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DIAGNOSTIC ECOLOGIQUE

Groupe 1 : installations de chantier et travaux

IV. DIAGNOSTIC ECOLOGIQUE

Se deixei o Sintext como último exemplar é porque ele é de alguma forma paradigmático com relação aos outros exemplos aqui abordados. Ele parece levar ao extremo a concepção e modo de operar do Labyrintho al modo de el juego de el axedrez e do "Tudo pode ser dito em um poema" e, ao mesmo tempo, ele sintetiza o modo de operar das outras obras aqui abordadas.

A primeira questão que devemos colocar é o que é a obra aqui? Os poemas gerados ou o programa? Efetivamente, o que tenho se eu

75 Pode-se fazer coisas mais simples mas igualmente interessantes, como, por

exemplo, pegar todos os sonetos de um poeta e permutá-los criando uma base que ainda gere algo com a forma de um soneto (pode-se ir mais além e escolher os versos para que sempre saiam com a mesma rima). Abre-se, dessa forma, para todo tipo de brincadeira literária. Outro exemplo muito à moda dos centões antigos, seria criar uma base que escolha sempre oito versos de cada canto d'Os

Lusíadas para gerar um total de 10 estrofes-sínteses do poema original, ou seja,

é possível emular uma atividade comum das antigas academias seiscentistas, como este soneto de António de Oliveira da Academia Brasílica dos Esquecidos intitulado: Aos Excelentíssimo Senhor Vasco Fernandes César de Meneses

preclaríssimo Vice-Rei do Estado do Brasil, que em seu Palácio dá entrada às Musas do Parnaso, as quais (como de Mercúrio) invocam do mesmo Senhor a eloqüência (CASTELLO, 1969, p. 55).

tento ler os resultado? Bem, a resposta é que posso até encontrar poemas interessantes, como esse aqui gerado a partir do exemplo:

< PORTO> (trovas electrónicas)

a saudade do granito na pedra da historia a saudade da pedra na historia do granito da saudade do granito a historia da pedra no granito da pedra da saudade da historia da pedra a historia na saudade do granito o granito da historia na pedra da saudade na pedra do granito a saudade da historia o granito da historia na saudade da pedra o granito da pedra na historia da saudade o granito na historia da pedra da saudade da pedra o granito da saudade na historia o granito da saudade na pedra da historia

Mas em geral encontrarei uma constante repetição de certos elementos, de certas estruturas e de certos tipos de composição na mesma base de permutação, o que não é nada de espantoso, trata-se do mesmo efeito que vamos ter se tentarmos ler todos os poemas das atas das reuniões da Academia Brasílica dos Esquecidos. Vamos encontrar a constante repetição temática, de estruturas, de tipos de verso, ou seja, a constante repetição limitada dos procedimentos retóricos e poéticos em vigor.

Se tentar apenas ler os resultados gerados no Sintext, irei ignorar todo um procedimento e funcionamento – uma maquinação – que é a base do Sintext. Este tende a ser nosso costume – formado a partir de uma tradição neoclássica e romântica –, ler apenas os resultados, o poema final, como se somente esse objeto pudesse ser a obra de arte. Isso é ignorar a o local de produção e o ato performático de ação da obra. É algo que, como falei em algum momento anterior, não era ignorado pela produção seiscentista, pois estava atenta às normas retóricas e acostumada à produção e leitura de obra como evento público.

Destarte, se considero o Sintext todo, eu leio o engenho (que é o que eu tenho feito até aqui com os exemplos). Se compreendo o mecanismo, eu leio o engenho e artifício. E aqui aprendemos algo com a produção retórica-poética seiscentista. Ler o engenho é ler a obra como um mecanismo todo, não como uma parte, mas como um funcionamento

total, como construto, como uma totalidade emergente maior que as partes e como um construto/artifício performático que engendra ação. É necessário então considerar a obra como uma totalidade maquínica em que tudo opera junto para engendrar ação, e compreendê-la juntamente com o ato performático necessário para que a obra venha a ser.

Mas em que sentido os textos gerados são humanos ou não? E nos labirintos seiscentistas e no poema de Melo e Castro? Posso argumentar que um humano pode colocar certa quantidade de possibilidade (por exemplo, pode-se dizer que ele pense em sua produção de modo tal que seja sobre amor) e que o resultado irá refletir essa posição do programador. É bastante fácil ter uma noção do que os meus dois exemplos apresentados iriam gerar. Entretanto, complicações surgem se se aumenta a quantidade de elementos, chegando ao ponto em que se pode até ter uma vaga noção do que virá, mas não a certeza dos resultados. Eventualmente, nem mesmo essa vaga noção (basta lembrar dos exemplos em prosa feitos por Pedro Barbosa, já bastante grandes e com um variado acervo de possibilidades).

O extremo de processamento do Sintext evidencia que quem programa nele não pode ter em mente todas as possibilidades de efetivação do código-fonte. O que ele produz é um campo potencial, um campo de possibilidades de poemas, cuja existência individual ele não tem como prever; o que invalida qualquer possibilidade de uma explicação expressivista de transmissão de sentido, já que o "autor" não produz diretamente aquele poema específico, mas apenas um campo possível.

O Sintext, como máquina, produz um poema funcionalmente, ou seja, como resultado de uma operação em que os meios operam para os fins. Para a máquina não há "inspiração", há um trabalho sobre elementos e regras dentro de um corpus (predeterminado ou não). A produção maquinal é fruto de uma funcionalidade automática e fortuita dentro de uma série de regras preestabelecidas. Ela opera dentro de um jogo de possibilidades e cruzamento de elementos. O que leva ao fato de que noções de autenticidade, emoção, inspiração, verdade, na forma que foram herdadas do romantismo, não têm pertinência dentro de seu operar. Por essa razão, seria o caso de perguntar se algum dia teriam sido pertinentes (com relação ao fazer poético, ou se não estaríamos desde sempre nesse âmbito maquínico, acreditando e elaborando uma

elucubração mística para o ato de fazer que é, no fim das contas, bastante terreno)76.

Desse modo, podemos dizer que não há transcendência possível no Sintext, não há anterioridade ao procedimento maquínico, pois ele se faz na sua ação. Não adianta tentar encontrar a permanência de um sentido intencionado por um autor, visto que os textos produzidos têm sua origem nas combinações de uma máquina. O interessante é que os mesmos procedimentos de produção computacional permutativa do Sintext poderiam ser executados fora da máquina por um ser humano, como efetivamente o fez o poeta E. M. de Melo e Castro em seu "Tudo pode ser dito num poema"(1977, p. 98). A pergunta então seria, será que em algum momento valeu a transmissão de sentido ou emoção? Será que as produções das academias seiscentistas não eram igualmente maquínicas, aceitando um conjunto de regras e coordenando seu fazer com elas?

Outro fator interessante é que as tentativas de compreender o Sintext e as produções geradas por ele tendem a considerá-los como brincadeira, como uma máquina, como artificial e, por isso, como não sendo arte. Ao mesmo tempo, quando se aceita o Sintext e sua produção, eles são vinculados ao ser humano o máximo possível, ressaltando-se que é um humano que escreve a programação e que, portanto, até o poema gerado mesmo sem que o poeta tenha previsto ou elaborado é em alguma instância feito – mais "distantemente" – por um humano. Ou seja, em ambos, a desqualificação e a aprovação estão fundadas em uma base humanística de origem neoclássica e romântica. Ambas estão fundadas sobre uma noção de obra de arte bastante limitada e historicamente datadas, porém, entranhadas de tal forma no nosso modo de ver a obra de arte, que nos aparece como sendo atemporal ou a priori. A minha tese é que, se compreendermos bem Sintext e os outros exemplares através dos conceitos de ação, artifício/construto, engenho e máquina, teremos outro modo de compreender o que é uma obra de arte. Ou seja, entrecruzando os exemplares seiscentistas e de arte digital

76 A impertinência dos conceitos românticos no operar do Sintext não implica no

isolamento ou ausência de "vida" daqueles que o operam e apreendem (estes vivem, sofrem, trabalham e morrem, obviamente influindo no seu fazer). O que a impertinência dos conceitos românticos indica é a inadequação destes para pensar o dado da arte e na necessidade urgente de questionar o paradigma romântico e elaborar novas ferramentas conceituais para lidar com a arte literária atual (até mesmo compreender outras possibilidades para estes conceitos).

contemporâneos é possível estabelecer um novo modo de compreender o que é uma obra de arte.

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