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Com o início da democratização, o país passa por um momento de renovação e de construção democrática. Assim, elege, pelo voto direto, para presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, que governa de 1995 a 2002 – um período de dois mandatos.

Em seu governo, a universidade brasileira sofreu forte influência das políticas neoliberais, desvirtuando-se, assim, sua característica original, na medida em que ela passa a ser concebida como mercadoria ou serviço. Com esse encolhimento das funções do Estado, a educação superior deixa de ser considerada como um dever desse ente e um direito do cidadão, uma vez que perde seu caráter socialmente referenciado. Para tanto, foram realizados contratos de gestão com organismos internacionais para a efetivação das parecerias público- privadas, por meio de linhas de financiamento com o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e a Organização Mundial do Comércio. Na citada gestão, foi dada ênfase à estabilidade monetária e à priorização do pagamento dos juros das dívidas governamentais. O governo FHC foi marcado ainda pelas privatizações de empresas estatais, a exemplo da Vale do Rio Doce, e restrições nos gastos públicos, aumentando o índice de desemprego. Deixa em segundo plano a aplicação de recursos nas áreas sociais, em especial na educação.

Na área da educação, foi priorizado o ensino fundamental, ficando o ensino superior relegado a um segundo plano. Implantou-se uma política de fortalecimento das instituições privadas, em detrimento das universidades federais, que tiveram recursos contingenciados, o que levou a seu sucateamento, com consequente desvalorização dos seus recursos humanos (SOUSA JUNIOR, 2011).

Vale destacar que, nesse período, foi criado o Exame Nacional dos Cursos, conhecido como “provão”, para as instituições públicas e privadas, tendo como objetivo avaliar o desempenho acadêmico dos estudantes e de suas respectivas instituições de ensino.

Alves e Soares (2008) destacam que, no período FHC, a autonomia universitária, apesar de amplamente discutida no âmbito do Governo e no meio acadêmico, não foi regulamentada. Esse descompromisso reforçou a manutenção do status quo, fato que evidenciou o acesso ao ensino superior como um privilégio de uma minoria, excluindo-se do processo os estudantes de origem popular.

Na gestão de FHC, as universidades brasileiras não foram priorizadas, apesar de o país viver um momento democrático. Os recursos disponibilizados pelo Estado eram escassos, as ações fragmentadas e pulverizadas, impossibilitando que as camadas populares tivessem acesso às universidades públicas e perpetuando o caráter excludente que marcou a história da educação no Brasil.

Mesmo com reivindicações dos órgãos que militavam em favor da ampliação de vagas e aumento de recursos para as universidades públicas, como o Fórum Nacional dos Pró- Reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis (FONAPRACE), a Associação Nacional de Docentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES) e o movimento estudantil, o que se observava era, cada vez mais, a criação e a ampliação do número de universidades e faculdades privadas. Muitos estudantes que precisavam concluir o ensino superior viam, nessa modalidade de acesso, uma maior facilidade, em função de essas instituições apresentarem menor concorrência do que as instituições federais, que exigiam dos estudantes concluintes do ensino médio um nível de conhecimento e formação intelectual com maior rigor.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve início em 2003 e findou em 2010. Caracterizou-se pela expansão da rede universitária federal e a inclusão de indivíduos egressos de setores socialmente excluídos. No início de sua gestão, foi criado, em 20 de outubro de 2003, o Grupo de Trabalho Interministerial (GT), com o objetivo de analisar a situação das IFES e apresentar um plano de ação visando à reestruturação, ao desenvolvimento e à democratização do ensino superior (SANTOS; CERQUEIRA, 2009).

Para atender às camadas de origem popular ingressantes nas universidades federais, o Ministério da Educação criou o Plano Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), demanda antiga das IFES, motivo de debates no FONAPRACE e reivindicação do movimento estudantil, que, por muitos anos, vinha lutando por recursos para a assistência estudantil.

Nos últimos anos, foram implementadas políticas que contribuíram para mudanças significativas no ensino superior, principalmente atendendo às demandas do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE). Os principais exemplos são: o novo Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM); o acréscimo de um ano no ciclo de ensino fundamental; a reforma universitária, que engloba programas e medidas provisórias, como o Programa de Apoio a

Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI); o Programa Universidade para Todos (PROUNI), criado em 2004 pela Lei 11.096, que promoveu aumento de ingressos no ensino superior na rede privada, com recursos do FMI, Banco Mundial; o Ensino à Distância, entre outros. Além desses programas o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) foi criado em 2001 pela Lei 10.260, ainda na gestão FHC, porém sua expansão e fomento se deram no governo Lula. O FIES foi criado para propiciar o acesso de estudantes que necessitavam trabalhar e somente poderiam ingressar nas instituições privadas de ensino superior por meio de linhas de crédito.

A gestão do governo Lula foi marcada pela expansão da educação superior no Brasil. De acordo com Soares (2002), no período de 1995 a 2001, ou seja, no governo FHC, houve uma redução no número de instituições públicas – de 222 para 183, com uma queda da ordem de 17,6%. Já na década seguinte, entre 2001 e 2011, ou seja, no governo Lula, verifica-se um aumento de 183 para 284, o que caracteriza uma taxa de 55,2% de crescimento. Entretanto, o ápice desse aumento ocorreu em 2007, com a criação do REUNI, já citado (RISTOFF, 2013).

De acordo com os dados do MEC, houve um crescimento de 45 para 59 universidades federais no período de 2003 a 2010, o que representa um aumento de 31%; ademais, há a proposta de continuidade, no governo Dilma Rousseff (2010-2014), de implantar quatro novas universidades para atingir, em 2014, o total de 63 instituições federais de ensino superior. A política de expansão no ensino superior se efetivou concomitantemente à interiorização e redistribuição regional. Com essa medida, dos 148 campi existentes no período 2003-2010, passou-se para 274 campi-unidades, atingindo um crescimento de 138% (Brasil, 2013).

Segundo Soares (2002), é importante destacar que, na evolução da história do Brasil, fica caracterizada a criação de 45 universidades no período entre 1919 até 2002, sendo que 11 foram criadas entre 1956 a 1961; no período entre 2003 e 2010, foram criadas 14 novas universidades federais, o que caracteriza a preocupação dos últimos governos com as classes populares, na perspectiva de ingressarem nas universidades públicas, mudando o caráter predominantemente elitista que sempre permeou a educação superior no Brasil.

Com a democratização do acesso ao ensino superior, houve uma crescente demanda de estudantes originários de famílias em situação de vulnerabilidade socioeconômica que ingressaram nas universidades federais, beneficiados, sobretudo, pelas políticas de cotas sociais e raciais através da inclusão de jovens pretos, pardos e índios oriundos de escola pública. Esse fenômeno foi potencializado a partir da interiorização das universidades e da

ampliação das vagas e dos cursos, principalmente em decorrência das verbas do REUNI, e do decreto do PNAES, que libera recursos para atender às demandas da assistência estudantil.

Apesar de, nos últimos anos, ter havido avanços significativos em relação ao ingresso de estudantes de origem popular no ensino superior, existe a necessidade de que sejam adotadas políticas de permanência que deem condições a esses discentes de usufruírem o direito não só de ingressar, mas de permanecer na universidade pública. Sabe-se, pois, da importância da ampliação de recursos para que sejam efetivadas ações concretas nesse sentido. Uma das justificativas para essa questão é o elevado número de jovens que abandona o ensino superior em decorrência de não poder trabalhar enquanto estuda, além da falta de condições econômicas de suas famílias para mantê-los em outra cidade. Dessa forma, é responsabilidade do Estado planejar recursos e dotar as universidades de infraestrutura capaz de atender às demandas dos novos atores que buscam a universidade como forma de romper a desigualdade histórica.

3 PERMANÊNCIA DOS ESTUDANTES DE ORIGEM POPULAR NAS

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