Segundo Roberto DaMatta (1982), o futebol no Brasil não é apenas um esporte, desde o início o futebol sempre esteve ligado à ideia de jogo, e enquanto jogo que ele é colocado como dramatização popular, onde questões da sociedade brasileira, como o racismo, machismo, sexismo, são colocadas em cena. É importante ressaltar que DaMatta se inspirou em Victor Turner para trabalhar com a noção de dramatização. Victor Turner (1996) em “Schism and continuity in an African society” procurou compreender como os rituais funcionavam no contexto de vida dos Ndembos. Turner analisou os rituais a partir dos dramas sociais presentes na aldeia, explorando tanto o nível individual quanto o social e observou que a instabilidade do local era estabilizada pelo comportamento ritual, que facilitava de certa maneira, a união das linhagens e habitantes das aldeias. Para Turner, o drama social seria uma sucessão encadeada de eventos que conformam a estrutura do campo social a cada ponto significativo de parada no fluxo do tempo. DaMatta enfatiza, no entanto, que pretende dar uma amplitude a noção de dramatização de Turner, utilizando a noção como uma modalidade do ritual e da ritualização, em suas palavras “como um ingrediente básico do processo de ritualização”. (DAMATTA, 1982, p.21)
DaMatta propõe analisar o futebol de forma conjunta com a sociedade, pois em sua análise o futebol faz parte da sociedade assim como a sociedade faz parte do esporte, “impossível compreender-se uma atividade (ou um plano de atividades) sem referência à totalidade na qual está inserida. Esporte e sociedade são como as duas faces de uma mesma moeda e não como o telhado em relação aos alicerces de uma casa.” (DAMATTA, 1982, p. 23)
DaMatta chama atenção para o erro que é ver o futebol como “ópio do povo”, como se o futebol fosse algo que servisse apenas para desviar a atenção das massas. O autor enfatiza que o esporte é uma atividade que está presente na sociedade, e não uma atividade que está em oposição ou competição com a mesma.
Para conseguir responder as questões que envolvem o futebol, o autor aponta que é necessário começar por um estudo comparativo do significado do esporte e do futebol em diferentes sociedades, em suas palavras seria uma “discussão sutil, mas básica para uma sociologia do esporte” (DAMATTA, 1982, p.25). O autor realiza uma comparação entre os sentidos do futebol atribuídos por ingleses, americanos e brasileiros. Enquanto o futebol para os ingleses e americanos é apenas um esporte, assim como o tênis, o golfe ou basquete, no Brasil o futebol sempre veio acompanhado do qualificativo jogo. No Brasil, as pessoas vão assistir a um jogo de futebol. É um evento, onde a partida será classificada como um “jogo bom ou ruim”. Não se trata apenas de um esporte, é algo levado a sério. O autor destaca que no Brasil não se “fala” de futebol e sim se discute sobre o assunto, assim como discutimos política e religião.
Ao passo que no Brasil, o esporte é vivido e concebido como um jogo. É uma atividade que requer táticas, força determinação psicológica e física, mas também depende das forças incontroláveis da sorte e do destino. Realmente, nos comentários após os jogos de futebol, no Brasil, existem muitas situações em que se sabe que um dos times não jogou somente contra o tempo e o adversário, mas também contra o destino que deve ser modificado ou corrigido para que a vitória possa lhe sorrir. (DAMATTA, 1982:25)
Outra diferença apontada nesse estudo comparativo de DaMatta é em relação à individualização e coletividade. O autor aponta que uma das características que distinguem o futebol europeu do futebol brasileiro é a improvisação. Sabemos que quando DaMatta escreveu esse texto o futebol brasileiro vivenciava seu auge, na década de 80, com ídolos como Zico e que atualmente, na opinião de muitos, o futebol vem ficando cada vez mais
técnico. Mas acredito que essa ideia ainda faz muito sentido, pois por mais técnica que seja a escalação de um time, ainda contamos com o talento individual de nossos atacantes. DaMatta destaca que “o futebol é, na sociedade brasileira uma fonte de individualização e possibilidade de expressão individual, muito mais do que um instrumento de coletivização ao nível pessoal ou das massas”. (DAMATTA, 1982:27).
Neste sentido, poderíamos comparar o futebol brasileiro com o jazz, que é um estilo musical marcado, sobretudo, por sua improvisação. Assim como no futebol, no jazz, aqueles que são capazes de improvisar acabam se destacando sobre o seu grupo. Como observou Éric Hobsbowm “o jazz é uma música de executantes” (HOBSBOWM, 1990, p.45), pois segundo o historiador, tudo no jazz está subordinado à individualidade e improvisação dos músicos. Hobsbowm destaca que o swing presente no jazz resiste a qualquer tipo de análise. Acredito que o swing poderia ser comparado a “ginga” do brasileiro em campo. Qual historiador, sociólogo ou antropólogo foi capaz de explicar os dribles de Pelé ou qualquer lance genial de nossos jogadores em campo? É possível apenas analisar a forma abrasileirada de jogar, como veremos a seguir, mas não a jogada em si. O improviso em campo desmonta não apenas o time adversário, mas também todos aqueles que pretendem analisá-lo.
O futebol neste trabalho será estudado seguindo a perspectiva de DaMatta como sendo um veículo capaz de provocar uma série de dramatizações do mundo social. Para DaMatta uma das principais características do drama é “a sua capacidade de chamar atenção, revelar, representar e descobrir relações, valores e ideologias que podem estar em estado de latência ou de virtualidade num dado sistema social”. (DAMATTA, 1982:29).
Dessa maneira, se pensarmos o futebol capixaba, um futebol que é formado, sobretudo por atletas de outros estados podemos observar que o futebol é capaz de revelar muito sobre a formação social e econômica do Espírito Santo, como veremos mais adiante. Como observou o meu orientador em uma das suas observações, o capixaba acaba vivendo um “drama permanente” e frente às diferenças da sua formação “o drama do capixaba desavisado é querer construir uma sociedade homogênea”.