade de 27 a 29 de Novembro, com a realização do Cante Fest’2015, através da apresentação de um programa musical desdobrado entre Serpa e Lisboa.73 No terreno, observei espectáculos que comemoraram o reconhecimento da UNESCO, como a Homenagem ao Cante na Amareleja, organizada pelos gru- pos corais da Casa do Povo, e em Barrancos, organizada pelo Município, no âmbito do programa da expoBarrancos 2015. Mas também observei eventos com objectivos promocionais da região do Alentejo, nomeadamente a 32.ª edição da Ovibeja (2015), a Festa do Cante nas Terras do Grande Lago, em Reguengos de Monsaraz, no âmbito da programação cultural da Cidade Eu- ropeia do Vinho 201574, e a promoção à Feira de Queijos do Alentejo 2016, em hipermercados do grupo SONAE nos arredores de Lisboa, que exigem algu- ma reflexão e questionamento sobre o uso do Cante como “produto turístico”.

Na 32.ª edição da Ovibeja, o Cante Alentejano serviu de tema para diversas representações em stands institucionais, para a criação de espaços expositivos no Pavilhão do Cante, e para a venda de publicações e de vários CD. Durante os cinco dias da Ovibeja, o Pavilhão do Cante apresentou uma exposição que

71 Leal 2013, 9.

72 Frota, Gonçalo. 2015. “A tradição do Cante chama outro Alentejo ao palco”, Público, 12 de Março. 73 Freitas, Ana Elias de. 2015. “Serpa comemora 1º aniversário do cante património mundial”. Rádio Voz da Planicie, 27 de Novembro.

74 “O ano de 2015 será de intensa atividade para afirmar a importância da produção vitivinícola da região, atestar a qualidade dos vinhos aqui produzidos e divulgar as potencialidades turísticas e econó- micas associadas ao Património Cultural Material e Imaterial, que confere toda a singularidade a este concelho alentejano”. Publicação no site do município: “Cidade Europeia do Vinho 2015. Reguengos de Monsaraz foi eleita Cidade Europeia do Vinho no ano 2015”, disponível em: http://www.cm-reguengos- -monsaraz.pt/pt/site-acontece/CEV2015/Paginas/cev-2015.aspx, consultado em 28/07/2015.

explicava aos visitantes a sua história ao longo do tempo, exibindo trajes fol- clóricos de vários grupos corais e disponibilizando cabines sonoras, nas quais podíamos escutar um conjunto de modas previamente seleccionadas. A Rádio Voz da Planície associou-se ao evento, ao editar uma revista temática e um CD com catorze modas de grupos corais do distrito de Beja, que esgotaram rapidamente. Para além das diversas exibições de grupos corais alentejanos ao longo do evento, realizou-se um “megaespectáculo”, denominado I Grande Encontro do Cante.

I Grande Encontro do Cante. Beja, 02/05/2015. Foto de Dulce Simões.

Em 2 de Maio, no Pavilhão Multiusos da Feira, mais de uma centena de gru- pos corais, representados por cerca de dois mil e trezentos cantadeiras e can- tadores, interpretaram em uníssono cinco modas, acompanhados pelas vozes de mais de trezentas pessoas que esgotaram o espaço do Pavilhão. Os grupos participantes foram submetidos a um processo de selecção pelos respectivos municípios, que asseguraram o transporte até ao recinto da Feira. Os cantado- res, pontos e altos, foram escolhidos pela organização do evento, assim como as modas: Alentejo, Alentejo; Alentejo, és nossa terra; Dá-me uma gotinha de

água; Ao passar da Ribeirinha e Castelo de Beja. Entre os participantes estavam cerca de seiscentos cantadores residentes na Área Metropolitana de Lisboa, que viajaram para o evento no designado “Comboio do Cante”, acompanhados pela comitiva da Casa do Alentejo, e por jornalistas e operadores de câmara da comunicação social. Considerando a mediatização e a dimensão do Encontro, a organização decidiu acolher todos os grupos num ambiente de festa e de visita à Ovibeja, atribuindo 7 euros a cada cantador e oferecendo um lanche no final da actuação. O espectáculo representou um momento de afirmação identitária da região do Alentejo e da “cultura alentejana”, segundo uma lógica de mercantilização de práticas da cultura, que merece a atenção e reflexão dos investigadores envolvidos em processos patrimonializadores.

Na mesma lógica de mercantilização da cultura, realizou-se a campanha de divulgação da Feira de Queijos do Alentejo, promovida pelo município de Serpa no fim-de-semana de 30 e 31 de Janeiro de 2016, em quatro hipermer- cados Continente (Oeiras, Amadora, Seixal e Centro Comercial Colombo) e na Casa do Alentejo em Lisboa. A iniciativa partiu do Gabinete de Apoio ao Desenvolvimento Económico e Social (GADES) da Câmara Municipal de Serpa, no âmbito dos programas de Apoio ao Empresário, em parceria com o Grupo SONAE e a Casa do Alentejo, e insere-se nas políticas de “desenvolvi- mento sustentável” do Alentejo, ao promoverem queijos e grupos corais como “produtos turísticos” da região.

Arraianos de Ficalho no hipermercado Continente do Seixal, 30/01/2016.

O presidente da Câmara Municipal de Serpa, que acompanhou os grupos corais, considerou a participação dos cantadores neste tipo de eventos como uma forma de retribuírem o apoio de alguns produtores de queijos à divulga- ção do Cante no estrangeiro.75 Mas, com estas práticas, os municípios e outras entidades públicas e privadas envolvidas no plano de desenvolvimento turís- tico do Alentejo podem conduzir à degradação e empobrecimento do Cante Alentejano, ao mesmo tempo que geram grupos de pressão influentes, que obedecem a apreciações de ordem comercial direccionadas para uma indús- tria de serviços degradante e de imagens superficiais, de exploração e mercan- tilização da cultura.

75 Segundo o presidente da Câmara Municipal de Serpa, a deslocação do Rancho de Cantadores da Al- deia Nova de São Bento à sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque, em Junho de 2015, foi financiada por um produtor de queijo da região de Serpa. Em entrevista ao jornal Luso-A-