de sindicatos, mas as notícias encontradas permitem verificar os motivos pelos quais se formavam algumas destas novas entidades: os operários formavam-nas para unir forças ou porque existiam dissidências no seu seio.
Em julho de 1913, os operários pedreiros decidiram formar a sua associação de classe, saindo da AC das Quatro Artes da Construção Civil, «não se conformando com a orientação tomada pelos [seus] dirigentes»26. Essa orientação está relacionada com uma greve que os operários da
construção civil realizaram, entre 12 de maio e 9 de junho do mesmo ano, pela diminuição de horário de trabalho: como resultado, a AC das Quatro Artes da Construção Civil aceitou a proposta do patronato em manter o horário, mas aumentando o salário27. Os operários deste sector só
voltariam a estar reunidos numa mesma entidade quando os operários pedreiros deram a sua adesão ao sindicato único (SU), em novembro de 1921, como veremos mais adiante.
Outra associação que se formou a partir de divergências foi a AC dos Chauffeurs e Condutores de Automóveis do Minho, criada em março de 1924, sendo os motoristas bracarenses, antes desta data, membros da associação congénere do Porto. O motivo do conflito, descreve-nos o Diário do Minho, foi que
os sócios em Braga da associação do Porto mandaram fazer uma bandeira de seda bordada a ouro para seu uso e representação da classe em qualquer ocasião, e solenidade. A associação do Porto exigiu que essa bandeira fosse para lá e não fosse privativa dos representantes da associação em Braga. A classe dos chauffeurs de Braga, que conta nada menos de cento e tantos membros, resolveu agora emancipar-se da tutela da associação do Porto, criando uma associação sua que represente a associação em Braga, e onde os seus
26 s/a, «Nova associação de classe», Ecos do Minho, 20 de julho, 1913: 4. 27 Cf. s/a, «Greve operária», Comércio do Minho, 10 de junho, 1913: 1.
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especiais interesses sejam defendidos mais eficaz e convenientemente do que o tem sido
pela associação do Porto28.
A associação do Porto não velava pelos interesses dos motoristas bracarenses, pelo que estes criaram a sua própria associação de classe. Esta nova associação não tinha carácter anarcossindicalista, sendo criada apenas para ajudar os seus sócios em caso de necessidade29.
Quer fossem reformistas ou sindicalistas, as associações de classe e os sindicatos tinham como principal função atender aos interesses dos membros da classe.
Foi precisamente com o intuito de defender os seus interesses que, em setembro de 1916, os operários manipuladores de pão decidiram constituir a sua associação de classe, pedindo o auxílio de delegados da associação congénere do Porto. Na reunião da classe para a formação da associação, Domingos Joaquim de Azevedo, delegado portuense,
pronunciou um longo discurso, elogiando os manipuladores bracarenses pela forma como se unem, demonstrando em seguida o valor e o respeito que tem a associação para as suas reivindicações e defesa dos seus interesses. Manuel José Pereira [também delegado do Porto] congratula-se pela forma como os seus colegas de Braga se conduziram, salientando
o valor que tem uma associação perante os poderes públicos e as garantias que traz. […] O
sr. Manuel José Pereira em nome da associação do Porto, saudou a comissão administrativa [eleita para formar a associação de classe] e todos os manipuladores de pão de Braga, apelando para que se filiem na sua associação para que ela seja exemplar na sua norma de
conduta30.
Em dezembro de 1919, os operários fabricantes de pregos decidiram igualmente constituir a sua associação de classe, sendo auxiliados por delegados do sindicato metalúrgico do Porto, que foram recebidos na estação de caminhos-de-ferro «por uma banda de música e algumas associações de classe, […] organizando-se dali até a local da reunião um cortejo em que tomou também parte grande número de camaradas»31.
28 s/a, «Associação dos Chauffeurs de Braga», Diário do Minho, 26 de março, 1924: 2.
29 Cf. s/a, «Associação de classe dos chauffeurs condutores do Minho», Diário do Minho, 2 de abril, 1924: 2. 30 s/a, «Associação dos manipuladores de pão», Ecos do Minho, 29 de setembro, 1916: 2.
31 s/a, «Braga, 23: a favor de A BATALHA. Sessão dos operários fabricantes de pregos. A União Local e câmara municipal. A carestia continua», A
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Os fabricantes de pregos pertenciam ao sector metalúrgico, mas resolveram não aderir ao respetivo sindicato único, que já tinha sido formado32. O SU Metalúrgico não deixou de fazer
propaganda aos operários fabricantes de pregos, «a fim de elucidar os seus camaradas das vantagens do Sindicato Único»33. Contudo, não sabemos se essa propaganda teve o resultado
desejado, pois não há informações sobre se os fabricantes de prego chegaram a aderir ao SU: a última referência à sua associação aparece em junho de 1920, quando a USO fez sessões de propaganda em várias associações de classe e sindicatos que estavam inativos34.
As informações que dispomos sobre a formação de sindicatos únicos são poucas. Em outubro de 1921, o SU da Construção Civil realizou uma sessão de propaganda, com a presença de dois delegados portuenses e com «todos os componentes desta indústria a fim de se fazer a fusão entre os camaradas pedreiros que se encontram desligados daquele sindicato»35. A
propaganda deu frutos, pois no mês seguinte os operários pedreiros aderiram ao SU da Construção Civil, contribuindo para o facto a Juventude Sindicalista, «que constantemente enviava àquele Sindicato delegados seus, incumbidos de expor as vantagens que adviriam do congraçamento das classes construtoras num só Sindicato»36.
A união das forças na luta contra o patronato era uma das principais vantagens da criação de sindicatos únicos. Neste sentido, em maio de 1922, os manufatores de calçado constituíram- se em sindicato único, com o auxílio de dois delegados do Porto37. A Federação da Indústria de
Calçado, Couros e Peles também contribuiu para o facto, uma vez que tinha estado a desenvolver trabalhos de propaganda em toda a região do Norte. Relata-nos o jornal A Batalha que
as classes que formam este Sindicato são as dos Manufatores de calçado, tamanqueiros, surradores e correeiros, existindo nos operários destas classes o maior entusiasmo pela organização do Sindicato Único, por reconhecerem nele o verdadeiro defensor dos seus interesses. Realizaram […] uma reunião magna de todas as classes aderentes, com a presença de delegados do Porto expressamente convidados para assistirem a esta reunião,
32 A primeira referência sobre o SU Metalúrgico aparece na imprensa em outubro de 1919, cf. Manuel Henriques de Sousa Sampaio, «Sindicato
Único das Classes Metalúrgicas de Braga», A Batalha, 4 de outubro, 1919: 3.
33 s/a, «Braga, 8: a ação da União Local. A carestia da vida. Reclamações operárias», A Batalha, 11 de dezembro, 1919: 3.
34 Cf. s/a, «Braga, 1: a vida impossível. Os padeiros têm as 8 horas. Sessão solene. Propaganda associativa. Greves», A Batalha, 6 de junho, 1920:
3.
35 s/a, «Braga: 5 de outubro», A Batalha, 8 de outubro, 1921: 3. 36 s/a, «Braga: 1 de novembro», A Batalha, 3 de novembro, 1921: 2. 37 Cf. s/a, «Braga: 21 de maio», A Batalha, 24 de maio, 1922: 2.
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aonde fizeram uma verdadeira sementeira dos ideais de redenção humana, terminando a
sessão no meio de grande entusiasmo, com vivas à CGT e trabalhadores de todo o mundo38.
Conscientes das vantagens da sindicalização, os operários tamanqueiros decidiram aderir ao sindicato único. José Silva, nas suas memórias, relatava que a classe era «muito humilde, completamente desorganizada, mas quando verificaram os benefícios que os operários sapateiros estavam colhendo da sua organização, pediram a sua inscrição no sindicato»39. A Batalha ainda
descrevia que os industriais de tamancaria aumentaram em 15% o salário dos seus operários, sem estes fazerem qualquer reclamação, apenas por estarem a sindicalizar-se40. Este aumento
não foi uma congratulação pelo facto de os operários fazerem parte do sindicato, mas antes uma maneira de prevenir possíveis reivindicações, incluindo greves.
Como já afirmámos, são poucos os dados sobre o processo de criação destes sindicatos, mas sabemos quais foram as associações bracarenses que se converteram em sindicatos únicos: em 1919, o SU Metalúrgico; em 1920, o SU da Construção Civil; em 1921, o SU dos Manipuladores de Pão; em 1922, o SU dos Operários Chapeleiros, o SU Mobiliário e o SU dos Operários da Indústria do Calçado, Couros e Peles.